Criando uma teoria sobre a criação de teorias

Existem milhões de teorias difundidas em diversas áreas pelo mundo. No entanto, você precisa saber algo que todas elas têm em comum

Henry Mintzberg
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Eu não desejo cair em um buraco pensando em como devo desenvolver teorias. Além disso, esse é o trabalho de psicólogos cognitivos, que estudam a produção de conceitos e padrões de reconhecimento, mas nunca dizem muito sobre como pensamos. Quero começar explicando sobre o que a teoria não é, e então, passarei cautelosamente para o que elas parecem ser.

O que a teoria não é: verdade

É importante perceber, ainda no começo, que todas as teorias são falsas. Elas são, no final das contas, apenas palavras e símbolos em um papel, sobre uma realidade que parecem descrever. Por não serem realidade, elas simplificam. Isso significa que nós devemos escolher nossas teorias, baseados no quanto elas são úteis, e não na quantidade de verdade que elas apresentam. Um exemplo simples explicará bem: em 1492, nós descobrimos a verdade. A terra é redonda, e não quadrada. Será mesmo?

Para realizar essa descoberta, Cristóvão Colombo enfrentou os mares. Mas algum dos construtores de seus navios, ou até seus sucessores, conhecia a curvatura exata do mar? Eu acredito que não. Até então, a teoria que a terra era plana funcionava perfeitamente bem na construção de navios, mas não servia na hora de navegar. Aí a teoria que a terra era redonda funcionava bem melhor, ou então, nós nunca teríamos notícias de Colombo de novo.

Na verdade, uma viagem à Suíça facilmente provará que teorias são mentirosas. Não é uma coincidência o fato de que não foi um suíço quem apresentou a ideia da terra redonda. A Suíça é o lugar da teoria que diz que a terra tem formato irregular. Essa teoria é considerada global (de acordo com os próprios satélites, a terra não é redonda, tem protuberâncias no Equador).
Se a terra não é redonda, plana ou meio a meio, como esperar que qualquer outra teoria seja verdade? Donald Hebb, um renomado psicologo, resolveu esse problema bem: “A boa teoria é aquela que se sustenta tempo suficiente até você encontrar uma teoria melhor”.

Mas como nossos exemplos já tornaram isso claro, a teoria seguinte nem sempre é melhor ou mais útil para ser aplicada. Por exemplo, nós provavelmente ainda usaríamos a física de Newton mais que a de Einstein. É isso que faz a moda nas ciências sociais tão disfuncional, como a obsessão dos economistas por mercados livres ou a fascinação que o behaviorismo exerce nos psicólogos. A teoria em si pode ser neutra, mas a promoção de uma ideia como verdade a torna um dogma, e isso faz com que paremos de pensar em prol da doutrinação. Então, precisamos de todos os tipos de teorias – quanto mais, melhor.

Como pesquisadores, estudiosos e professores, nossa obrigação é a de estimular o pensamento, e de uma maneira positiva, que nos ofereça teorias alternativas – diversas explicações do mesmo fenômeno. Nossos estudantes e leitores devem deixar nossas salas de aulas e publicações ponderando, imaginando, pensando, e não sabendo.

O que o desenvolvimento da teoria não é: objetivo e dedutivo

Se as teorias não são verdades, como elas podem ser objetivas? Nós fazemos uma grande confusão acerca da objetividade da ciência e na pesquisa, portanto, confundimos dois processos bem diferentes: a criação da teoria e o teste da teoria. O primeiro baseia-se no processo de indução (do particular para o geral, de informações tangíveis a conceitos gerais), enquanto o segundo é formado através da dedução (do geral para o particular).

Eu fico feliz que outras pessoas testem teorias, façam pesquisas dedutivas. Isso é útil; nós precisamos descobrir não se aquela teoria é falsa (já que todas são), mas se pelo menos como, porque e onde ela funciona melhor em comparação a outras. No entanto, eu simplesmente não acredito que precisamos de tanta gente fazendo isto na nossa área, comparado à pequena quantidade de pessoas que criam teorias interessantes. Eu, pessoalmente, sempre considerei a vida muito curta para testar teorias.

Nunca deixa de me surpreender como nos amarramos a testar hipóteses no nosso campo, seja em questões do tipo “como planejamento paga?” ou “empresas agem certo ao fazer bem?”. Talvez o problema seja que nossas teorias falem sobre nós mesmos, e como podemos ser objetivos sobre isso? É isso que me motiva a ressaltar: devemos inventar explicações, não encontrá-las.

Nós não descobrimos as teorias, nós as criamos. E essa é a grande diversão. Se pelo menos alguns dos nossos estudantes doutores experimentassem! Mas não, eles foram ensinados a ser objetivos, científicos (no sentido limitado da palavra), o que significa que nenhuma criação, apenas a dedução, é academicamente correta. Anos atrás em uma publicação de administração estratégica, o editor escreveu que “para nossa área continuar com esse crescimento, é preciso desenvolver ligações entre pesquisa e prática, e então, melhorar nossas pesquisas e o entendimento de que relevância vem do rigor” (Schendel 1995:1).

Essa reivindicação não foi rigorosa, já que nenhuma evidência foi apresentada em seu nome. Como sempre, foi levado como um artigo de fé. Leia as publicações “rigorosas” da nossa área, e você chegará uma conclusão oposta: que esse tipo de rigor, metodológico, encontra seu caminho para relevância. Pessoas muito preocupadas em fazer sua pesquisa corretamente geralmente falham na perspicácia. Claro, o rigor intelectual não fica no caminho da relevância. O editor se referiu a isso no editorial como “lógica cuidadosa”, mas o que ele quis dizer foi o seguinte: “pesquisas nessa área não devem ser especulações, opiniões, ou jornalismo esperto; devem ser sobre produção de trabalhos nos quais as conclusões possam ser desenhadas independentemente do público-alvo da pesquisa ou dos resultados que foram atribuídos”.

Eu vejo como uma pesquisa burocrática, porque procura observar a dimensão humana – imaginações, insights e descobertas. Se eu estudasse um fenômeno e através dele surgisse uma boa teoria, não seria certo desenvolvê-la porque ela pertenceria a outra pessoa? Aceite isso e você estará rejeitando praticamente todas as teorias, da física à filosofia, porque nós todos somos esforços idiossincráticos, invenções de mentes criativas. (Já pensou? “Desculpe-me, Einstein, mas sua teoria da relatividade é muito especulativa, não foi comprovada, então não podemos publicá-la”).

É por isso que vemos tão pouca indução na nossa área, a criação de poucas teorias interessantes. O estágio inicial, o ato de conceber ou criar uma teoria, não me parece algo para chamar de uma análise lógica, por não estar suscetível a isso. A questão é de como a nova ideia surge para o homem – seja um tema musical, um conflito dramático ou uma teoria científica. Essa pode ser uma ótima sugestão de pesquisa para psicologia científica; mas é irrelevante para a análise lógica do conhecimento científico.

 

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