... Ao Inverno de Kondratieff
07 de outubro de 2005 às 08:13
Por Jorge Nascimento Rodrigues - www.janelanaweb.com
Petróleo “fabrica” Grande Depressão
Preço do barril poderá fechar 2005 com um valor médio anual superior em 20 dólares ao preço médio de 2004. É esperada uma correcção em baixa de quase 1 ponto percentual na taxa de crescimento dos países da OCDE. A continuar a escalada, caminhamos para um Grande Depressão em 2006 ou 2007.b>
A economia mundial está “grávida” de uma Segunda Grande Depressão. Esse tipo de períodos são designados pelos economistas dos ciclos longos de “Inverno de Kondratieff”. O disparo dos preços do barril de petróleo, que poderão chegar aos 100 dólares nos próximos dois anos, poderá ser o rastilho para uma crise financeira sem precedente alimentada pelo nível colossal de dívida mal parada. Em apenas cinco anos, os preços do barril do ouro negro mais do que duplicaram. «Este disparo provavelmente vai desencadear uma profunda e prolongada depressão – historicamente, a Segunda Grande Depressão», afirmou-nos Colin Campbell, fundador e presidente honorário da ASPO-Associação para o Estudo do Pico do Petróleo. Só com uma depressão profunda nos próximos anos, a procura será “moderada” significativamente, «podendo os preços então regressar a um patamar dos 20-30 dólares por barril de crude», acrescenta este especialista mundial.
«Os especuladores e os conflitos políticos não são a causa primeira da alta, mas sim o inexorável esgotamento deste recurso imposto pela Natureza»
Mesmo, assim, não será um regresso ao petróleo barato, pois como sublinha Campbell «chegámos ao final da primeira metade da Era do Petróleo, que foi caracterizada por uma produção crescente; estamos no dealbar da segunda metade, que será claramente marcada por um declínio da produção». «Será uma discontinuidade de uma magnitude sem paralelo», adverte o fundador desta associação internacional que tem chamado à atenção para a razão estrutural da actual «exuberância irracional» dos preços. «Os especuladores e os conflitos políticos não são a causa primeira da alta, mas sim o inexorável esgotamento deste recurso imposto pela Natureza», conclui este irlandês. Essa é a diferença de fundo com os anteriores «choques» petrolíferos dos anos 1970 e 1980.
A chamada de atenção para esta nova situação foi feita, desde há alguns anos, por Ali Samsam Bakthiari, o especialista de Teerão que em Abril do ano passado (2004) prognosticou que estaria para breve a ultrapassagem da barreira psicológica dos 50 dólares por barril – o que viria a ocorrer a 1 de Outubro desse ano. O modelo de simulação do iraniano prevê que «o máximo histórico de produção mundial do crude se situe entre 2006 e 2007».
Anos críticos
«A consciência desse declínio tem-se generalizado a ponto dos bancos mundiais de referência e das próprias multinacionais do petróleo terem começado a chamar a atenção para o problema, como nunca o tinham feito», afirma Rui Rosa, o animador da ASPO em Portugal, director do Centro de Geofísica da Universidade de Évora. Dois artigos de referência do Financial Times (FT) deste mês – a 5 e a 16 de Agosto (2005) – são muito explícitos. No princípio do mês, o FT anunciava que as principais petrolíferas iniciaram campanhas de publicidade sobre o fim da “era do petróleo fácil”. Esta semana (de Agosto, 2005), o jornal britânico referia que bancos internacionais iniciaram «briefings» com os seus principais clientes sobre o tema.
Os anos de 2006 e 2007 são críticos, caso o actual “espigão” dos preços – a forma como a Goldman Sachs baptizou o choque petrolífero em curso – continue a escalada. A média anual de 2005 poderá situar-se nos 60 dólares, representando um aumento de quase 20 dólares em relação ao valor médio do ano passado, o que significará um impacto negativo de quase 1 ponto percentual na taxa de crescimento do PIB dos países da OCDE. A revista norte-americana Forbes alertou em Abril para uma depressão “provável nos próximos 12 a 18 meses” nos Estados Unidos.
Por seu lado, Scott B. MacDonald, editor da KWR International Advisor, de Nova Iorque, refere que, em 2006, a Europa poderá ver esgotada a almofada que tem tido para resistir à alta do crude, em virtude da valorização do euro em relação ao dólar (divisa em que é cotada esta «commodity»). «A Europa poderá ser atingida por uma convergência de más tendências – preços incomportáveis do crude e falhanço nas reformas económicas e sociais», sublinhou este director da Aladdin Capital Management.
Faíscas constantes
Naturalmente que a situação estrutural - oferta declinante face ao disparo da procura, gerado pelo factor China e Índia - é constantemente incendiada por faíscas derivadas de problemas da infra-estrutura da indústria petrolífera, do clima e da geo-política.
MacDonald sublinha que a capacidade global de refinação utilizada está em 95% (nos EUA chega aos 98%), vinte pontos percentuais acima do nível dos anos 1980, e no limite da sustentabilidade: «O que significa que as refinarias actuais estão em total estresse, muitas delas tendo de parar para fazer reparações. Desde 20 de Julho já houve 14 paragens». Os furacões do Golfo do México também não têm ajudado o complexo petrolífero norte-americano e mexicano.
A geo-política é, no entanto, o isqueiro mais mediático. O barril é altamente sensível ao que se passa no mundo, em particular nas regiões produtoras/exportadoras de crude, na esmagadora maioria dos sítios com grande instabilidade política e mesmo guerras. «O petróleo é uma ‘commodity’ política. Isso tem sido muito claro nos últimos dois anos. E não se vislumbra que isso se vá alterar», conclui Scott MacDonald.
Quadros
O disparo do preço do barril
(médias anuais e semestrais em valores nominais do petróleo «spot» WTI, em dólares EUA, entre 1998 e 2005)
1998 – 14,41
1999 – 19,24
2000 – 30,29
2001 – 25,08
2002 – 26,05
2003 – 31,00
2004 – 41,43
2004 (1º semestre) – 36,78
2005 (1º semestre) – 51,35
Dados mais recentes
Julho 2004 – 40,82
Julho 2005 – 58,67
Agosto 2005 (1ª quinzena) – 65,60
Fonte: www.tax.state.ak.us
WTI=West Texas Intermediate, crude norte-americano de referência, médias mensais e valores diários
Observatório da Economia Mundial
Nº2 - 1º semestre de 2005
Made by Gurusonline.tv e Janelanaweb.com
Editor: Jorge Nascimento Rodrigues
© Adventus Group
Programação dos artigos:
1. China: Em busca do Barril do ouro negro (A nova geo-estratégia de Beijing) (04/10/2005)
2. China: Sobre a valorização do Yuan em 2005 (05/10/2005)
3. A Primavera do ouro... (06/10/2005)
4. ... E o Inverno de Kondratieff (07/10/2005)
5. A retoma quando vier será coxa («Paper» científico dá balde de água fria) (08/10/2005)

Compartilhe

Mais notícias
Leia mais notícias
Comentários