19 de novembro de 2008, às 15h27min

Para latino-americanos, comprar comida é maior fator de satisfação de vida

A qualidade de vida está associada ainda com ter amigos, boa saúde, crenças religiosas, condições de manter sua moradia e emprego.

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Folha Online
 
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Relatório do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) divulgado nesta terça-feira aponta que, para os povos latino-americanos, poder comprar comida é o fator que mais influencia sua satisfação. A qualidade de vida está associada ainda com ter amigos, boa saúde, crenças religiosas, condições de manter sua moradia e emprego.

O valor implícito destas condições, na sua maioria influenciáveis por políticas públicas, indicam as prioridades para a população local e podem indicar, segundo o BID, caminhos para os governos da região.

Segundo o relatório, os latino-americanos teriam que ganhar uma renda dez vezes maior para "compensar" a satisfação de poder comprar comida, 7,5 vezes mais para compensar a falta de amigos com os quais possam contar e quase quatro vezes mais para superar problemas de saúde.

O relatório apontou ainda que, entre latino-americanos e caribenhos, a Costa Rica é o país onde as pessoas estão mais satisfeitas com sua vida, com 7,4 pontos em uma escala de zero a dez. Em segundo está o Panamá (6,8), seguido pelo México (6,6). O Brasil aparece apenas em sétimo lugar com 6,2 (mesmo índice da Colômbia e Jamaica) e nas últimas posições estão a República Dominicana e Haiti, com 4,9 e 3,8 respectivamente.

Estes resultados confirmam o critério subjetivo da qualidade de vida para os latino-americanos e que não há, necessariamente, uma relação entre uma maior renda per capita e a maior satisfação. Assim, a Venezuela, que teve um crescimento médio do PIB per capita de 2% está em quarto lugar na lista de satisfação, com 6,5. Já Trinidad e Tobago, que teve um crescimento de 8,8, o maior da região, aparece apenas em 12º lugar, com escala de satisfação de 5,8.

O BID aponta também, no cenário geral, a proximidade (55%) entre a avaliação dos entrevistados sobre educação, saúde e renda e o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da ONU --que mede o desenvolvimento do país com base na expectativa de vida, no nível educacional e na renda per capita.

Contudo, a maioria dos países e regiões --incluindo o Brasil--- tem uma visão pessimista sobre sua qualidade de vida apontando índice subjetivo menor do que o IDH da ONU. Os mais pessimistas são o Chile, a Argentina e Peru e os mais otimistas, que apontam um índice subjetivo maior que o IDH, são a Guatemala e a Venezuela.

"No geral, os latino-americanos estão satisfeitos com sua vida, mas é interessante notar que as pessoas de alguns dos países mais pobres são as mais otimistas", diz Luis Alberto Moreno, presidente do BID, acrescentando que a aparente contradição pode ser resultado do descontentamento gerado pelo crescimento econômico no curto prazo.

Crescimento


O relatório do BID aponta efetivamente uma contradição na avaliação subjetiva da qualidade de vida entre os habitantes de países que vivenciaram um grande crescimento nos últimos anos.

Nestes países, as pessoas tendem a se mostrar menos satisfeitas com suas vidas do que moradores de países com rendas similares, mas que cresceram menos no mesmo período. Assim, em países com crescimento menor que 2% ao ano, cerca de 70% dos entrevistados apontam satisfação com sua qualidade de vida. Já em países com crescimento anual superior a 7%, a porcentagem cai para cerca de 40%.

Segundo o BID, este "paradoxo do crescimento infeliz" pode ser explicado pela exagerada expectativa de aumento do poder aquisitivo e a competição pelo status social e econômico em países de maior crescimento anual.

"As percepções podem ser afetadas pelas diferenças culturais e pelo progresso econômico recente do país. O estudo mostra que o crescimento rápido leva a uma elevação ainda mais rápida das aspirações das pessoas a uma vida melhor. As mudanças aceleradas na economia, e não apenas o nível de renda ou de consumo, acabam afetando o nível de satisfação no curto prazo", explica Moreno.

Eduardo Lora, economista-chefe do BID e coordenador do estudo, aponta as conseqüências destes resultados para as políticas sociais. "Governos que centram suas políticas exclusivamente no crescimento tendem a perder apoio no longo prazo se não responderem às expectativas mais elevadas que acompanham o crescimento em áreas que vão da educação e saúde à distribuição de renda", explica. "A dificuldade está em responder a essas demandas sem sufocar o crescimento".

O estudo foi baseado em pesquisas do instituto Gallup realizadas entre novembro de 2005 e dezembro de 2007, com 40 mil pessoas de 24 países. A margem de erro varia de 3,1 pontos percentuais a 5,1 pontos percentuais, dependendo de cada país.
 

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