Gabriela Pugliesi: “camarotização” da vida

Nunca um novo termo foi tão feliz para definirmos com exatidão a estratégia de apropriação de insta-celebridades

Marcos Hiller

O tema da redação do último vestibular da Fuvest foi sobre a chamada “camarotização”, que pode ser entendida como um fenômeno de distinção social promovido por meio de privilégios em acesso a determinados rituais de consumo. Fenômeno esse que não é de hoje, mas que ganhou mais visibilidade tempos atrás por conta do patético Rei do Camarote, que estampou dezenas de capas de revistas e portais da internet. Nunca um novo termo foi tão feliz para definirmos com exatidão a estratégia de apropriação de insta-celebridades, como Gabriela Pugliesi, uma das blogueiras fitness mais famosas do Brasil.

Para quem não a conhece, Pugliesi é uma uma cidadã-comum que, há cerca de 2 anos, ganhou status de web-celebridade por conta de seu perfil do Instagram e seu blog Tips 4 Life. Considerada pelo portal Ego (Globo.com) como “um fenômeno do Instagram”, Pugliesi abandonou um emprego formal em uma joalheria para se dedicar exclusivamente ao seu novo emprego online. Suas dicas vão desde receitas light de alimentos, tirinhas com anedotas, fotografias de situações cotidianas e todas vendendo uma espécie de “qualidade de vida”, um termo amplamente utilizado hoje em dia e que, para mim, não diz nada.

O sucesso do seu blog e do perfil no Instagram não só magnetizou uma legião de seguidoras e algumas aparições em capas de revista, mas também uma miríade de marcas de roupas, alimentos funcionais e suplementos que se aproximaram da blogueira com a intenção de que ele fosse patrocinada, e com isso endossasse determinados produtos.

Ao arrastarmos nosso dedo pela tela do smartphone e observarmos as incontáveis fotos de Pugliesi, devemos ter muito cuidado para analisar qual estratégia é essa que ela adota. Consciente ou inconscientemente, ela tem uma estratégia de apropriação do Instagram. Nessas férias de janeiro de 2015, por exemplo, ela está na praia de Trancoso com seu novo namorado, que já ultrapassa a marca de 100 mil seguidores – no vácuo de sua nova namorada.

A interação social dele, dela e, sobretudo de qualquer indivíduo em nossa sociedade, surge a partir dos propósitos individuais que incluem, entre outros, os interesses de poder, vaidade e riqueza, disse certa vez Georg Simmel, sociólogo alemão que morreu nos anos 10. E é exatamente o que evidenciamos nas fotos de Trancoso do casal. Muito evidente em todas as fotos um processo de inscrição em imaginários do consumo que denotam elementos de sofisticação, ostentação, bens materiais exclusivos e corpos minuciosa e exaustivamente tonificados. Tudo é esteticamente calculado e tratado: os enquadramentos, os ângulos, as matizes de cores, as poses, as marcas, os rótulos. As fotos em situações clichês também não são economizadas. Nos comentários, vemos uma legião de fãs, seguidoras (na maioria, são mulheres) se inspirando e se espelhando nos dizeres de Pugliesi.
 
É muito complexo analisar, interpretar e sair dizendo nossa leitura sobre os conteúdos imagéticos, discursivos e sonoros produzidos pela moça. Mais que isso, ter uma visão crítica de todo esse fenômeno contemporâneo e cair em argumentos simplistas é uma armadilha muito fácil. Por isso, eu procuro me preparar muito para analisar um bom objeto de pesquisa como esse. Eu busco a lupa de autores contemporâneos das áreas de comunicação e consumo para me aproximar desses objetos. Sim, a estratégia de Pugliesi é um objeto de pesquisa tão bom que virou tema de um artigo científico que publiquei em um congresso de comunicação da UFRGS em 2013. Para lê-lo inteiro, baixe meu último livro, ONdivíduos e procure no índice. É um dos últimos textos chamado “Reality Show Fitness”.
 
O casal-modelo vende de forma impecável uma camarotização da vida. Afinal, nesse universo do hiperconsumo em que estamos inseridos, há uma infinidade de benefícios, bem-estar material, melhor saúde, mais informação. Tudo isso é entregue na palma de nossa mão, de graça e sem necessidade de pulseirinha. Pugliesi contribui para tornar possível uma maior autonomia de suas adoradas seguidoras nas ações cotidianas na busca do utópico corpo-perfeito, namorado-perfeito, roupas-perfeitas, viagens-perfeitas. Afinal, como disse certa vez o filósofo francês Gilles Lipovetsky, as atividades mais elementares da vida cotidiana tornam-se problemas para nós e causam interrogações perpétuas, como a alimentação. O que devo comer? Que horas? De que forma?

Mas Gabriela Pugliesi é o oráculo com o qual 908 mil seguidoras sempre sonharam e que nos entrega todas essas respostas à la carte. Tudo isso faz muito sentido, pois vivemos numa era onde o agora é a hora da desorganização das condutas alimentares, da cacofonia das referências e critérios. Trata-se não mais tanto de comer quanto de saber o que comer, de tão presos que estamos entre os estímulos gulosos e o modo de nos alimentarmos mal, de consumirmos muito açúcar, muita gordura, corantes, de nos tornarmos obesos em uma sociedade que apresenta como modelo a ditadura da magreza.

No manancial de fotos e textos que Gabriela publica na timeline de seu Instagram, evidencia-se nas entrelinhas um discurso norteado pela camarotização das práticas cotidianas mais elementares, onde ela colhe os frutos da eficácia tecnológica da medicina e de sua condição sócio-econômica bem sucedida. Pugliesi surge para milhares de seguidoras em um mundo que promete satisfações incontestáveis e sempre renovadas. Mais que isso, o discurso da blogueira encaixa-se muito bem em um mundo tão depressivo, cheio de ansiedades, gerador de inquietações de toda natureza e, pela primeira vez, menos otimista quanto à qualidade de vida por vir, disse também o filósofo francês Gilles Lipovetsky em um dos seus últimos excelentes livros, “A Cultura Mundo”, que escreveu em conjunto com Jean Serroy, em 2010. As formas desse neoindividualismo centrado na primazia de si são incontestáveis.

Paralelamente à autonomia subjetiva, ao hedonismo, desenvolve-se uma nova relação com o corpo: obsessão com a saúde, culto do esporte, boa forma, magreza, cuidados com a beleza, cirurgia estética, manifestações de uma cultura tendencialmente narcísica. São sintomas de um mal estar de nossa sociedade contemporânea. Hoje em dia, quase 1 milhão da usuários seguem Pugliesi e seu reality show fitness hiperbólico, o que extrapola, e que extrapola o simples ato do condicionamento físico. Um discurso que vende uma forma física idealizada, que significa “qualidade de vida” e insinua a conquista de felicidade.
 
Ao lermos autores que pensam o consumo, vamos encontrando respostas que explicam como se alicerça essa estratégia de apropriação de um site de rede social pelos seus usuários. Trata-se, fundamentalmente, de uma manifestação do consumo contemporâneo, ou seja, um fenômeno da ordem da cultura, como construtor de identidades, como bússola das relações sociais e como sistema de classificação de semelhanças e diferenças na vida contemporânea, como nos ensinou certa vez o antropólogo Everardo Rocha, um dos maiores pensadores do consumo hoje no Brasil e professor da PUC RIO. Rocha diz também que o consumo assume lugar primordial como estruturador dos valores e práticas que regulam relações sociais, que constroem identidades e definem mapas culturais. Não apenas Gabriela Pugliesi, mas qualquer um de nós, publicamos em redes sociais apenas as informações que apresentam uma imagem desejada nossa. Enquanto estamos supostamente nos mostrando, estamos apresentando uma versão muito seletiva de nós mesmos.
 
Camarotização da vida, culto ao corpo, exibicionismo digital, falta do que fazer, ócio criativo, defina como quiser. Devemos enxergar toda essa estratégia de Gabriela Pugliesi como um fenômeno do consumo, ou seja, uma expressão de status e capaz de construir uma estrutura de diferenças. Séries de produtos e serviços se articulam, pelo consumo, a séries de pessoas, grupos sociais, estilos de vida, gostos, perspectivas e desejos que nos envolvem a todos num permanente sistema de comunicação de poder e prestígio na vida social.

 

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