14 de outubro de 2008, às 09h13min
Vigiar e Punir na sociedade de controle
Com isso, as instituições sociais modernas produzem indivíduos muito mais moveis e flexíveis socialmente do que antes. Dessa forma, mesmo que o trabalhador esteja fora de seu local de trabalho, continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar. Michel Foucault nos apresenta o modelo disciplinar, representado pelo Panóptico, que nada mais é do que a máquina óptica do século XVIII, que tanto serviria para prisões, quanto para hospitais, escolas e fábricas, com o objetivo de manter em constante vigilância as pessoas que, por algum motivo, poderiam infringir ou já teriam infringido as leis.
O Panóptico faz uso de dois modelos: o da exclusão e o da disciplina.
O principal objetivo desta “máquina” é fazer com que as pessoas tenham total consciência de que podem ser vigiadas a qualquer momento, e se há alguém vigiando, este sabe que será punido se faltar com a ordem.
Essa introdução retrata parte da vida humana na atual sociedade, cuja função é disciplinar, vigiar e punir as pessoas inseridas no mundo corporativo. As organizações cada vez mais preocupadas com segurança, com aumento de produtividade e com redução de custos, apelam para as mais variadas formas de vigilância, adotando mecanismos cada vez mais sofisticados de controles invisíveis.
Nesse caso vemos desde programas de monitoramento de atividades em computadores, câmeras instaladas em diversos pontos, relógios de ponto eletrônico digitais, para se ter a certeza de que o funcionário está na organização; catracas para controlar o movimento entre os departamentos, como se todos ali participassem de um grande programa de “Big Brothers”. Além disso, as empresas também analisam conversas por telefone, pela central de telefonia, em que os monitores podem entrar em ligação sem que ninguém perceba, tudo em nome do controle da qualidade. Os sistemas permitem ver o ramal que ligou e a duração da conversa.
Para se evitar problemas de ordem legal, geralmente a política das organizações é transparente, expondo ao funcionário, na hora da contratação, algumas punições que podem chegar à demissão. Com isso os dispositivos de poder ficam circunscritos aos espaços fechados dessas instituições, o que lhes permite atuar em todas as esferas sociais.
O que presenciamos na sociedade de controle é que houve uma espécie de incorporação da disciplina, através da presença de algum tipo de autoridade investida de poderes capazes de impor os procedimentos de poder e de saber, através do olho que vigia e pune.
E nesse dinâmico mundo disciplinar, vence quem padroniza o seu comportamento, ao perder sua intimidade e sua identidade; aquele que se afasta de seu “eu” e ao final acaba sendo produto e produtor desse desumano modelo social que nós mesmos ajudamos a manter. Não somos simples marionetes deste jogo de forças, como pensamos, mas, sim, co-autores dele, ao nos adaptarmos a ele e ao silenciarmos diante dele com naturalidade, como se fosse mesmo natural passarmos de gente, de pessoa humana à cifra, e ainda ajudar a manter esse estado de ser ou de “não-ser.”
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Autor
*Maria Bernadete Pupo é consultora de RH, Coaching certificada pela ICC - Internacional Coaching Community, professora universitária do UNIFIEO e autora do livro “Empregabilidade acima dos 40 anos” (ed. Expressão & Arte). Contato: mbpupo@terra.com.br
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