Bolsa brasileira se profissionaliza e se prepara para se abrir aos investidores estrangeiros

As ações da bovespa estrearam na bolsa em 26 de outubro passado. A empresa vendeu 288,1 milhões de títulos a 23 reais cada, com o que arrecadou 6,63 milhões de reais (3,7 bilhões de dólares), conforme comunicado veiculado no site da CVM em 24 de outubro. O preço ficou na extremidade mais alta da faixa prevista de 20 a 23 reais depois de um aumento de mais de 20% em 23 de outubro em relação a uma faixa prévia de 15,50 e de 18,50 reais para atender à demanda. Com a venda, o valor de mercado da empresa agora é de 16,2 bilhões de reais (9,176 bilhões de dólares), o que faz da Bovespa a quinta maior bolsa de valores num ranking de 23 no mundo todo.

Hugo Macías Cardona, diretor do Centro de Pesquisas CIECA da Universidade de Medellín, na Colômbia, diz que “embora no mercado mundial o dinheiro arrecadado pelas novas ações possa parecer previsível, no contexto latino-americano é uma operação sem precedentes, num claro sinal de confiança do capital financeiro na operação, em particular, e na gestão da bolsa de valores em geral”. E acrescenta: “Não devemos nos esquecer de que o Brasil quis ser uma presença influente para os países da região, e essa nova fortaleza lhe permitirá atrair capitais de maneira semelhante ao que faz o dólar, que atrai o capital mundial para os EUA.”

Tendência de alta no mercado
A oferta da Bovespa recebeu um impulso extremamente importante do mercado de valores brasileiro, que subiu mais de 40% este ano — uma valorização muito superior à dos principais índices mundiais. O índice Dow Jones e o S&P 500, de Nova York, subiram 9% e 6%, respectivamente, desde janeiro. O euro Stoxx 50 subiu 7% no atual exercício; o Dax Xetra alemão, 19%, e o FTSE de Londres, 9%. Apesar do bom desempenho, os especialistas acreditam que a valorização da bolsa brasileira entrará em fase de desaceleração.

“É evidente que a bolsa se encontra em uma fase de expansão que, via de regra, não se estende por muitos meses”, disse Macías, reconhecendo ao mesmo tempo que “o enorme tamanho desse mercado comparado a outros da América Latina o torna menos sensível às mudanças de contexto. A Bolsa de Valores da Colômbia, por exemplo, é muito mais vulnerável às transações de um número pequeno de agentes”. Luis Eduardo Franco Ceballos, engenheiro de finanças e analista de mercados sul-americanos do Grupo Bancolombia, também acha possível um retrocesso na tendência de alta da bolsa brasileira “devido ao risco sistemático, ou de mercado, sobretudo no que se refere à economia dos EUA, além da participação de novos agentes em seu mercado de valores de características a um só tempo global e local, e que recentemente passaram a comercializar ações de empresas argentinas”.
Portanto, até que o ritmo de valorização da bolsa brasileira arrefeça, especialistas e analistas acreditam que há uma grande quantidade de empresários no país que estão se beneficiando desse momento favorável investindo mais, e que vão querer usar os mercados de capital como fonte de financiamento de seus projetos. O mercado de São Paulo já teve 56 aberturas de capital este ano, o terceiro maior volume depois da China e da Coréia do Sul, aumentando com isso o valor total das empresas com ações no mercado em 1,28 bilhão de dólares, o que corresponde a cinco vezes o volume de ações cotadas desde 2000. O número de aberturas de capital no ano que vem poderá exceder o recorde deste ano, já que o crescimento econômico contínuo e a atribuição do grau de investimento ao país “farão com que o Brasil chegue ao topo da lista de preferência dos investidores mundiais”, informou à agência de notícias Bloomberg a Jose Olympio Pereira, chefe de bancos de investimentos do Credit Suisse no Brasil.

A abertura de capital da Bovespa foi liderada pelo Banco de Investimentos Credit Suisse e pelo Goldman Sachs. O banco UBS Pactual foi o coordenador internacional. Participaram também os grupos Itaú, Deutsche Bank, HSBC, Bradesco, Santander e Banco do Brasil. A abertura de capital e a oferta de ações foram aprovadas em agosto passado, quando então a Bovespa passou a empresa comercial e deixou de ser instituição sem fins lucrativos. Até à abertura do capital, os principais acionistas individuais da Bovespa holding, com cerca de 5,5% cada um, eram o grupo financeiro brasileiro Itaú e o Santander Banespa, filial do grupo espanhol Santander.

Importância regional
A Bolsa de São Paulo é o único mercado de negociação de ações no Brasil e é o principal mercado da América Latina. Concentra cerca de 70% do volume de negócios em bolsa de toda a região e negocia mais de 2,2 bilhões de dólares, em média, em seus pregões diários. O valor de mercado das empresas inscritas na Bovespa supera os dois bilhões de reais (o equivalente a mais de um bilhão de dólares).

“Sem dúvida, o mercado de valores brasileiro é o mais importante da região por seu tamanho, por sua modernidade e pela valorização obtida até o momento”, observa Fabián Hernando Ramírez, chefe do programa de Engenharia Financeira da Universidade de Medellín, na Colômbia. Acreditamos, disse ele, “que além desses aspectos, a bolsa será firme referência na América Latina paralelamente a um marco institucional estável, ao grau de investimento concedido à economia brasileira, à transparência, à entrada de novas empresas no mercado e à integração dos sistemas operacionais”.

A Bovespa é a primeira bolsa latino-americana que segue a tendência mundial de abertura aos investidores. A Bolsa de Nova York e o grupo Bolsas e Mercados Espanhóis (BEM) se encontram entre as nove empresas do setor que venderam suas ações ao público nos últimos três anos. As aberturas de capital proporcionaram um aumento das absorções, na medida em que essas entidades disputam a oferta de negociação de valores dia e noite. A abertura também permitirá ao gestor do mercado brasileiro seguir a tendência de consolidação no setor.

A primeira operação do tipo feita no mundo foi protagonizada pela Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), principal bolsa do mundo, e que anunciou em junho do ano passado sua fusão com a européia Euronext, que reúne as bolsas de Amsterdã, Bruxelas, Lisboa e Paris, além do mercado de derivados londrino. Juntas elas formaram uma empresa de 20 bilhões de dólares com bons resultados até aqui. No segundo trimestre de 2007, o lucro líquido foi de 161 milhões de dólares, ou 164% a mais do que a NYSE obteve sozinha no mesmo período do ano passado.

No entanto, esse foi apenas o princípio das operações do setor. A bolsa eletrônica Nasdaq anunciou em maio a aquisição da OMX, operadora da bolsa nórdica. Em agosto, a Chicago Mercantile Exchange (CME) e a Chicago Board of Trade (CBOT, Junta Comercial de Chicago) concretizaram uma fusão estimada em 12 bilhões de dólares, tornando-se, possivelmente, o maior mercado de derivativos do mundo. De igual modo, há rumores persistentes de que a Nymex, a bolsa mercantil de Nova York, negocia a fusão nos EUA e na Europa.

Objetivo da compra? 
Manuel Romera, diretor do setor financeiro da escola de negócios espanhola Instituto de Empresa, acredita que “o primeiro passo que a Bovespa deve dar consiste na consolidação do seu processo de privatização. Depois disso, não há dúvida de que alguma empresa estrangeira do setor se interessará por ela”, uma vez que se trata do principal mercado da América Latina. Fabíán Hernando também acredita que, primeiramente, “é preciso fortalecer o mercado de valores nacional para, em seguida, buscar alianças e integração de plataformas de negociação”.

Para Hugo Macías, além das operações corporativas, é preciso observar o papel que terá o mercado brasileiro como referência para os investidores mundiais do que se passa nas bolsas sul-americanas. “A Bolsa de valores de São Paulo está se fortalecendo e, ao mesmo tempo, concentrando a propriedade das indústrias mais rentáveis do planeta. As transações do capital financeiro já há muito anos superam o montante das transações realizadas diariamente no mercado ‘real’ de todo o mundo, uma vez que é cada vez maior a concentração dos centros financeiros que emitem sinais por meio dos quais ‘direcionam’ a utilização da poupança mundial. A Bolsa está se convertendo nisso, isto é, em um importante referencial que guiará os destinos do capital financeiro que entrar na região. Será também, ao mesmo tempo, aquela que dará o sinal quando chegar a hora de o capital partir para outras latitudes, explica Macías, da Red Ecolatín.

Mal a Bovespa abriu o capital e já pôde perceber a movimentação de um dos grandes operadores mundiais do setor tomando posição em relação à suas ações. Trata-se nada mais, nada menos, do que a NYSE Euronext, que adquiriu uma participação de 1% em sua contraparte brasileira. Fontes próximas à operação informaram à agência de notícias Reuters que a empresa americana e européia havia investido 90 milhões de dólares na operação, o que corresponde mais ou menos a 1% dos títulos da Bovespa. Os analistas acreditam que a compra reflete o desejo da instituição estrangeira de ampliar sua presença nos maiores mercados financeiros da América Latina.

Contudo, o interesse pelo Brasil não ficou por aí. O Grupo CME, a maior bolsa de futuros do mundo, fechou em 23 de outubro a compra de 10% da Bolsa de Mercadorias e de Futuros do Brasil (BM&F) por 1,3 bilhão de reais. O CME, com sede em Chicago, pagou pela participação cerca de 42 vezes os lucros previstos para a BM&F em 2009, segundo informações de Diego Perfumo, ex-assessor do CME e hoje funcionário das Equity Research Desk, de Greenwich, no estado americano de Connecticut. Os especialistas crêem que o ágio elevado pago pela BM&F na operação beneficiou a Bovespa em sua estréia na bolsa. A BM&F é o maior mercado de derivados da América Latina, e já anunciou que também pretende abrir o capital.

Objetivos e desafios
Além das possíveis movimentações das empresas, os desafios para a bolsa brasileira a curto e a médio prazos continuarão sendo, de acordo com Manuel Romera, “atrair o capital estrangeiro e se profissionalizar”. Para o professor do Instituto de Empresa, uma das medidas para que os investidores da Europa e dos EUA sintam-se atraídos pelo mercado de valores brasileiro consiste em “facilitar sua entrada por meio de iniciativas como a redução das comissões nas operações de compra e venda de ações”. Romera acrescenta que outro dos principais objetivos da bolsa brasileira, em particular, e da bolsa latino-americana, em geral, é “gerar uma cultura de mercado”.

Fabián Hernando diz que “o futuro das bolsas latino-americanas se caracterizará por sua liderança perante uma grande diversidade de empresas e de investidores com ampla variedade de necessidades, oferecendo-lhes uma vasta gama de instrumentos bem estruturados para satisfação de suas necessidades financeiras”. De acordo com o professor da Universidade de Medellín, isto se traduzirá em “maior confiança no mercado e, portanto, no aumento dos volumes negociados e em transferências de risco e rentabilidade adequadas, o que potencializará de forma significativa seu desempenho em nível mundial”.



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