Um burguês vietnamita no Brasil: a surpreendente história de Thái Quang Nghiã, fundador da Góoc

O nome é impronunciável, o sotaque é complicado, mas a linguagem dos negócios é uma só: lucro

Agatha Justino Administradores.com,
Divulgação
Thái Quang Nghiã: um homem cuja história pessoal conta a história do mundo em seus anos mais tempestuosos

A década era a de 1970 e o cenário, um Vietnã em guerra. No centro da narrativa, o filho de ricos comerciantes Thái Quang Nghiã, um homem cuja história pessoal conta a história do mundo em seus anos mais tempestuosos. Aos 20 anos, Thái fugiu do seu país de origem, onde era perseguido pelo regime comunista. Buscando liberdade, passou quatro dias à deriva e foi resgatado em alto mar por um petroleiro da Petrobrás.

Chegando ao Brasil, Thái era, em suas palavras “cego, surdo e mudo”. Não falava português e chegou a passar dias vagando por estações de metrô em São Paulo. Na falta de um dicionário vietnamita-português, ele criou um com aproximadamente 25 mil verbetes. Sua paixão pela leitura e educação foram a motivação para que ele prestasse vestibular na USP, o que parecia loucura para os amigos refugiados. Ele passou em matemática e fez cursos em computação pelo Senai e Senac, com isso foi trabalhar em um banco.

A vida já parecia estabelecida, quando uma amiga, fabricante de bolsas a quem Thái emprestou dinheiro, quebrou e a forma de pagamento foi o estoque encalhado. “Ela me deu era metade do que me devia. Eu pensei 'se eu vender pra 25 de março de novo, eu perco mais dinheiro'. Decidi vender no bairro mesmo, pra ganhar mais um pouquinho. Em 15 dias eu vendi, além de não perder dinheiro eu ganhei dinheiro. 'Puxa vida, agora virei empresa'. Não tinha mais chefia”.

Esse foi o início da trajetória de sucesso que chegou ao seu ápice com a criação da empresa de calçados reciclados Yepp, que se tornou Góoc. A nova empresa tinha como carro-chefe um produto que simbolizava resistência, resiliência e apego às raízes, elementos que compõem a vida pessoal e profissional de Thái. Uma sandália feita de pneus descartados e inspirada nos guerrilheiros vietnamitas, a Góoc Eco Sandal. O produto se espalhou pelo mundo e passou a ser comercializada nos Estados Unidos, Europa e Japão, com um faturamento que já teve um faturamento superior a US$ 50 milhões por ano.

Administradores – Fale um pouco sobre sua história. Como você saiu do Vietnã e chegou aqui?

Thái Quang Nghiã – Eu saí do Vietnã quando tinha 18 anos, mais ou menos. O regime comunista entrou, e meu pai era um grande comerciante, o que não é muito simpático para o regime comunista, que confiscou os bens do meu pai e da minha família também. E eu fui mandado para um campo de reeducação, que na verdade era de concentração, um campo de trabalho forçado. Durante o dia era trabalho forçado, à noite tinha que sentar pra ouvir sobre comunismo. Quando eu voltei do campo de concentração, eu fiquei muito revoltado e minha família percebeu e me aconselhou: "é melhor que saia daqui". Porque na primeira vez você vai pro campo de concentração, na segunda vez você pode ser fuzilado ou pegar prisão perpétua. E então eu fugi em alto mar. Comprei uma passagem com o dinheiro de umas joias da minha mãe que estavam escondidas e fugi como pescador em alto mar. Assim foi minha saída do Vietnã.

Você falou que seu pai foi um comerciante. O que você aprendeu com ele, nessa questão de comércio? Tem alguma lição dele que você carrega até hoje, em relação ao comércio?

A gente teve muito pouco contato porque ele tinha três mulheres. Ele não era muito próximo de nós. Mas o que ele falava pra mim é que o mais importante é o seu nome. Se você perde seu nome, perde tudo. Meu pai sempre me falou isso.

Queria falar um pouco sobre seu negócio, sobre como você começou na Domini e porque decidiu vender bolsas depois. Você trabalhava num banco, não é isso? Porque você tomou essa decisão?

Na verdade é porque eu estava namorando com minha hoje ex-mulher, e recebi a notícia de que ela estava grávida. Essa é uma parte. Eu pensei "puxa vida, eu vou, me preparo, faço alguma coisa pra ganhar melhor". Eu ganhava bem, não ganhava mal. Mas eu queria uma coisa diferenciada, mais sólida pra o futuro dela. E, por coincidência, minha amiga vietnamita, que eu ajudei bastante, tinha uma fabriqueta, ela fabricava e vendia bolsas para a 25 de março. No ano de 1986 – ano do Sarney, né? – o Plano Cruzado quebrou muita gente. Ela também quebrou. Ela empurrou pra mim umas coisas, uma parte, me disse “melhor entregar o que tem aí pra você, senão amanhã não tem mais nada”. E me forçou a entrar nisso. No começo eu pensei “puxa vida, e se eu perder dinheiro?” Porque o que ela me deu era metade do que me devia. Eu pensei “se eu vender pra 25 de março de novo, eu perco mais dinheiro”. Decidi vender no bairro mesmo, pra ganhar mais um pouquinho. Em 15 dias eu vendi, além de não perder dinheiro eu ganhei dinheiro. Puxa vida, agora virei empresa. Não tinha mais chefia.

Daí você fez uma sandália, uma sandália com um aspecto cultural, do meio ambiente. E ela manda uma mensagem. Isso é muito raro hoje em dia, você usar o produto pra transmitir uma mensagem. Você poderia falar um pouco sobre essa ideia, de onde surgiu, por que você acreditou tanto naquela sandália, naquele elemento cultural?

Porque, por coincidência, antes de ter esse projeto, que eu mandei pra essa sandália de pneu, eu já tinha vendido muito pra Avon. Cheguei a vender 6,7 milhões de unidades por ano. Eu vendia tanto produto que chegou um momento que eu senti vazio. Mas aí eu pensei em aproveitar aquele canal da Avon. Já que as pessoas permitiam que eu entrassem em suas casas, por que não levar uma coisa mais adorável, de valor agregado, mais útil para as pessoas? Não simplesmente um calçado, não simplesmente uma bolsa. Eu acredito que criar uma mensagem, um conceito, é mais importante, porque o produto acaba démodé, em desuso. O importante é deixar um pedacinho do conceito, da proposta do significado, que eu acho que tá faltando muito. Cada vez mais a gente no consumismo pensa e olha pro tangível, não olha pro intangível. Porque o intangível não traz status. Só que o intangível é mais útil pra você, como ser humano. Para mim, o produto é um meio, tem uma mensagem final.

Existem outros produtos na Góoc como a sandália, que trazem um significado pensado por você?

Primeiro com essa sandália, porque essa sandália nasceu na guerra do Vietnã, pra mim é um símbolo da resistência, de pouco recurso e muito resultado. Eu penso assim, quando o pessoal fala Góoc, pensa em reciclado, sustentabilidade. Mas antes de de salvar o mundo, a Góoc quer salvar você da mediocridade. Ela tem dimensões. A primeira dimensão da Góoc pensa na raiz. A raiz é o eixo, o core, a raiz é você mesmo. Antes de salvar o mundo, você tem que ser forte o suficiente pra aguentar os trancos e barrancos da vida. Aguentar os desafios da vida. Esse é o primeiro conceito, primeira dimensão e raiz da Góoc. Segunda dimensão: sobreviver vai ser em função de propagar o que é bom da outra geração, o que você recebeu da sua família, do seu pai, sua mãe, de sua região, de sua cultura, seu país. Repasse isso para frente. Você vai morrer, mas aquilo não precisa morrer, você passa para outra pessoa, que passa para outra. A segunda força é manter isso cultural. Porque por exemplo, eu cheguei ao Brasil 35 anos atrás e vi um Brasil muito mais comunitário, menos individualista, tinha um ritual próprio dele. Pedir a benção, festa junina, algumas tradições culturais que achava muito bonitas. Agora, três décadas depois, eu vejo que isso não parece existir mais. Acho que a função da Góoc é lembrar que você tem o dever de guardar um pedacinho da sua terra. Não só da sua terra, mas da sua família. Cada família tem seu ritual diferente, bons e maus hábitos. Os bons hábitos você passa pra frente, essa é a segunda função. A terceira função faz parte da ecologia, de consumir menos, consumir com consciência.

Você falou sobre resistência, sobre a mensagem da sandália. Você acredita que a capacidade de resistir, de ser resiliente, é algo que você nasce ou você pode criar?

Eu, particularmente, penso que se aprende com isso. No meu caso, eu aprendi com minha irmã mais velha. Ela era muito resistente, tanto fisicamente como mentalmente. Ela exigiu muito de nós também. Porque nós somos a segunda família, meu pai tinha três mulheres, e minha mãe morreu cedo, quando eu tinha seis anos. E isso despertou algo na minha irmã, que tinha 13 anos. Como uma menina de 13 anos conseguiu encabeçar a direção da educação pra todo mundo? Ela sempre falava "Nós não temos mãe, você tem que estudar bastante. a única salvação agora é o estudo". Isso ela falava, eu me lembro muito bem. Eu estudava na escola francesa, ela me mandava decorar, aprender tudo, ela forçava muito. Foi como um treinamento mesmo. Então acho que tem como desenvolver.

Eu sei que você gosta muito de ler. No mundo dos negócios, que livro você considera que mudou sua forma de fazer negócios?

Ah, tem um que nunca esqueci, Meu jeito de fazer negócio, da Anita Roddick, da The Body Shop. Admiro demais. É a pessoa que mais admiro no mundo, mais que Paulo Jorge Lemann, mais que Steve Jobs, qualquer outra pessoa. Ela é a minha referência. Ela é uma pessoa do subúrbio da Inglaterra que tem esse pensamento muito convicto, ela é convicta no que faz. Ela quebra todos os paradigmas da indústria cosmética, e, desculpa, da comunicação também. Ela é uma mulher incrível, muito inspiradora pra mim. Muito bom o livro.

Você também valoriza bastante o marketing. Como você pensou o marketing da Góoc, no período de transição da Yepp, e hoje nessa segunda fase, como você trabalha o marketing, o que você valoriza na estrutura?

Sobre a transição da Yepp para a Góoc. Ficamos com a Yepp menos de um ano e meio. A gente tava com o crescimento em auge, e a mudança me deu muitas dores de cabeça, porque a marca estava bonita, crescendo muito rápido, e para ser Góoc precisava mudar tudo. Mas antes de ter a Yepp eu já tinha estudado bastante – porque eu gosto muito de estudar e ler – sobre como criar uma identidade, como definir um nome, cores principais, logo, embalagem, toda essa hierarquia de criatividade do produto. Realmente é muita consistência, acho tudo isso muito fixante. Então quando fomos mudar, mudamos o nome, e o resto ficou igual. Porque as pessoas já conheciam a identidade da Yepp, e isso ajuda na transição.

Você conheceu bem o regime comunista, você veio para o Brasil e passou por vários ciclos econômicos, você viu a economia mudar tanto lá como aqui, com regimes completamente diferentes. Então você tem bastante experiência. Hoje, você olhando o cenário, que tipo de mensagem você daria para pra um empreendedor que tem medo da crise?

A maioria das pessoas cresce muito mais na crise. Eu nasci em plena crise. De 1986, com inflação do dólar maluca, até 1994, foram oito anos e três moedas. Não é fácil, mas cresce. Em uma palestra de que participei, com outros empresários, vi que todos tinham começado nos anos 80, época de crise. O presidente da Oscar Fashion, de São José dos Campos, o presidente da Chevy, um construtor de shoppings e outro de hotéis, todos começaram o negócio no mesmo tempo. Existe crise, mas se eu falar para meu funcionário quais são as palavras da empresa, diria apenas duas: criatividade e agilidade. Só isso.

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