30 metros acima

Já perguntou a si mesmo, se suas escolhas fazem sentido, se vistas 30 metros acima?

Caio Camargo

Eu adoro enxergar a cidade em outra escala. Fico admirado toda a vez que posso apreciar alguma vista da cidade em seu caótico movimento a partir de um edifício mais alto. Certa vez, estive em um consultório para um desses exames de rotina que ficava em um andar bem alto de um edifício de São Paulo, uns 30 metros acima do chão, com uma vista privilegiada para algumas das mais movimentadas avenidas da cidade.

Era perto hora do rush, e na cidade que não para, num trocadilho infame, o trânsito começava a ficar tão parado quanto sempre está.

Lá de cima, carros em diversos formatos e cores, em um universo de poucos tons e deixando a cidade ainda mais cinza com uma maioria prata, preta e branca, com raras exceções de carros coloridos. A noite que começa a cair, começa a criar uma corrente de luzes amarelas de um lado e vermelhas do outro. Nas poucas calçadas, pessoas pequenas, parecendo formiguinhas, corriam alvoroçadas como se alguém gigantesco tivesse pisado há poucos instantes no formigueiro, criando carreiros direcionados aos seus ninhos, onde poderiam embarcar no ônibus ou trem mais próximos.

A arquitetura me ensinou a desenhar e propor o mundo real em escala. Fiquei contemplando admirado este mundo menor, como se fosse a primeira vez que eu visse algo dessa maneira, funcionando perfeitamente nessa pequena escala, como um gigantesco brinquedo a ser observado em funcionamento, como aqueles locais onde constroem cidades em miniatura com diversos bonecos e objetos em movimento.
Comecei a pensar no universo midiático de influência e consumo que somos cercados a todo momento, nos empurrando o que vestir, o que ter, o que dirigir, o que comer, o que beber e como viver.

Engraçado. Nessa escala, nada disso parecia fazer sentido.

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Os carros populares e importados tinham pouquíssima diferença, não justificando seus valores diferentes ou os muitíssimos detalhes que nos são vendidos. Lado a lado, os carros eram praticamente iguais, só variando seus tamanhos e detalhes na lataria. Uma coleção de carrinhos de metal que em qualquer loja de brinquedos você compra todos pelo mesmo preço.

As roupas, acessórios, e principalmente a marca do que usava, não fazia nenhum sentido, a não ser o de cobrir de forma colorida (nem tanto as vezes), os corpos das formigas que seguiam pelas ruas. Pensei nas pessoas que valorizam bolsas femininas de R$ 50.000 reais, das etiquetas que valem mais do que a peça toda, da vontade da mulherada em ter um sapato de sola vermelho, nem que não fosse “o” de sola vermelho. Não fazia sentido em formigas, 30 metros acima.

Fiquei pensando na propaganda com a estrela da TV, com a cantora famosa, com o famoso youtuber.

- Compre isso e seja foda!
- Compre isso e seja tão bonito e famoso quanto eu!
- Compre isso e detone no seu formigueiro!

Formiga falando para formiga tentando ensinar o que formiga tem que usar. Aliás, será que existe “fama” entre as formigas? Faz sentido? Talvez não exista um Nelson Rubens ou uma Mama Bruschetta entre as formigas...nem as verdadeiras formigas não se preocupam com i

sso.

Fiquei pensando nos entendidos em eletrônicos comentando detalhes técnicos de computadores e celulares, comparando o que era melhor comprar, quando 30 metros acima, de nada pareciam diferentes, a não ser um monte de caixinhas com tela ligada. Me lembrei também daqueles vídeos de show de estádio com todo mundo de celular ligado...qual a importância entre o modelo mais popular ou o mais avançado? A qualidade do vídeo? Me diz aí quantas vezes você assistiu ao vídeo que gravou do ultimo show que você foi... 

Pelo horário, dava para ver um punhado de gente chegando em casa, em caixinhas de concreto amontoadas umas em cima das outras, e que acabam sendo vendidas por preços cada vez mais exorbitantes por detalhes como um pouco mais de espaço, uma varanda, ou ainda varanda com churrasqueira. Nada disso fazia sentido aqui de cima.
Mas havia outros pontos interessantes:

O barulho do caos da sociedade, o stress do dia-a-dia, os palavrões, as discussões frequentes entre grupos opostos por nada e sem chegar a lugar nenhum, sumiam a 30 metros acima. Era conversa de formiga, ininteligível, da mesma forma que também insignificante.

Até mesmo assuntos mais polêmicos como o cabelo ou a pele que você tem, a religião que acredita, o time que você torce ou o sexo que você decidiu ser (ou não ser), não tem nenhuma significância daqui de cima. Daqui de cima, tudo e todos parecem iguais, como deveria ser aí embaixo.

Já que estamos virando o ano, quero te propor enxergar o mundo de uma maneira diferente, muito mais pelo o que faz sentido para você, do que o que faz sentido para os que estão a sua volta. Que você se torne um gigante em sua vida e passe a enxergar e dar valor ao que realmente importa. Esqueça o ter, e passe a valorizar o ser. Viva e colecione experiências. Explore seus limites, explore suas possibilidades. Valorize quem se importa com você. Valorize o que você tem de melhor a oferecer para o mundo a sua volta.

E sempre pergunte para si mesmo:

- Isso faz sentido 30 metros acima?

Seja um gigante na sua vida!

Um grande abraço e um feliz 2018!
Caio Camargo

Café com ADM

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