Anualmente, o Brasil figura entre os países mais empreendedores do mundo segundo o
Global Entrepreneurship Monitor (GEM). Será que somos realmente um país empreendedor?Somos uma nação que estimula e promove o empreendedorismo?
Trata-se de um consenso entre pesquisadores e demais estudiosos que os empreendedores são a locomotiva do desenvolvimento econômico, os responsáveis pelas mudanças econômicas de qualquer país. O seu papel envolve muito mais do que apenas o aumento de produção e da renda
per capita. Trata-se de iniciar e constituir mudanças na estrutura de seus negócios e da sociedade. Essas mudanças são acompanhadas pelo crescimento e por maior produção, o que possibilita que mais riqueza seja dividida pelos vários participantes. Teorias de crescimento econômico apontam a inovação como o fator mais importante, não apenas no desenvolvimento de novos produtos ou serviços, como também no estímulo ao interesse em investir nos novos empreendimentos criados. O empreendedorismo atua como uma força positiva no crescimento econômico ao servir como ponte entre a inovação e o mercado (uma curiosidade: a palavra
entrepreneur, de origem francesa, significa aquele que está entre).
Atentos à importância do fenômeno empreendedor no desempenho econômico das nações, em 1999 foi criado o
Global Entrepreneurship Monitor, coordenado pela London Business Scholl e pelo Babson College, cuja “
proposta é avaliar o empreendedorismo no mundo a partir de indicadores comparáveis. Desde 1999, quando realizou seu primeiro ciclo, até hoje, o estudo envolveu mais de 40 países de todos os continentes e dos mais variados graus de desenvolvimento econômico e social, tornando-se a investigação de maior escopo em sua área.”
Dada a inexistência (ou irrelevância) de outras iniciativas no mesmo sentido, o GEM tornou-se um organismo mundialmente reconhecido, cujas conclusões de seus estudos têm força de verdade. Nos resultados dos estudos de 2005, o Brasil é apontado como o 7º país mais empreendedor do mundo, enquanto a Venezuela lidera o ranking.
Para o GEM, existem dois tipos básicos de empreendedores:
1)
Iniciais - aqueles cujos empreendimentos têm até 42 meses de vida. Subdividem-se em:
a. Nascentes – aqueles à frente de negócios em implantação – busca de espaço, escolha de setor, estudo de mercado etc. –, que, se chegaram a gerar remuneração, o fizeram por menos de três meses; e
b. Novos - seus negócios já estão em funcionamento e geraram remuneração por pelo menos três meses.
2)
Empreendedores estabelecidos: aqueles à frente de empreendimentos com mais de 42 meses.
Apesar de fazer uma distinção adequada entre tipos de empreendedores, o GEM concede rótulos, a meu ver, inadequados. A ampla divulgação dos resultados anuais das pesquisas realizadas pelo GEM acaba por criar idealizações perigosas que não correspondem à realidade dos países participantes da pesquisa. Tome-se o exemplo da Venezuela, que encabeça o ranking de 2005 sob o rótulo de país mais empreendedor do mundo, segundo o GEM. O produto da investigação do GEM é o índice TEA (
Total Entrepreneurial Activity), que mede a atividade empreendedora “total” dos países. O TEA de cada país é obtido através dos resultados das entrevistas que refletem apenas o percentual de pessoas que estão iniciando uma empresa, somado aos que estão começando um negócio em sua empresa já estabelecida – ou seja, o número de
empreendedores iniciais. Constatar que o TEA da Venezuela é de 25% significa apenas dizer que, de cada 1000 venezuelanos em idade adulta, 250 iniciaram um negócio nos últimos três anos e meio. Esses números escondem as reais motivações desses empreendedores e também não revelam que tipo de negócio estamos falando. Para resolver – parcialmente - esse problema, o GEM estabeleceu duas principais razões pelas quais as pessoas iniciam um negócio:
1)
Identificação de oportunidade (
opportunity-entrepreuners)
2)
Necessidade (
necessity-entrepreuners)
Nos resultados de 2005, tem-se que o TEA de 25% da Venezuela é formado por 15,6% de
opportunity-entrepreuners e por 9,6% de
necessity-entrepreuners. O Brasil, que possui um TEA de 11,3%, apresenta um índice de 6% de empreendedorismo por oportunidade e 5,3% por necessidade.
A distinção entre empreendedorismo por oportunidade e por necessidade ajuda a compreender alguns dos resultados da pesquisa anual do GEM, como a classificação de países como Venezuela, Tailândia e Jamaica entre os primeiros lugares. Entretanto, revela também a fragilidade do estudo mediante a sua proposta de medir o grau de empreendedorismo dos países. Separar oportunidade de necessidade não promove a primeira categoria a uma instância de “negócios superiores”. A simples identificação de uma oportunidade não exclui as necessidades de um indivíduo de auferir renda. Da mesma forma, o fato de alguém empreender por necessidade não o exclui do processo de identificação de oportunidades, uma vez que esse processo é comum a todo e qualquer empreendimento. Tais variáveis não são excludentes e há uma grande chance de confundir o respondente no momento da entrevista.
O relatório do GEM também não aponta os índices de desemprego dos países, que no Brasil e Venezuela ultrapassam 10 e 15% respectivamente. Em outro estudo, realizado pelo Banco Mundial, em matéria de apoio aos empreendedores, o Brasil está classificado na 119ª posição em uma lista de 155 países. Algumas conclusões desse estudo apontam o seguinte:
• No Brasil, as empresas consomem em média 2.600 horas por ano apenas para pagar a carga tributária (no Vietnã, por exemplo, são 1.050 horas);
• São necessários 152 dias para abrir um negócio e 460 para obter uma licença.
Outro dado assustador: a taxa de mortalidade empresarial no Brasil, apurada nos anos de 2000, 2001 e 2002, aponta que 49,4% encerraram as atividades com até dois anos de atividade, 56,4% com até três anos e 59,9% não passam dos quatro anos.
Em síntese: um olhar mais atento à metodologia do GEM irá revelar a ausência de variáveis importantes em um estudo dessa natureza. O fenômeno empreendedor deve ser estudado em sua totalidade, buscando-se identificar não apenas empreendedores nascentes e suas motivações, mas também as próprias condições econômico-sociais para o seu desenvolvimento, analisando-se as instituições do país - regime tributário, leis trabalhistas, sistema educacional, etc. -, fatores macroeconômicos e culturais, assim como o impacto dos empreendedores estabelecidos no desenvolvimento de inovações e no crescimento econômico de um determinado país.
Um país verdadeiramente empreendedor cria condições a partir de suas instituições para o fomento de um empreendedorismo realmente eficaz. Ostentar rótulos de “país mais empreendedor” trata-se apenas de um auto-engano, quando se tem ainda muito por fazer.
* Versão ampliada do artigo publicado na Revista Brasileira de Administração, Ano XVI, n. 54, Setembro de 2006/