Problemas pessoais x desempenho profissional
Apoio da empresa em momentos difíceis é fundamental
São Paulo, 28 de julho de 2010 – Por volta do meio-dia de uma quarta-feira, horário de pico nos restaurantes de uma famosa franquia, as operações com cartão de crédito repentinamente deixaram de funcionar. Assim que o problema foi detectado, uma equipe especializada em redes e outra em programação foram requisitadas para solucionar o caso o mais rapidamente possível. Em menos de trinta minutos, tudo estava resolvido. Será que o mesmo procedimento é adotado quando um funcionário apresenta problemas – sejam de saúde, particulares ou mesmo afetivos – que atingem seu rendimento no trabalho?
Diante das exigências de desempenho profissional ditadas pelo mercado de trabalho, o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional está cada vez mais ameaçado. São cada vez mais comuns relatos de estresse decorrente das pressões do dia a dia nas corporações, que colocam até mesmo o sistema de saúde de alguns países em estado de alerta.
Na França, por exemplo, segundo dados divulgados pela Federação Francesa de Saúde no Trabalho, entre 300 e 400 pessoas se suicidam por ano, em razão das pressões sofridas no trabalho. Naquele país, os gastos anuais tratamentos de estresse ficam entre 2 e 3 bilhões de euros.
O Brasil é apontado pela International Stress Management Association como o segundo país do mundo onde os executivos apresentam quadro de "burnout" – uma forma severa de estresse – perdendo apenas para o Japão. Em tradução livre, o termo significa "estar esgotado", tomado por um desejo opressivo de se livrar da carga de pressão e responsabilidades. Os profissionais que apresentam esse quadro não têm possibilidade de reduzir a jornada de trabalho ou de desligar-se de certas atribuições, o que acaba por colocar a saúde – deles e da empresa – em xeque.
"No caso do Brasil, nossa origem latina é um fator a se considerar, visto que temos dificuldade em separar razão de emoção. Assim, problemas afetivos externos à empresa ou mesmo surgidos no local de trabalho podem sim afetar nossa produtividade, caso não sejam tratados adequadamente", observa a psicóloga Daniela Levy, codiretora da Carevolution, empresa que presta serviços voltados à promoção e ao tratamento da saúde física e emocional de profissionais.
Programa de qualidade de vida – Não são poucos os fatores que podem gerar problemas pessoais e, por consequência, influenciar negativamente o rendimento no trabalho. Problemas financeiros e com a saúde dos familiares são alvo de preocupação dos gestores de recursos humanos das empresas. De olho nessas questões, muitas corporações já articularam algum tipo de programa de qualidade de vida para seus funcionários. "Tais programas costumam oferecer sessões de massagem, planos de atividade física e de orientação nutricional. Incluem a contratação de profissionais para orientar na gestão de carreira e no exercício de liderança, e é aí que entra nosso trabalho", esclarece Daniela Levy.
Pensando em um modelo organizacional, as empresas podem adotar protocolos para checagem do estado de saúde clínica e psicológica de seus funcionários. O objetivo é detectar precocemente em seus colaboradores todo tipo de disfunção, seja de ordem sanitária, financeira ou afetiva. "Isso pode ser feito pela aplicação de questionários de saúde e qualidade de vida, por exemplo. Com os resultados em mãos, as ações podem ser mais bem planejadas e direcionadas de forma mais efetiva e, inclusive, de maneira preventiva", orienta a psicóloga.
A adoção de programas de gestão de qualidade de vida traz muitos benefícios às empresas. Um deles é a redução nos dias de afastamento dos colaboradores por problemas de saúde. Outra vantagem é a possibilidade de reter profissionais talentosos por mais tempo em seu quadro de funcionários. Empresas que adotaram esse tipo de programa relatam, ainda, redução com os custos dos planos de saúde e, sobretudo, significativo aumento de produtividade.
A parte de cada um – Passamos muito tempo de nosso dia e de nossa vida no trabalho – períodos muitas vezes mais longos do que em casa ou com a família. Por isso, é importante adotar uma atitude em prol do bem-estar coletivo. Tudo pode estar bem conosco, mas um colega pode não estar em seu melhor momento e, nesse caso, é importante o companheirismo e entendimento da situação.
Muitas vezes uma boa conversa pode ser a solução ou o começo dela. E a empresa pode colaborar bastante nesse sentido. Por outro lado, o funcionário também tem parte importante na resolução dessa equação. Confira algumas sugestões práticas de como comportar-se diante de conflitos aparentemente insolúveis:
- Aja com cautela, sem procurar o isolamento ou se expor demais;
- Trate seus assuntos pessoais reservadamente; não deixe que presenciem suas conversas ao telefone ou vejam suas trocas de e-mail;
- Compartilhe seus problemas com os mais próximos; isso pode aliviar a pressão e evitar possíveis mal-entendidos;Relate sua situação ao superior hierárquico, mesmo que de maneira superficial, mas diga também como pretende lidar com ela e resolvê-la;
- Procure ajuda; em caso de problemas financeiros, considere a possibilidade de pedir um adiantamento ou realizar um empréstimo; se for problema de saúde, inicie um tratamento;
- Se o problema é persistente e a solução não é tão simples ou parece demorada, talvez seja necessário um afastamento do trabalho, por férias ou licença. Em casos mais graves, vale até desligar-se da empresa, para que sua imagem profissional não seja afetada negativamente.
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