Crise de liderança: Brasil sem direção

A nossa sociedade busca por líderes ou gestores heróis. Esta terceirização do nosso projeto de nação chegou na ápice do maior desvio de dinheiro público conhecido, além da maior divisão social da história. Este artigo visa uma leitura resumida das premissas que permeiam a relação entre os líderes "nacionais" e a sociedade brasileira.

José Divaldo

Abominável e deprimente os esquemas de corrupção que “cercam” as nossas principais autoridades do poder político e financeiro brasileiro (mensalão, lava jato, zelotes ...). Faltam palavras para tamanha decepção e indignação, apesar da criatividade semântica do povo brasileiro. Falta também discutir coletivamente de forma racional as causas e consequências desta crise ética, política e de liderança.

Antes de prosseguir, pausa para esclarecimentos em respeito ao levante participativo do povo brasileiro na era das redes sociais. Estamos num momento de transição perigoso!. Vide debates calorosos nos meios digitais, movimentos sociais antagônicos e sinalizações de intervenção militar com apoio de 43,1% dos brasileiros (Paraná Pesquisas, 2017).

Esclarecimentos: Não pertenço a nenhum partido político. Não tenho compromisso com nenhuma agenda ideológica ou religiosa. Apenas sou um mero componente de uma sociedade multicultural, participe deste processo de aprendizado advindo do choque das diferenças acentuadas nestes momento de transição. Assim como vocês quero viver num Brasil livre, justo, feliz, desenvolvido, sem pobreza e com
menos desigualdade.

Este país só é possível com a participação dos seus 208 milhões de habitantes (IBGE, 29/09/2017). E para que todos possam contribuir temos que criar condições para tal: respeito às diferenças. Estas condições precisam ser criadas por pessoas capazes de intermediar necessidades, interesses, direitos. Estas pessoas são os líderes. As maiores contribuições, não as únicas, vem dos que possuem alcance nacional: presidente, governadores, senadores, deputados, ministros da corte, procuradores da república e grandes empresários que dominam a maior fatia da geração de emprego e renda no Brasil. Será que estas pessoas estão em condição de unir o país ou de dividir?

Liderar é conduzir (influenciar para alguns) uma coletividade de pessoas (cidadãos, funcionários) a conseguir resultados sustentáveis e que traga benefícios para a organização (empresa, instituições públicas), seus dirigentes, funcionários ou servidores e até mesmo para sociedade. Não tem como conseguir resultados se não for através das pessoas. Resultados de 100% dos trabalhadores que compõem aquela organização, caso contrário tem espaço para evoluir. Se for Brasil 208 milhões. E não adianta obrigar as pessoas, elas têm que aderir de corpo e alma, para isto precisam ser conquistadas, respeitadas. As nações mais ricas e desenvolvidas do mundo são as que mais se aproximam do conceito de democracia; da participação com qualidade de todos nos resultados da nação.

No “Brasil Criança” temos heróis e divindades para conseguir os nossos sonhos de riqueza, justiça, felicidade e liberdade (Vale a pena ler editorial do Estadão “O Altar da Salvação Nacional”). Os resultados “são” de alguns heróis que se vestem de políticos, jogador de futebol, playboy bilionário, lutador, comandante, coronel, juiz, procurador, pastor ou padre, cantor, jornalista, ator e etc. A maior alegria para maior parte dos brasileiros é ver a seleção de futebol campeã do mundo. A maior tristeza foi o 7 a 1 tomado da Alemanha em plena Copa do Mundo realizada no Brasil. Estamos vivendo a maior crise ética da nossa história e boa parte da sociedade ainda continua procurando por heróis, a exemplo: apoio a intervenção militar já citado no início deste artigo e os líderes na corrida presidencial segundo pesquisas de intenção de votos; pseudos heróis independente de partidos ou ideologias. Heróis não são líderes. Heróis retiram o poder das pessoas num jogo de dependência.

Líder promove o poder nas pessoas. Não porque é bonzinho ou um líder liberal ou democrático. Mas porque somente com o máximo poder de cada um, chega-se ao máximo de resultado possível e sustentável. Político que diz “vou fazer e acontecer” é um fanfarrão!! São os 208 milhões de brasileiros que podem e devem tirar o Brasil do subdesenvolvimento tecnológico, científico, financeiro e ético. 208 milhões de saberes e habilidades diferentes, bem como valores, ideologias, orientações sexuais, raça, credo ou “não credo”, partido político, time de futebol. Não podemos nos dar ao luxo de perder nenhum deles, devemos incluir todos no projeto brasil.

Projeto de um país construído coletivamente. Os líderes, quanto mais melhor, devem intermediar e promover esta construção. Os partidos políticos deveriam ser um espaço para esta construção (alguém me acorde!!!). Soma-se as instituições de ensino (escolas, faculdades) e “ongs”. O coletivo era discutido em praça pública na Grécia Antiga, época em que este país foi uma potência imperialista. No Brasil da ditadura discutir o coletivo com pluralidade era condenação a morte, talvez derive daí o desinteresse e por consequência despreparo da grande maioria dos brasileiros sobre assuntos que vão além do próprio umbigo.

Vive-se um momento de euforia em participação social no Brasil. Graças a tecnologia, aumento de renda e escolaridade do povo brasileiro, principalmente os mais jovens. Euforia não significa preparo para participação, mas vontade. E este é o primeiro passo necessário. “Imposto é roubo? Se alguém que lhe pede que entregue seu dinheiro e você não pode recusar sob a ameaça de ser punido não for ladrão, eu realmente não sei mais o que é roubo.” (Movimento Brasil Livre, 2017). Mas se não evoluirmos rapidamente para qualificação destas participações, corre-se o risco de grandes desconfortos e decepções acontecer no seio do levante participativo brasileiro. Por consequência, mais uma geração com desinteresse pelo coletivo irá surgir, assim como a geração da ditadura.

A qualificação dos debates é urgente e deve começar pelos líderes. Qualificação que começa pelo princípio da pluralidade. Os líderes devem estar preparados para discutir todos os assuntos e abordar cada um deles sob diferentes conceitos e possibilidades. Quando procuramos conteúdo escrito ou áudio de debates dos candidatos aos principais cargos do país nos decepcionamos com a abordagem superficial e restrita a determinados assuntos. Para cargos no legislativo não tem muitos prejuízos a falta de conhecimento plural, mas presidente, governadores e prefeitos tomam decisões que envolvem todos os assuntos. Por mais que tenham assessores, estes são seus liderados e precisam do seu direcionamento e cobrança.

Pluralidade que passa pela construção de um modelo econômico e comportamental para o país. Aqui entra concepções predefinidas como esquerda, direita, centro. Será que elas dão conta de construirmos o Brasil livre, justo, feliz, desenvolvido, sem pobreza e com menos desigualdade que queremos?

Dividir o país entre esquerda e direita não é qualificar o debate e muito menos ser plural. A muito sabemos pelas ciências que individualidade - liberdade (Direita nos temas econômicos, Esquerda nos temas comportamentais) e coletividade - controle (Esquerda nos temas econômicos, Direita nos temas comportamentais) são princípios complementares. Ou seja, as duas concepções coexistem e o melhor resultado é uma questão de dosagem aplicada ao contexto. Nem o capitalismo (Direita) que prega a liberdade nos temas econômicos, nem a defesa das minorias (Esquerda) que prega a liberdade na orientação sexual são manifestações do “mal” como pregam os seus opositores. Ambas posições pregam a liberdade e ambas podem ser dosadas por necessidades e desejos coletivos. No Brasil temos apenas 10% de pessoas com perfil de Direita e 10% de Esquerda. A grande maioria, 80%, são centro: centro esquerda com 31%, centro direita com 30% e centro 20% (Datafolha, 2017. Existe um erro na fonte de 1%). O Brasil ainda é um país plural.

Somos plural, mas erramos na dosagem: falta de direção posta no título deste artigo. Erramos na quantidade e qualidade das leis, serviços públicos, impostos, matriz econômica, empresas. Erramos na quantidade e qualidade dos nossos representantes. Não se trata de “todo político é corrupto”, ter ou não ter tal política pública, cobrar ou não cobrar imposto, ter ou não “empresa campeã nacional”. Mas de discutir com especificidade e pluralidade cada assunto.

Erramos porque em pleno 2017 temos 19,8 milhões de pobres com renda per capita de até R$ 140,00 (Banco Mundial, 2017), 13,1 milhões de desempregados (IBGE, 2017), 3 anos de recessão econômica, mais 59.627 pessoas que perderam a vida em 2014 por homicídio: maior do mundo. Vamos ao contraste (“ufa! Enfim boa notícia): somos o segundo maior produtor mundial de alimentos: 288 milhões de toneladas de grãos a ser produzido em 2017 (previsão do Ministério da Agricultura), aproximadamente 24 milhões de tonelada de carne bovina, suína e de frango em 2015 (Governo do Paraná), além de outros alimentos. Somos a maior reserva de água doce do mundo: 12% (O Globo, 2017). Segundo Ministério do Meio Ambiente somos a maior biodiversidade do planeta (Biodiversidade Brasileira, 2002): possuímos de 15 a 20% das espécies de vida, 55 mil plantas, 524 mamíferos, 1677 aves, 517 anfíbios e 2657 peixes. Pasmem temos 21.161.659 empresas ativas (Empresometro, 2017): mais de 10% dos brasileiros são empresários; para desespero dos que odeiam o capitalismo. Deveríamos ser o país mais rico e feliz do mundo.

Resultados se alcançam com competência e ética, que pese interferências externas. Não apenas ética, como querem os defensores do judicialismo e da intervenção militar. Sem discutir a “santidade” do exército e do judiciário, retirando destes juízo de valor sobre competência, afinal suas competências é interpretação e garantia da lei de um lado, defesa da pátria a ataques externos do outro. Nem Judiciário e nem Exercito são GESTORES públicos eleitos democraticamente para representar a pluralidade dos 208 milhões de brasileiros. Muito menos apenas competência, como querem os defensores do “rouba, mas faz”, vide 200 bilhões de reais desviados para o ralo da corrupção por ano segundo Deltan Dallagnol (Estadão, 2017).

Competência para dirigir, organizar, planejar e controlar este país. Começa pelo diagnóstico preciso e plural de quem somos e o que temos. Passa pela capacidade de encontrar soluções para eliminar ou reduzir os problemas e potencializar os nossos pontos fortes. Propostas estas alinhadas com o diagnóstico. Alguns vão falar: “cartilha do planejamento estratégico”: sim, mas o problema é a aplicação desta teoria. Quantos planos públicos ou planos de governos possuem propostas surreais, que produzem efeito até contraditório ao esperado? No Brasil, planeja-se para cumprir etiqueta ou obrigação (vide artigo deste autor com detalhes no Portal Administradores). Não menos importante se faz a capacidade dos nossos líderes em dirigir, organizar e  controlar a execução dos planos.

 

Precisamos abrir a caixa preta chamada brasil. Vai ser desconforto para todos os lados. Não tem como construirmos coletivamente nossos sonhos se não sabemos exatamente o que acontece nas nossas instituições. Porque a nossa taxa de juros é uma das mais altas do mundo, mesmo com a inflação controlada e baixa? Quanto de investimento produtivo para gerar emprego e renda teríamos se abaixássemos a taxa de juros? Será que uma boa parte dos investidores em título do governo que recebem 8,25% por ano (taxa Selic) não investiria este dinheiro na abertura ou compra de empresas se esta taxa caísse consideravelmente? Para onde queremos que o dinheiro poupado por brasileiros e estrangeiros seja direcionado: investimentos financeiros (dentre eles cobrir rombo orçamentário de governo), empresas ou imóveis? As pessoas em geral não sabem que a Taxa Básica de Juros, somada a outras variáveis econômicas, influencia na geração de emprego e renda. Não sabem que a maior parte das maiores empresas brasileiras não dão o retorno de 8,25% ao ano.

Taxa Básica de Juros é apenas um de muitos temas que precisam ser discutidos pelos líderes brasileiros juntamente com a população para avançarmos em propostas que tragam mais trabalho e renda. Foi inclusive preterido em relação a reforma trabalhista, não que esta não merecia acontecer. Perpassa neste tocante redução do custo brasil, aumento da produtividade, melhoras no sistema educacional, eficácia da diplomacia brasileira frente a abertura de mercados internacionais e “mix” de empresas.

As nossas maiores empresas vendem “produtos conservadores”. Petróleo, ferro e serviços financeiros são os produtos que dominam grande parte do pib brasileiro e da geração de emprego (Exame, 500 maiores empresas em receita). Não esqueçam que esta crise se aprofundou quando a lava jato abalou a Petrobras. O sonho do petróleo levou o estado do rio de janeiro a quase falência. Quem são e qual o futuro dos produtos que as nossas maiores empresas vendem significa muito sobre o futuro da nossa economia e do mercado de trabalho. Com tanto investimento em refinarias pelo Brasil afora estamos preparados para invasão dos carros elétricos? É viável a Petrobras daqui a 30 anos se não existir reserva legal de mercado? China, Inglaterra e França já estabeleceram um fim para era dos carros movidos a gasolina e diesel. Acredito que nossos líderes nacionais precisam repensar o mix das grandes empresas “campeãs nacionais”. No paraná as maiores são cooperativas agroindustriais. Cooperativismo aproxima individualidade e coletividade (duas concepções de organizar a sociedade antagônicas). Os milhares de trabalhadores são donos do capital e recebem participações nos lucros, vide Coamo.

Temos milhões de pessoas com condições de participar ativamente dos rumos para o Brasil. Pessoas que estão envolvidas nas suas especificidades do trabalho e não conseguem parar para propor e articular soluções. Outros não querem se envolver com política ou com espaços coletivos de debate. Esquecem que vivemos em sociedade e querendo ou não todos somos influenciados pelas decisões dos pseudos heróis que há muito conhecemos. Somente com a participação de todos, Através de um pacto social, quase que um refundar a república, consequiremos tirar o brasil dessa crise sem precedentes.

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