1. Os estoques mundiais foram elevados de 195,96 milhões de toneladas, para 196,77 milhões de toneladas, uma elevação de 910 mil toneladas. A simples manutenção dos números já provocaria a manutenção também dos níveis de preço internacionais; com a elevação dos estoques, a tendência é que caiam um pouco mais;
2. O USDA também elevou a sua estimativa de produção da safra argentina, de 9,0 para 9,6 milhões de toneladas. Com isto a estimativa de exportação deste país também subiu de 3,5 para 4,0 milhões de toneladas nesta safra.
Estes dois fatos poderão representar o seguinte:
a) maior disponibilidade no mercado mundial de trigo e conseqüente manutenção dos níveis atuais de preço ou mesmo pequena queda, provocam uma maior oferta de produto ao Brasil a preços competitivos. Hoje os preços dos trigos do Canadá e França, para não falar dos EUA, estão entre 8% e 12% acima dos preços do mercado livre no Brasil, mas estão todos entre 5% e 10% abaixo do Preço Mínimo de Garantia, mais frete até São Paulo, por exemplo;
b) maior disponibilidade de produto na Argentina e conseqüente disponibilidade para o Brasil. É provável que os preços neste país subam, mas estão com uma defasagem em relação aos preços brasileiros de aproximadamente R$ 14,00/tonelada ou 2,81% neste momento, havendo, assim, espaço para esta elevação inicial. Contudo, se subir muito acima disto, o trigo argentino vai enfrentar a concorrência do trigo durum francês que está apenas 8,13% acima do preço brasileiro e esta diferença poderá ser negociada. Não é aconselhável nem se olhar para o trigo russo que, além de ser brando, é de muito baixa qualidade e tem excesso de veneno nas cargas. Resumindo: aumento da disponibilidade mundial de trigo = manutenção ou diminuição do preço CIF Brasil + dólar em queda no Brasil = quem quer tirar a conclusão? O pãozinho subirá, mas por outras razões.
c) Um dos grandes erros desta discussão toda sobre trigo é não falar das diferenças básicas dos trigos - brando e durum, quando se fala à imprensa. No Brasil há excesso de trigo brando, que não serve para fazer pãozinho e está sendo exportado para fazer ração animal e, por outro lado, estamos precisando importar trigo durum para melhorarmos o trigo brando usado internamente e produzirmos as farinhas panificáveis. A produção de trigo durum brasileira sofreu uma queda de 1,3 milhão de toneladas no Paraná, nesta safra e, das 2 milhões efetivamente produzidas, somente 30%, ou 710 mil toneladas estavam em perfeito estado, outras 710 mil só poderiam ser panificáveis se misturadas com trigo melhorador e as restantes 35% foram descartadas como uso humano, só servindo para uso animal. Então, o Brasil terá, sim, uma importação maior: o USDA fala em 6,5 milhões de toneladas, o que julgamos adequada, diante das circunstâncias descritas. O ponto de discussão é: de onde virá esta tonelagem? Esta importação elevará ou não o custo do trigo adquirido? Com a elevação da estimativa de produção e exportação argentina de trigo (confirmada pela liberação de mais licenças de exportação), é possível que o total vindo daquele país se eleve de 2,5 para 3,5 milhões de toneladas. Do restante do Mercosul, já vieram do Uruguai cerca de 350 mil toneladas e do Paraguai outras 200mil, atingindo um total de 4,1 milhões de toneladas a preços abaixo do preço do trigo nacional e deixando para importações de fora do Mercosul cerca de 2,4 milhões de toneladas, ou apenas cerca de 21% da necessidade brasileira de consumo anual, das quais os EUA contribuíram com menos de 800 mil toneladas no ano passado, quando a Argentina também teve problemas de safra.
Uma outra pergunta muito interessante é: quantas toneladas de trigo americano o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Paraná importaram nos últimos 20 anos? Quase nada, para não dizer, nada. O trigo americano vai em sua maioria para os moinhos de São Paulo para cima, abastecendo quase com exclusividade os moinhos do nordeste, exceto quando o governo subsidia o frete nos leilões da Conab.
Acrescente-se a isto que o dólar está caindo novamente (subiu 7,6% em 2010, mas já reverteu cerca de 1,4% só neste mês), mantendo a competitividade de compra do Brasil em alta conta. Há boas razões para a elevação do preço das farinhas, mas são de outra ordem, como o aumento do preço dos fretes e o desvio da demanda de caminhões para os fretes curtos das colheitas de soja e milho em detrimentos dos fretes longos das entregas de farinhas, além do aumento da mão de obra, de custos de energia, impostos proporcionais, etc.
O pãozinho subirá de preço, sem dúvida, até porque os distribuidores elevaram a sua tabela em fevereiro e ela já foi totalmente absorvida pelas padarias, confeitarias e pizzarias. Quanto a elevações futuras, podem até ocorrer, o mercado é livre, mas não haverá razões do lado da importação, em nossa opinião. Com esta gritaria toda que alguns produtores de trigo e de farinhas estão fazendo, quem ganha mesmo são os distribuidores, quer sejam eles moinhos ou independentes. Perdem o produtor, a cooperativa, o moinho, o consumidor final e a inflação, que aumenta.