16 de outubro de 2007, às 01h55min
O jogo vai ficar mais pesado
Michal Gartenkraut é um polonês que fala francês e inglês – mas se tornou fluente, mesmo, nos códigos que movimentam a economia e os negócios no Brasil. Conhece bem o território acadêmico – até 2005, era o reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, onde aliás adquiriu seu diploma de engenheiro mecânico, em 1977. Teve muitas passagens pelo governo brasileiro, como secretário-geral do Ministério do Planejamento, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e assessor especial do Ministério da Fazenda encarregado das negociações com o FMI, no período 1988-1990, entre vários outros cargos.
Quanto as empresas brasileiras ainda precisam avançar, em matéria de gestão, para competitir globalmente?
Nós avançamos muito nos últimos 17 anos, a partir da abertura do mercado brasileiro, em 1991. Acontece que, num mundo competitivo, avançar muito pode não ser suficiente. É preciso ver o quanto avançaram nossos competidores. Por isso eu tenho a impressão, melhor, a convicção, de que esta é uma corrida sem fim. Ela responde a uma dinâmica competitiva em que todos os competidores e todos os agentes envolvidos estão correndo. E esta análise comparativa assusta, porque tem gente correndo rápido, mais do que a gente. Eu me refiro, claro, aos asiáticos, mas não só a eles. Há exemplos na própria Europa, casos da Irlanda e da Finlândia, e até na África. Quanto a nós... apesar do inegável avanço, somos lentos. É uma característica brasileira – até por nossa diversidade, pelo sistema político que temos, as coisas andam mais devagar. Quando se trata de mudar legislação, cultura, realmente não é fácil.
Mas a vulnerabilidade de hoje é menor que aquela do início dos anos 90, não?
Olhando só para o Brasil, nas duas épocas, a análise é otimista. Avançamos muito. Em 1991, não tínhamos nenhuma empresa apta a competir na selva mundial. O que conquistamos, de lá para cá, não é desprezível. Poucos países na América Latina evoluíram como o Brasil. Basta ver o que temos – Gerdau, Embraer e vários outros exemplos de excelência internacional. Se a gente tivesse adotado antes medidas como a abertura da economia... A verdade é que, antes de 1991, as pessoas e as empresas nem sabiam como comparar seu custo com o custo internacional. Elas não tinham referências. A economia brasileira era tão protegida que elas se sentiam as donas do mercado. Estavam prestes a morrer. Aliás, nesse processo muitos morreram mesmo – as empresas que não agüentaram a competição. A rigor, eram poucos os que haviam percebido que a coisa iria mudar. Outros trataram de correr quando viram que a abertura era para valer e que deviam ter apostado nesse cenário bem antes. Aqueles que conseguiram se dar bem são os que hoje fazem parte da lista das empresas brasileiras competitivas. E o interessante é que o prêmio nacional de qualidade nasceu nessa mesma época da abertura da economia, embora pouca gente relacione uma coisa com a outra. Havia o programa gaúcho de qualidade e produtividade, o precursor do movimento nacional.
E qual é a regra para seguir competitivo diante dos novos desafios trazidos por competidores velozes?
A regra é perceber que, depois de entrar no jogo, você terá de estar muito atento o tempo todo. Como os outros estão correndo, não tem parada, sabe? Você pode estar achando que não tem mais nada para fazer, e acaba descobrindo que o jogo está só começando. O segredo, hoje, é ter uma dinâmica acelerada. Quem não conseguir manter o ritmo de inovações, de mudanças necessárias para manter a competitividade, vai sofrer.
Brasil ainda mantém um grau de proteção à indústria local mais elevado que o de outros países. Na sua opinião, um novo movimento de abertura do mercado brasileiro seria desejável ou apenas caracterizaria uma atitude ingênua, como apregoam os críticos da redução das alíquotas de importação?
O padrão do comércio internacional mudou e quase não há alternativa. É impensável imaginar um país com certo tamanho, e com uma indústria razoável, como o Brasil, fechando-se. Muitos pregam que o país reduza imediatamente suas tarifas de importação e de forma unilateral para se beneficiar logo dos ganhos de competitividade que teríamos. Eu ainda acho que é melhor conciliar a abertura de nosso mercado com a abertura dos mercados agrícolas lá fora. Já que vamos abrir, e a tendência é mesmo de redução das tarifas industriais, então que se negocie este processo para abrir uma vantagem do outro lado. Mas isso, claro, desde que as negociações evoluam melhor, não demorem tanto – porque nós precisamos, mesmo, desta abertura do mercado. Ela vai bombar ganhos de eficiência para dentro da economia brasileira.
Muitos setores da indústria cobram algum tipo de proteção, apontando benefícios que outros países dispensam, internamente, a certos segmentos...
É, eu tendo a concluir que o jogo do comércio mundial é pesado e requer alguma proteção. Mas defendo a tese de que o tipo de proteção necessária hoje mudou. É diferente daquela do passado. Em outras épocas, você fechava a economia para consolidar o setor industrial do país e atrair investidores. O que se dizia para eles era algo como: Olha, quem vier produzir aqui vai ter vantagens; praticamente não vai ter competidor externo... Esse era o segredo. Hoje é diferente. O Brasil tem um setor produtivo sofisticado e que sabe competir, conhece o seu negócio, tem gestão e desenvoltura para disputar mercado no mundo. A proteção que o país precisa não é do mercado doméstico, e sim de medidas como a melhoria da infra-estrutura. Aí nós temos muita coisa para fazer. São fatores que prejudicam a competitividade das empresas mas que não estão sob controle delas – atuam da porteira para fora. Resolver estes problemas é a lição de casa que temos para fazer. E há uma parte, muito fácil, que é baixar as tarifas de importação. Isso é simples, é um decreto. Agora, o que não se pode imaginar é fechar a economia brasileira à importação de bens de consumo, de bens intermediários e principalmente de bens de capital. Desse jeito, você não compete no mundo.
“O padrão mudou. Não dá para imaginar um país com certo tamanho, e com uma indústria razoável, como o Brasil, fechando-se. Desse jeito, você não compete no mundo”
Que setores da indústria brasileira se manteriam competitivos, globalmente, mesmo sob o impacto de uma redução de tarifas de importação?
Ao contrário de países pequenos, temos muitos setores competitivos e poderíamos, portanto, partir com tranqüilidade para uma redução de alíquotas. Nossas indústrias baseadas em alimentos, madeira, grãos, couro e recursos naturais, em geral, são fortes. Havendo boa gestão, ninguém derruba a gente nestas áreas. Agora, quando se analisam setores intensivos em tecnologia e que não têm a ver com recursos naturais, como a indústria aeronáutica, automobilística, eletroeletrônica, aí a situação se complica. Porque o Brasil não fez a sua grande lição de casa, que é a educação. O nosso investimento em pesquisa e desenvolvimento não é tão expressivo. É, mais, um investimento focado em ciência.
A baixa estatística brasileira de patentes é um dado desta realidade?
É. E isso não acontece por acaso. Em patentes, a Coréia do Sul dá de mil a zero na gente, mas eles investiram, e muito, num setor em que nós não entramos – a microeletrônica. E, agora, estão investindo em nanoeletrônica. Em eletrônica, nós simplesmente perdemos o bonde com aquela brincadeira da lei de reserva de mercado para a informática. É preciso considerar, no entanto, que esta estatística de patentes dos coreanos é inflada por uma prática deles para proteger sua inovação. É como no jogo do bicho. Você joga num número, e cerca ele jogando nos números parecidos, não é? É isso o que os coreanos fazem ao registrar muitas patentes em torno de certa inovação. É para você não descobrir qual é a verdadeira patente... Porque o patenteamento é um processo gozado. Em princípio, a lei existe para proteger o inventor. Mas, para patentear algo, você tem de divulgar, o que sempre expõe o inventor a certo risco de ser copiado.
Como o Brasil está na comparação com outros países de estágio semelhante?
Se observarmos os países que têm alguma importância neste campo, diria que estamos em situação regular. Estamos na média. O Brasil investe 2% do PIB em pesquisa. Há muitos países que investem menos do que isso. Infelizmente até regredimos um pouco em relação a este percentual de 2%. A meta do governo Lula é chegar a 3% do PIB. Nesse ritmo em que estamos avançando, não vamos chegar a 3% de jeito nenhum. Se conseguirmos manter o patamar de 2% do PIB para a pesquisa brasileira, já será lucro. Esse percentual de 3% é muito. Significaria superar países como França e Inglaterra. É uma meta ambiciosa demais. Principalmente considerando que o grosso do investimento em pesquisa, aqui, é feito com recursos públicos. E na maioria dos países que investem muito em pesquisa o grosso dos investimentos vem do setor privado.
“O Brasil precisa de bons interlocutores na empresa e na universidade. Mas é complicado. Um acha que sabe o que o outro deve fazer. É uma confusão”
Qual é o perfil da pesquisa no Brasil?
A pesquisa brasileira é basicamente científica. O investimento público ocorre no âmbito das universidades. E, aqui no Brasil, as universidades fazem ciência. É o que elas sabem fazer. Quanto à pesquisa tecnológica, ela tem de ser feita na empresa. Se as empresas não estão investindo, isso significa que o país vai investir menos em tecnologia. E não adianta ficar mandando ordens às universidades para que invistam em tecnologia. Elas estão muito longe do mercado de produtos e serviços para fazer isso com eficiência.
Ainda não há uma zona de interlocução entre universidade e empresa?
O que há é pouco. Precisamos de bons interlocutores do lado das empresas e do lado das universidades. Mas é complicado. São visões muito diferentes. Um acha que sabe o que o outro deve fazer. É uma confusão. Mas a integração terá de ser feita porque 70% dos nossos pesquisadores estão na universidade pública. Isso quer dizer que estão numa carreira de funcionário público, nunca colocaram o nariz para fora da universidade.
Mas também é preciso reconhecer que as empresas brasileiras praticamente não contratam cientistas...
É. Esse é o outro lado da história. Durante certo tempo era possível dizer que as empresas não investiam porque o risco era muito alto. Imagina contratar um cientista, montar uma equipe e um laboratório para ver se daqui a dez anos uma das pesquisas resulte em alguma coisa rentável. Isso só num ambiente tranqüilo. Hoje, você tem este horizonte. Mas ainda estamos distantes do objetivo.
Olhando da porteira para dentro, o que é urgente melhorar na empresa brasileira e na postura dos empresários?
O ritmo de adaptação das empresas a novos cenários precisa melhorar. Acho que está demorando muito, especialmente entre pequenas empresas. É uma questão de sobrevivência. Hoje, o ritmo acelerado das inovações tecnológicas produz mudanças em todos os mercados e, de repente, destrói produtos, processos, cadeias inteiras. Se o empresário não estiver acompanhando tudo isso, a hora dele vai chegar. É uma questão de tempo.
Esta desatenção das empresas é um problema de que proporções?
Façamos um cálculo. Hoje, como usuários declarados do modelo de gestão do Prêmio Nacional da Qualidade, temos perto de 6 mil empresas. O.k., é uma evolução extraordinária se compararmos com a situação de 1991 ou 1995. Mas, na realidade, isso é muito pouco, porque o universo de empresas se conta na casa de 1 milhão. Então estamos falando de um percentual muito pequeno. É possível que o número de usuários do nosso modelo de gestão seja até maior do que 6 mil empresas. Vamos dizer que seja o dobro disso – ainda assim será pouco. Nossa preocupação é como multiplicar estes 6 mil por 100, digamos. É claro que, sozinhos, não vamos avançar o suficiente. Daí a importância de contar com parceiros que agem no mesmo sentido, como o MBC (Movimento Brasil Competitivo). �
Curta o Administradores no Facebook e siga os nossos posts no @admnews.
Assuntos
Deixe seu comentário






