Invertendo a sala de aula: será que os nossos alunos estão preparados?

Diego Andreasi

Caro leitor, gostaria de iniciar o texto de hoje com uma pergunta provocativa. Em sua opinião, qual é a melhor metodologia de ensino que existe? Como ensinar, da melhor forma possível, os nossos queridos alunos?

Pergunta difícil não é mesmo?

Para chegarmos a uma resposta aceitável, uma grande quantidade de variáveis precisaria ser analisada, tais como: o público que estará presente, o conteúdo que será passado, o tempo disponível, etc...

Já que é extremamente difícil chegar a uma conclusão sobre qual é a melhor, o contrário, aquela que não funciona, em minha opinião, não.

Vejamos, nos últimos anos, vêm ganhando destaque na mídia uma metodologia que consiste na inversão do processo de aprendizagem tradicional do aluno, a chamada sala de aula invertida.

Na sala de aula invertida, que está fazendo muito sucesso nos Estados Unidos e em países da Europa, o aluno se responsabiliza pelo seu próprio aprendizado, e a aquisição do conhecimento não acontece apenas em aulas expositivas na Universidade, mas também fora dela. Antes da aula, o estudante pode ter contato com o conteúdo em casa. Assim, o tempo na sala de aula é usado para aprofundar conceitos, tirar dúvidas e realizar exercícios e atividades práticas.

Dessa forma, os estudantes não perdem tempo com explicações do professor e podem fazer mais exercícios. Na sala, os professores transformando a aula em uma conversa, podendo mudar até o layout tradicional das cadeiras enfileiradas.

Resumindo, na sala de aula invertida, o estudante passa atuar como um ser ativo no processo de aprendizagem, e a meu ver, é exatamente aí que reside o grande problema para nós brasileiros.

Diante da constante falta de interesse dos nossos alunos, tão acostumados ao processo padrão, que é mais cômodo, essa metodologia vem gerando grande repercussão entre os nossos professores.

Acompanhem o relato abaixo, o mesmo foi retirado de uma postagem no Facebook e está reproduzido na íntegra:

Um professor de pós-graduação me contou que pediu para seus alunos fazerem uma síntese do texto (Ideias simples e diretas embasadas cientificamente. Texto fácil.) que seria trabalhado na aula seguinte.
Dos 23 alunos da turma, apenas 6 leram o texto. Destes, só dois fizeram a síntese. Indignado, reclamou da falta de esforço de seus alunos e da constante falta de profundidade das discussões, já que raramente liam o texto. Ele ouviu várias justificativas e me relatou algumas:
- Prof, eu não tinha entendido o que o senhor queria.
- É que eu achei que era só pra ler.
- A gente tem outras matérias professor.
- Eu nem sabia que era pra trazer a síntese.
- Professor, síntese é o mesmo que resumo?
- Professor, pega leve, ninguém liga pra isso, a gente só quer o certificado, a empresa exige. Calma, professor, to brincando.
- Não achei o texto lá no xerox, alguém pegou e a gente não conseguiu tirar cópia.
- Professor, acho que o senhor tá exagerando, nenhum professor fica chateado se a gente não lê. Eles dão um tempo pra gente ler em sala de aula mesmo.
O maior problema é que essa praga da mediocridade está cada vez mais comum, não somente entre os alunos, mas também entre alguns professores. Se continuar do jeito que está, logo os entrevistadores dos candidatos a vagas nas empresas vão perguntar: Tem faculdade? Que bom, e chegou a aprender a ler?
Ah, dos dois alunos que fizeram a síntese, só um a entendeu.

(Marcos Meier – Professor e Educador).

Ao ler esse depoimento, imediatamente eu me identifiquei com um professor que tive na graduação, há 5 anos, que passou pelo mesmo problema com minha sala.

Essa metodologia de ensino, costumeiramente utilizada em programas de Mestrado e Doutorado, novamente a meu ver, torna-se improdutiva quando empregada em aulas para alunos da Graduação ou Pós-Graduação, pelo menos por enquanto.

Infelizmente, a aula dos sonhos de todo professor, não é mesma a aula dos sonhos de todo aluno. Ao ignorarem essa realidade, os professores correm o grande risco de se frustrarem, e, consequentemente, desabafarem suas insatisfações nas redes sociais.

Para agravar ainda mais a situação, a atual geração vem sofrendo com o que o famoso psicólogo americano Daniel Goleman, em sua mais recente obra intitulada Foco: a atenção e o seu papel para o sucesso, chama de empobrecimento da atenção.

O autor comenta que uma professora de oitava série lhe contou que, por muitos anos, ela fez turmas sucessivas de alunos lerem o mesmo livro: Mitologia, de Edith Hamilton. Seus antigos alunos adoravam o livro – e isso durou até mais ou menos cinco anos atrás. De repente, a professora começou a ver que as crianças não estavam tão empolgadas, e nem mesmo os grupos com alto desempenho conseguiam se envolver.

Os alunos diziam a professora que a leitura era difícil demais, que as frases são complicadas demais, e que é preciso muito tempo para se ler uma página.

Esse empobrecimento da atenção, do qual as causas são explicadas em seu livro, de uma forma geral, também é responsável por prejudicar a capacidade de interpretar comportamentos alheios frente a frente, em tempo real, e traz como consequência a considerável perda de empatia, que é a capacidade de uma pessoa mostrar-se interessada nas outras.

Dessa forma, ninguém se incomoda mais com o fato de um pegar o celular na frente do outro, quando apenas os dois se sentam para conversar em uma mesa.

Para não prolongar a discussão, encerro o texto por aqui, mas gostaria de ouvir a opinião de outros professores e alunos, pois futuramente, pretendo estender esse texto para debater sobre outro assunto: a questão das Universidades estarem cada vez mais reféns dos seus alunos/clientes.

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