Indústria 4.0: como aprender com startups e scale-ups para garantir competitividade

Boa parte da indústria brasileira — que ainda é avessa ao risco — resiste a atualizar processos e a entrar para valer na era da digitalização. Mas não tenho dúvidas de que a aproximação com startups e scale-ups pode alterar esse cenário

Endeavor Brasil
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O mundo, definitivamente, está em um caminho sem volta rumo à Indústria 4.0. Ou seja, rumo a uma completa descentralização do controle dos processos produtivos graças à proliferação de dispositivos inteligentes. É o caminho natural para aumentar a competitividade e a produtividade do setor. Só que, neste processo, o Brasil ainda está alguns passos atrás. Aqui, quero refletir sobre as causas de tal retrocesso e sobre como tirar essa preocupante diferença.

O atraso brasileiro diante da integração das tecnologias físicas e digitais em todas as etapas de desenvolvimento de um produto é evidente. Mas a boa notícia é que, por outro lado, o país encontra-se num momento de transição importante e extremamente sensível para a adoção de uma nova forma de inovar: a conexão com startups pela indústria tradicional.

O cenário é positivo, com números representativos de indústrias visionárias que já compram de startups e de indústrias pragmáticas que já estão se preparando para a conexão. De acordo com o relatório do Panorama da Conexão Startup Indústria, lançado pela ABDI em setembro último, do universo de 408 indústrias pesquisadas, 22% já negociaram (compra e venda) com startups e 21% delas estão se preparando para iniciar processos comerciais com startups.

O fato é que as startups estão invadindo positivamente a indústria tradicional. A inovação é hoje uma necessidade competitiva e de sobrevivência para as empresas do mundo moderno, que está muito dinâmico: são mudanças fortes e constantes e em um tempo cada vez menor, fruto de uma época da inovação disruptiva sequencial. Para continuar ou tornar-se relevante, a empresa precisa ser focada e flexível o suficiente para se adaptar e se reinventar continuamente. Um bom exemplo desse novo modelo é a GE, uma gigante tradicional que adotou metodologias leans, baseadas nos comportamentos das startups.

Nesse sentido, aplicar o conceito da indústria 4.0 é indispensável para que o setor produtivo brasileiro ganhe produtividade. Por isso, são urgentes a disseminação desses novos conceitos e a capacitação das indústrias que representam setores transversais e estratégicos, indutores de produtividade e de inovação.

Aproximar startups e scale-ups de indústrias para acelerar o processo

Acreditamos que a conexão entre indústrias e startups é a melhor forma de alavancar a inovação e a competitividade da indústria nacional. Tanto que criamos o Programa Nacional Conexão Startup Indústria, com o objetivo de testar e validar um novo modelo de inovação aberta no Brasil.

Considerado pelo movimento 100 Open Startups como o terceiro maior programa de Corporate Startup Engagement (CSE) no Brasil, o Conexão Startup Indústria inaugura um novo jeito de fazer política pública, pensando de forma disruptiva. Basicamente, a iniciativa que conta com um investimento de R$ 50 milhões, ao longo de três anos, cria um ambiente de negócios entre indústrias e startups, focando na integração digital de diferentes passos da cadeia de valor dos produtos industriais.

Desde a sua construção e ao longo das etapas, o programa tem confirmado que essa associação acelera o processo de inovação na indústria. No ambiente cada vez mais incerto que estamos vivendo — em que novas tecnologias, novos modelos de negócio e novas metodologias surgem a todo o momento — essa aproximação é fundamental. Porque são as startups as organizações que melhor têm lidado com esse cenário de mudanças.

Desde a sua construção e ao longo das etapas, o programa tem confirmado que essa associação acelera o processo de inovação na indústria. No ambiente cada vez mais incerto que estamos vivendo — em que novas tecnologias, novos modelos de negócio e novas metodologias surgem a todo o momento — essa aproximação é fundamental. Porque são as startups as organizações que melhor têm lidado com esse cenário de mudanças.

O desafio de quebrar paradigmas

Uma das mudanças mais importantes que precisamos observar é a quebra de paradigmas. Indústrias mais consolidadas ainda estão presas a questões como controles físicos de produção, com papéis, formulários e procedimentos, às vezes, afogados em burocracia.

Também neste sentido, a associação entre empresas consolidadas e startups contribuiria imensamente. Isso porque a digitalização está transformando o futuro da indústria, exigindo das empresas maduras flexibilidade na definição de novos modelos de negócios, novas competências, novas práticas digitais e novos processos de gestão. E as empresas nascentes de base tecnológica ajudam nesse processo por trazerem, acima de tudo, uma mudança de mindset.

Não é uma relação de cliente e fornecedor, apenas, mas de colaboração, participação e aprendizado mútuo. O próprio ato de conexão já exige, das indústrias, uma flexibilização dos processos de contratação, da sua compliance e de compras. As relações passam a ser mais interativas, com vários pontos de validação feitos por meio de MVPs (Produto Mínimo Viável). E as metodologias de gestão de projetos e atividades tornam-se muito mais ágeis.

Setores em que essa conexão já acontece para valer

Todo o setor produtivo nacional poderá se beneficiar da associação com startups. Prova disso é que praticamente todos os segmentos industriais estão representados no Programa Nacional Conexão Startup Indústria. Foram submetidos 49 cadastros por indústrias dos segmentos aeronáutico, alimentício, química, bens de capital, eletrônica, farmacêutica, metalurgia, construção civil, cosméticos, energia, mineração, papel e celulose, têxtil e outros.

Obviamente, cada setor tem o seu ritmo no ciclo de adoção da inovação. Das indústrias inscritas no Conexão Startup Indústria, 16% são entusiastas ou visionárias (as primeiras que assumem riscos ou compradores iniciais) e o restante são pragmáticas, conservadoras ou céticas (aguardam o movimento de outras indústrias referência para tomar alguma ação).

Obstáculos para a aproximação entre startups e scale-ups

Talvez o maior empecilho para que ocorra a conexão com startups seja a aversão da indústria ao risco. Eu diria que é o ponto nevrálgico. Enquanto uma startup assume 100% do risco do negócio, os segmentos da indústria preferem manter métodos de gestão antigos, desatualizados, na base do “em time que está ganhando, não se mexe”. O problema é que, quando se mexe, o time pode ganhar muito mais.

Outro obstáculo é o fato de que os programas de apoio existentes não procuram um comprometimento real das empresas. Acredito que esse comprometimento deve ser encarado como uma relação comercial entre as partes. A ABDI tem se posicionado para partilhar esse risco com as indústrias para que os gestores de inovação, por meio de cases de sucesso, consigam sensibilizar o seu board sobre o risco associado a projetos e programas de inovação e o ganho de valor para a manutenção da competitividade no presente e para enfrentar os desafios futuros.

Os empreendedores não devem estar preocupados com a simples venda do seu produto, por mais disruptivo que seja, mas, sim, com a identificação dos problemas e das demandas das indústrias. Por isso, devem co-desenvolver soluções que, ao mesmo tempo, tragam novas tecnologias, processos, mindsets, metodologias, modelos de negócios em uma relação de troca com a indústria.

Caminhos para acelerar a associação

Existem inúmeros programas de apoio à inovação no Brasil que já abordam essa relação entre grandes corporações com startups. Porém, como disse, há baixo comprometimento das partes.

Nesse contexto, torna-se clara a conduta que deve ser adotada: a de fortalecer ações que resultem em maior engajamento de indústrias e de startups, a exemplo de iniciativas como o ScaleUp Indústria, da Endeavor, e o Programa Nacional Conexão Startup Indústria, da ABDI. São ações que demonstram que há, sim, um forte interesse das indústrias em explorar a conexão com startups, em busca de produtividade, eficiência e competitividade.

Concluo com uma reflexão sobre aquele que considero o principal desafio: acesso ao mercado. Nós precisamos nos especializar cada vez mais em fornecer inteligência e conhecimento, atuando como uma “ponte”, um elo entre os diversos agentes do ecossistema de inovação brasileiro para melhorar o ambiente e dar aos empreendedores condições adequadas e competitivas para realizar negócios.

São inúmeros os desafios pela frente. No entanto, investindo na associação entre empresas consolidadas e aquelas que melhor entendem e atuam nesse contexto, acredito que a indústria brasileira poderá se preparar melhor para a transformação digital. E que, enfim, poderá aproveitar todas as oportunidades que o novo contexto oferece.

Conteúdo publicado originalmente na página da Endeavor e cedido gentilmente ao Administradores.com.

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