Nossos governos: de ontem, de hoje (de amanhã?)

A tragicomédia que é a história brasileira tem palavras-chave: inflação, corrupção, despesa e dívida. A solução está na forma como precisamos enxergar tudo isso

Agatha Justino
Manuel de Araújo (Porto-Alegre/Museu Histórico Nacional)/ Wikimedia

Aconteceu em 1821. Dom Pedro assumia o governo do Brasil na condição de príncipe regente e o cenário era desanimador. As despesas públicas somavam o dobro da arrecadação de impostos nas províncias. Para cada real de receita, o príncipe gastava dois. A dívida nacional só aumentava, chegando a triplicar nos cinco anos seguintes. O motivo? O governo ordenava gastos, mas não obtinha recursos para tal. 

Além disso, a corrupção assolava a principal instituição do país na época, o Banco do Brasil. Segundo D.Pedro, os dilapidadores eram os próprios administradores. No rol de problemas econômicos que o jovem príncipe precisava enfrentar, ainda estavam a inflação alta e a desvalorização da moeda: a libra esterlina que, até então, era trocada por 4.000 réis, passou a ser cotada a 5.000 réis.

Em meio a tantos problemas, D. Pedro escreveu a seguinte súplica ao pai, rei de Portugal, D. João VI: “Peço a Vossa Majestade, por tudo quanto há de mais sagrado, me queira dispensar deste emprego que me matará pelos contínuos e horrorosos painéis, uns já à vista, e outros muito piores para o futuro*”.

Aconteceu em 2015. D. Dilma Rousseff assume o governo do Brasil na condição de presidente da república. A dívida pública está alta e os recursos são insuficientes para cobrir despesas que não param de crescer. A corrupção assola um dos principais patrimônios nacionais, a Petrobras. E os dilapidadores, mais uma vez, são os próprios administradores. No rol de problemas econômicos, a presidente precisa enfrentar a inflação que chegou aos dois dígitos, com uma taxa de 10,67%. E ainda a desvalorização da moeda, com o dólar chegando a 4 reais. Uma única diferença em relação a D. Pedro: Dilma não é princesa regente e, sim, presidente reincidente; herdeira da sua própria gestão ruinosa no mandato anterior.

A tragicomédia que é a história brasileira tem palavras-chave: inflação, corrupção, despesa e dívida. Estamos enfrentando sempre os mesmos problemas e os governantes, quando questionados, sempre adotam uma resposta-padrão: “Isso também aconteceu na gestão anterior”. Essa verdade deveria ser compreendida como um contrassenso e, não, como uma maneira de minimizar os erros do momento.

Quando o país deixará de ver como natural, ou parte da nossa trajetória histórica, a corrupção e a estupidez econômica?

Já reconhecemos os absurdos. Agora precisamos parar de aceitá-los como parte do DNA da nação. Precisamos de uma geração que não diga “o Brasil é assim mesmo”, mas que promova seu próprio levante. O Movimento Brasil Eficiente, por exemplo, já decidiu que não aceitará como racional, justo e imutável o sistema tributário que temos hoje. Uma cobrança de impostos que consegue a proeza de sufocar produtores e consumidores, e ainda ter um dos piores retornos ao contribuinte. Tudo isso, ao mesmo tempo.

Agora, precisamos de uma população que não aceite mais o fato de termos nada menos que 62 parlamentares, ex-parlamentares, dirigentes de partido, ministros e governadores envolvidos no maior escândalo de corrupção, que é a Lava Jato. Há outros, que ampliariam a lista dos envolvidos. Chega de dizer que todos os políticos são igualmente ruins. E ainda, que não se ache comum sofrermos com epidemias de dengue ou Zika. Essas doenças não fazem parte de países desenvolvidos. A inflação também não é algo banal. Entrar no supermercado com uma nota de 50 reais e perceber que com ela levamos pouquíssimos itens é cruel. O fato de ter acontecido nos anos 80 e 90 não deveria nos acalmar.

É difícil livrar uma nação de vícios históricos, mas o primeiro passo para qualquer mudança é parar de aceitar o caminho da mesmice e de encarar problemas tão antigos como “normais”. O maior desejo coletivo em 2016, é que 1821 chegue logo ao fim.

 

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