12 de outubro de 2009, às 00h06min
Com um relatório de analista em mãos, o que é preciso para formar uma decisão?
O investidor menos experiente, ainda não familiarizado com a rotina dos mercados, pode sofrer até mesmo na busca por maiores informações para o seu processo de tomada de decisão
Ao se deparar com um relatório de corretora ou banco de investimentos, há alguns pontos fundamentais para se entender a análise de determinado ativo. Grosso modo, o objetivo dos relatórios é apoiar a decisão, traçando recomendações e ponderando os principais risco de determinado ativo. Para aproveitar ao máximo o conteúdo, no entanto, é essencial focar a leitura em alguns pontos-chave.
O que fazer?
Primeiro de tudo, a recomendação. Geralmente no título das análises, as sugestões variam de compra, manutenção e venda, ou podem vir como underperform, marketperform ou peer-perform e overweight, respectivamente abaixo, na média ou desempenho superior ao esperado para o mercado.
Associar o comportamento do ativo em questão ao restante do mercado é prática comum. Também remete ao que o mercado chama de beta deste papel, que revela a correlação habitual deste ativo com determinado benchmark. Ou seja, se este ativo costuma se movimentar menos (beta < 1) que a tendência do mercado, proporcionalmente a ela (beta =1) ou potencializar o movimento dos índices (beta > 1).
Além da recomendação, estes betas também se associam ao potencial risco do investimento; afinal, um papel com beta elevado tende a potencializar uma tendência negativa do mercado quando ela ocorrer.
No entanto, é preciso fugir um pouco do rigor da definição. Geralmente, a sugestão direta de compra ou venda não aponta necessariamente o rumo que o investidor deve tomar, mas geralmente apenas classificam ativos com potencial de valorização próximo a 10% (manter/marketperform) para o período em questão, superior a 10% (compra/overweight) ou retorno esperado inferior a 10% (venda/underweight).
Uma questão de upside
Como a recomendação está associada a upside, é preciso entender melhor como é traçado este potencial de valorização esperado para o ativo. Basicamente, o cálculo do preço-justo é obtido a partir da soma dos fluxos de caixa futuros esperados trazidos a valor presente, o que pressupõe que a empresa vale "hoje" o resultado de suas projeções para seus fluxos de caixa futuros.
O preço-justo da ação relaciona-se ao valor intrínseco da empresa, ou o verdadeiro valor da companhia, considerando fatores tangíveis e intangíveis. Por outro lado, aquele "hoje" citado acima remete à diferença entre preço-justo e preço-alvo.
Enquanto o preço-justo traz as projeções (de receita, geração de caixa, despesas, etc...) para a empresa para o valor presente, o preço-alvo desconta estes valores para um prazo à frente, geralmente de 12 meses ou final do respectivo ano, assumindo que o movimento do mercado e as projeções do analista irão convergir durante este período. A diferença entre o preço das ações no momento e este preço projetado para o futuro é o potencial de valorização do ativo.
Quando varia uma recomendação
Os casos de atualização ou mudança na recomendação exigem atenção extra. Intuitivamente, o mercado interpreta uma revisão para cima de recomendação como sinal de melhores expectativas dos analistas em relação àquela empresa. No entanto, é preciso cuidar se esta alteração segue uma atualização do modelo de projeções, que indica uma melhora de fundamentos para a companhia, ou apenas uma melhora no upside.
Neste último caso, esta perspectiva de maior potencial de valorização muitas vezes é gerada por uma desvalorização recente do papel, o que tende a ampliar o gap entre o preço-alvo estipulado pelo analista e o valor atual da ação. Neste sentido, a melhor recomendação é uma questão de momentum do ativo, necessitando de uma análise mais criteriosa por parte do investidor se seu objetivo é uma aplicação de prazo mais dilatado.
Por outro lado, uma revisão no preço-alvo ou preço-justo minimiza este efeito de momentum. Pela definição dos dois conceitos, uma atualização nesta projeção para a ação necessariamente envolve uma mudança nas premissas envolvidas em seu cálculo; ou seja, uma revisão de fundamentos e/ou de cenário de atuação.
O segredo dos múltiplos
Toda esta ciranda visa apoiar a decisão do investidor. Tiradas as conclusões do analista, é preciso um olhar sobre seus argumentos. Essencialmente, a análise fundamentalista lista alguns indicadores mais comumente utilizados nos relatórios.
Com tudo se trata da possibilidade de retorno, é essencial saber se a ação pretendida está cara ou barata para ser comprada. Sendo assim, uma boa proxy desta conclusão é oferecida pelo P/L (preço da ação sobre o lucro projetado para a empresa por determinado período) ou o EV/Ebitda (o valor da empresa, descontado do nível de endividamento, em relação ao seu Ebitda -geração de fluxo de caixa) não só do ativo em questão, mas também de seus chamados "pares de mercado".
Viés
Antes mesmo de entender melhor os relatórios de análise, o investidor deve se atentar para questões básicas, como seu perfil, sua aptidão para tomar risco, o prazo e objetivo de investimento e até mesmo a afinidade com o setor em questão.
Antes mesmo de ler o relatório, uma dica trivial é reservar uma parte da atenção aos disclosures, aquelas considerações em letra pequena no final de todo relatório. Nunca é demais lembrar que as instituições que sugerem papéis também os negociam, e qualquer evidência de imparcialidade é sempre bem-vinda.
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