30 de março de 2010, às 00h11min

Uma nova era de liderança

Hischam El-Agamy, diretor executivo do IMD (International Institute for Management Development) fala, exclusivamente para o Portal Administradores, sobre as perspectivas para líderes de negócios familiares

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Por Hischam El-Agamy, www.administradores.com.br
 
IMD
Hischam El-Agamy - Diretor Executivo no IMD
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A crise financeira tem feito muitas pessoas tentarem achar culpados, resultando em negatividade direcionada àqueles que tomam decisões. A liderança, que não se questionava há muito tempo, agora está sujeita à aprovação de um chamado "mundo pós-crise". Em meio a todas essas reações emocionais, não se pode negar que as acusações são, por vezes, justas.

O novo ambiente econômico apresenta desafios às empresas e também uma miríade de oportunidades. Muitos afirmam que este é um momento crucial para as empresas criarem valor. Assim, neste ambiente confuso de pós-recessão, novamente voltamos nossa atenção para a alta diretoria, buscando direção, inspiração e a confiança que há muito não vemos.

Os líderes de negócios hoje enfrentam uma espécie de crise de identidade, divididos entre a obrigação de agir rápido e, ao mesmo tempo, ser extremamente cautelosos para não repetirem erros do passado. Sobrecarregados com ainda mais responsabilidades, os donos de empresas familiares não fogem à regra. Mesmo que as empresas de família, supostamente, tenham sido menos atingidas pela crise, a nova concorrência e dinâmica de negócios influenciam suas decisões.

Negócios familiares, principalmente do mundo árabe, foram poupados do pior da crise financeira. Dizem que é devido à adoção de um planejamento em longo prazo dos chefes das empresas e, portanto, têm uma estratégia de investimento mais cautelosa. Assim, considerando que tenham saído relativamente ilesos da crise, por que esses líderes deveriam mudar sua estratégia?

A resposta é clara: mesmo não podendo prever o próximo choque econômico global, os líderes de negócios em família ainda fazem parte do presente - um mundo pós-crise, com uma paisagem competitiva bastante alterada, repleta de novos desafios e oportunidades. Enquanto dirigentes empresariais moldam nosso ambiente econômico, também sofrem influências de diversos fatores e responsabilidades que precisam ser levados em consideração para tomarem suas decisões diárias. Podemos até mesmo afirmar que as exigências sobre os líderes de empresas familiares são maiores do que sobre os executivos corporativos.

Abaixo seguem as dimensões e as responsabilidades que afetam os líderes, expondo as complexidades, desafios e também as oportunidades para chefes de negócios em família. Considere-as quando for discutir mudanças na empresa.

Múltiplas funções


Chefes de empresas familiares muitas vezes desempenham três papeis de responsabilidade: são diretores administrativos, donos de pelo menos uma parte da empresa e, não menos importante, ocupam uma posição de destaque na família. A experiência tem demonstrado que, apesar das tentativas, separar perfeitamente essas áreas da vida é quase impossível. No entanto, através da boa administração, muito pode ser resolvido, priorizando a gestão empresarial.

Recursos humanos

A liderança nos negócios de família requer certa honestidade quando tratamos da área de recursos humanos. A fim de enfrentar a complexa economia global, é essencial construir a equipe de especialistas mais forte possível em torno dos líderes. A questão do recrutamento é difícil, apesar da grande disponibilidade de profissionais qualificados por conta das demissões provocadas pela crise. Além disso, os chefes precisam administrar as expectativas e a instrução de novos membros da família. As novas gerações que entram para o negócio podem ter opiniões diferentes referentes à tecnologia e progresso e podem vislumbrar o futuro do negócio de outras formas. É papel do líder da família avaliar a entrada de novas informações o mais objetivamente possível, incentivar novas iniciativas e ainda manter intacto o núcleo dos valores da família.

Administrar a imagem

Depender exclusivamente do nome da família se tornou difícil devido à crescente globalização e à concorrência internacional atropelando as vantagens regionais. A liderança deve ser direcionada não só para manter, mas também expandir a imagem da empresa familiar globalmente. É importante valorizar os ganhos de reputação ao longo da história, contudo, para competir com empresas internacionais, é imperativo ter uma abordagem estruturada perante a comunicação externa e evitar a desinformação na mídia e comunidade empresarial.

Reforçar a comunicação


A comunicação externa é apenas um aspecto que exige atenção constante dos chefes de família, e a comunicação interna é tão importante quanto. A qualidade da comunicação é um fator essencial para a continuidade dos negócios. O rápido crescimento da tecnologia tem aumentado as lacunas entre as gerações e os chefes de família precisam considerar estas diferenças, pois podem provocar grandes mal-entendidos. Por outro lado, se forem bem administrados, têm um enorme potencial.

Manter os valores e inovar

Para os líderes de negócios familiares, um dos maiores desafios é ser inovador enquanto mantêm os principais valores de família. A perda desses valores implica na perda do valor da reputação conquistado ao longo dos anos, o que afeta os negócios em todos os aspectos. Agora, o mais importante é que os valores familiares sejam uma espécie de liga interna e uma diretriz implícita para os membros da família e também para os empregados não-familiares. Perpetuar estes valores significa reforçar sua identidade corporativa.

Coerência

Na verdade, a liderança é quase sempre uma questão de coerência. Ninguém espera que um líder seja infalível - nenhum de nós é. Mas o papel de um líder significa automaticamente um imperativo para orientar e inspirar. A coerência é importante, pois respeito é concedido a pessoas que conseguem se manter convictos em suas decisões. Coerência é demonstrada não somente através de palavras, mas principalmente de ações: Quem vai defender aqueles que o seguiram? Quem irá cortar seu próprio bônus quando os outros estão perdendo seus empregos?

É uma questão de harmonia entre o que é dito e o que é feito e, portanto, remete à integridade do chefe. Mesmo que gostássemos de pensar que as empresas nada mais são do que máquinas de fazer dinheiro em que se tem de cortar custos a toda hora, a gestão delas significa a necessidade de lidar com seres humanos com atitudes e visões diferentes, mesmo sendo da mesma família. Permanecer focado em objetivos a longo prazo em um ambiente que está se movendo extremamente rápido se tornou cada vez mais difícil.

Certamente, a decisão de rever a estratégia de liderança é arbitrária, mas é fato que o atual ambiente de negócios exige líderes fortes, com muita perspicácia e capacidade e abertura para expandir os próprios horizontes. A complexidade da economia global já não permite que decisões sejam tomadas exclusivamente por uma única pessoa. O conhecimento necessário para se ter uma liderança perspicaz não é apreendido por uma só pessoa. Deve-se montar uma equipe condizente e orientá-la para vislumbrar a longevidade da empresa. A nova era da liderança determina que os líderes empresariais, sejam de uma empresa familiar ou não, serão tão bons quanto a equipe que os cerca.

Hischam El-Agamy - Diretor Executivo no IMD. Ele é responsável pelas atividades do IMD no sudeste Europeu, África, Oriente Médio e sudeste Asiático. Ele é fundador e Diretor Executivo do Tharawat Family Business Forum - network para os negócios familiares árabes.

Sobre o IMD


O IMD é um centro de estudos para executivos localizado em Lausanne, na Suíça. Fundada em 1990, foi eleita em 2009, pela segunda vez seguida, a melhor escola de negócios da Europa pelo ranking do Financial Times, e escolhida também a melhor escola de MBA do mundo pela The Economist, em 2008.
 

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