O público, o privado e a ocupação das escolas

Trazer o tema da educação pública para o centro do debate político é uma questão mais do que urgente: é a única saída viável a longo prazo para o país

Paulo Prochno

Se você, exposto à ladainha monotemática dos evangelistas do livre-mercado, acredita que mercados são sempre mais eficientes que governo, compare o funcionamento do sistema de saúde dos EUA com os da França, Suécia, Japão e outros. Vai descobrir que nos países onde a saúde é sobretudo pública, os índices são muito melhores – tanto em custos quanto em resultados. Parece que saúde é uma daquelas áreas onde o Estado, se bem administrado, pode ser muito melhor e mais eficiente que empresas com fins lucrativos.

Isso vale também para educação. Pegue qualquer ranking que compare resultados entre países. Veja os que estão no topo: a grande maioria terá um sistema sobretudo público de educação fundamental – e nesses países, a sociedade coloca fortes pressões nos políticos por bons resultados nessa área. Aqui nos EUA, por exemplo, a qualidade da educação pública é algo debatido quase que diariamente nos jornais, e políticos que não conseguem bom desempenho em educação não são reeleitos.

Mas para que educação e saúde públicas funcionem bem, elas precisam ser bem administradas. Pense então na seguinte situação: você tem uma empresa que tem enfrentado queda na demanda – seus clientes estão comprando de outras empresas porque acham que seu serviço não está no mesmo nível de qualidade que os concorrentes. O que você faria? A) cortaria os custos e diminuiria a disponibilidade do serviço para se ajustar à queda de demanda (mesmo sabendo que isso causaria problemas aos clientes que ainda são fiéis a sua empresa); B) investiria mais e expandiria seu serviço, desenvolvendo inovações para atrair os clientes de volta.

A maioria responderia “B”. Mas o governo de São Paulo escolheu A, e justificou sua escolha com base em “eficiência”. Enfrentando uma queda da demanda por educação pública, resolveu reorganizar as escolas, cortando custos e causando problemas aos alunos atuais. Faz sentido? Por que não investir mais para melhorar a qualidade de ensino e fazer com que os alunos prefiram a escola pública?

O governo só vai escolher a opção B – que é a melhor opção para todos – quando a sociedade se engajar na luta pela educação pública de qualidade. Esse movimento de ocupação das escolas de São Paulo pelos estudantes é um passo nessa direção, e merece o apoio da sociedade como um todo. E a discussão deveria ser ampliada, uma oportunidade de trazer o tema da educação pública para o centro do debate político. Porque é uma questão mais do que urgente. Porque é a única saída viável a longo prazo para o país.

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