O Brasil é um dos países com maior número de empreendedores. No entanto, esse quadro mostra mais uma virtude de pessoas especiais do que do sistema nacional, que em geral, trabalha contra a criação de novos negócios e idéias.
O empreendedor brasileiro é antes de tudo um bravo. Só de imaginar o quanto ele sofreu e quantas barreiras ele superou já dá para propor um monumento nacional à sua figura. E por que não? Já que, pelo que alardeiam os especialistas, os cinco maiores inimigos do empreendedorismo possuem
grandes obras de engenharia construídas para seu regozijo, por que não fazer uma monumental estátua para esse herói?
Até porque a parcela da economia nacional dos chamados patrões de si mesmos cresce a cada ano. Segundo estudo publicado pela London Business School , os micros e pequenos empresários brasileiros passaram de 18 milhões para 23 milhões no período de 1999 a 2003, enquanto a parcela de brasileiros assalariados permaneceu em 18 milhões. Esse sonho de ter seu próprio negócio atrai cada vez mais brasileiros a um universo que abrange 9,5 milhões de empresas, muitas delas informais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE.
E não faltam dificuldades para esse grupo de persistentes. Quem deseja partir para a carreira solo e virar seu próprio patrão não pode esmorecer com o cenário ingrato. De acordo com dados do Serviço de Apoio às Micros e Pequenas Empresas, o Sebrae , 56% delas não completam o terceiro ano de vida.
Para ajudar os empreendedores a sobreviver, a B2B Magazine consultou Fernando Dolabela (criador da Pedagogia Empreendedora e da Oficina do Empreendedor) e Gilberto Rose (consultor de orientação empresarial do Sebrae e administrador de empresas especializado em gestão de micros e pequenas empresas), dois especialistas no assunto para elaborar um roteiro apontando quais os inimigos dos empreendedores.
O governo
O governo, de um modo geral, mata o empreendedorismo com três armas: o assistencialismo, o clientelismo e o centralismo.
A batalha entre o Estado e empreendedores já está presente em nossa história desde que a esquadra de Cabral aportou em terras brasileiras, e deixou como herança um estilo a administração centralizadora em que o império português controlava todas as atividades e nada fugia ao seu controle.
Para ter sua própria empresa, esse inovador enfrenta diversos percalços, já na hora de abrir seu negócio. No Brasil, o processo de abertura demora em média 152 dias, uma eternidade quando compararmos aos dois dias na Austrália e quatro nos Estados Unidos.
E o bolso tem de estar bem preparado, pois há um alto preço por sua autonomia. Ele terá pela frente cerca de 60 tributos, como taxas, impostos e contribuições, e sempre na iminência de ficar na informalidade junto ao governo pela impossibilidade de não pagar algum novo imposto.
E sem pagar esse contingente de impostos fica impossível ele vender para o governo, que geralmente não vê com bons olhos fazer negócios com a pequena empresa.
E adquirir crédito junto ao governo é outra dificuldade, levando em conta que o próprio governo compete com a iniciativa privada, e não há dinheiro disponível para empreendimentos de risco.
As condições para obter linhas de crédito são complexas e cada vez mais favorecem os grandes grupos que não precisam da verba. E, para fechar uma empresa no Brasil, o processo é mais lento, em que se gasta dez anos para a quitação de toda a burocracia de encerramento de um negócio.
Escola
Uma educação que prepare empreendedores precisa estar dissociada a diversos mitos que desencorajam o indivíduo. Isso tem início na infância, já que a criança é uma empreendedora natural e vai perdendo essa essência à medida que tem contato com a sociedade que vai aos poucos anulando seus sonhos.
E a educação tem papel fundamental estimulando o indivíduo a criar e dar à sua criação um caráter empresarial. Nessa etapa, os educadores têm como tarefa incentivar seus alunos a duas perguntas fundamentais: Qual é seu sonho? e O que fazer para transformar um sonho em realidade?. A idéia não é pura utopia.
Em Belo Horizonte, adolescentes que tiveram contato com a chamada pedagogia empreendedora criaram a empresa Tá limpo, que vende produtos de limpeza, sabão em barra, organizados em forma de cooperativa. É o caminho de quem deseja ser seu próprio patrão, que se baseia em começar sua carreira profissional numa pequena empresa.
Família
A falta de incentivo ao empreendedor já começa do berço. Por acaso algum pai diz a seu filho que o ideal de carreira é ter seu próprio negócio? Dificilmente. O mais certo é que ele faça de tudo para que o filho seja funcionário público ou empregado de uma grande empresa.
Ele quer mais é criar um empregado servil. Empreendedor jamais. É o fantasma do paternalismo, que está presente em nove entre dez famílias brasileiras e acompanham o cidadão até idades mais adultas. Esse comportamento vai na direção contrária da ânsia empreendedora, que deseja criar o que não existe.
A empresa
A grande empresa costuma ser uma arapuca para o empreendedor. Na maioria dos casos, ela restringe e até poda completamente os sonhos dos empreendedores ao não criar um clima propício para o novo e para a inovação.
Isso ocorre porque as grandes companhias ainda não abandonaram o taylorismo, que rejeita qualquer contribuição inteligente por parte do trabalhador, tornando este um simples escutador de ordens e fazedor de funções.
O empreendedor que se submete a isso é passível de ser substituído por uma máquina, um computador ou um software a qualquer hora. Empreendedores não duram em empresas assim.
E o pior é que muita empresa menor, que poderia dar mais liberdade de criação, cai nessa besteira ceifadora de idéias. Mas é fácil reconhecer uma empresa assim.
Até porque o perfil que mais consegue destaque é o profissional especializado, aquele que diz que entende de tudo, mas não explica nada, protege seu parco conhecimento para evitar que alguém saiba a mesma coisa.
O empreendedor, ao contrário, usa a troca de idéias para fermentar novas mudanças produtivas. Isso o torna um rebelde para a corporação. Ele só sobrevive em empresas que permitem intercessões no sistema e admitem mudanças na relação de trabalho.
A burocracia e o engessamento das grandes empresas costumam devorar o empreendedor e regurgitar um profissional mediano, que não compromete, mas, também, que não inova.
É comum muita gente questionar a promoção de um profissional mediano em detrimento de um inovador. A resposta é uma só: a empresa é uma devoradora de empreendedores e a inovação não condiz com sua filosofia interna.
O próprio empreendedor
Como se não bastassem tantos obstáculos, o próprio empresário em questão pode ser seu grande aniquilador. Além de lutar contra a resistência que a sociedade tem contra as micros e pequenas empresas, experiências mal-sucedidas ocorrem por falta de visão no empreendimento, pois ser empreendedor é ver o que os outros não vêem.
O problema principal é que ter sua própria empresa ainda é apenas solução para um problema pessoal , seja para sair do desemprego ou não estar mais subordinado a um chefe.
É um erro fatal, pois esse desejo muitas vezes não acompanha uma estratégia bem alinhada. E a frustração é iminente: são reservas pessoais de dinheiro e horas de trabalho desperdiçadas.
E aderir aos modismos é outra cilada para o marinheiro de primeira viagem, pois o produto em alta pode durar apenas um verão e rapidamente cair no esquecimento. Por isso, observar o seu ciclo de vida é essencial para quem deseja evitar uma crise.
A inexperiência em gestão implica naufragar essa embarcação chamada empresa. Administrar, cobrar e delegar tarefas exigem conhecimento, o que mais falta ao empreendedor brasileiro.
Sem a profissionalização, marinheiros de primeira viagem podem ignorar a especialização em seu ramo sem a devida dedicação à atividade escolhida. E todos os passos desse profissional são uma extensão de seu sonho, como analisar as tendências do mercado, ler publicações especializadas, visitar feiras e buscar mais dinamismo ao seu negócio. Ter uma idéia brilhante é apenas o primeiro passo e tornar seu sonho algo rentável é o segredo do sucesso.
As melhores oportunidades
Deixe de lado o complexo de inferioridade. Quem possui um empreendimento de menor porte tem a seu favor a oportunidade de estar na linha de frente na cadeia de relacionamento por oferecer, além do produto, um serviço diferenciado ao cliente.
Com um banco de dados em mãos, o empresário conhece as preferências de seu consumidor - iniciativa já visível no pequeno varejo farmacêutico, que se mostrou mais interessado, na saúde de quem vai ao balcão quando comparados às grandes redes.
E a tarefa não foi das mais fáceis, já que ganhar dinheiro nessa área exigiu criatividade no negócio. E quem prestigia seu cliente obtém sucesso. E, para isso, o principal é com freqüência passar para o outro lado do balcão e ser cliente de si mesmo. Só assim o empreendedor saberá realmente se o seu bolo estará crescendo.