A incerteza da economia global
07 de outubro de 2008 ās 00:07
Por Jorge Alberto da Cunha Moreira - www.administradores.com.br
A definição sobre um final de ano de tranqüilidade ou não para a economia globalizada está nas mãos dos políticos dos Estados Unidos. O mercado financeiro mundial aguarda, ansiosamente, o sucesso do pacote de socorro ao sistema financeiro norte-americano, que prevê ajuda de US$ 850 bilhões para sanar as dívidas dos bancos e tentar arrumar o quintal da maior economia do planeta.
Uma nova versão do pacote, que antes previa uma ajuda de US$ 700 bilhões proposta pelo governo dos EUA, foi aprovada pelo Senado com emendas que reforçam as armas das autoridades norte-americanas para conter a crise com novas garantias para os correntistas de bancos, além de outros benefícios tributários para as famílias de classe média e o setor industrial. Este plano deverá permitir que os bancos recuperem a confiança dos investidores e com isso possam recompor suas reservas que se esvaziaram com a tão falada crise dos subprime, que se arrasta há mais de um ano. Mesmo assim, o plano de ajuda às instituições financeiras não acalmou o mercado e ainda causa preocupação entre os investidores.
Os bancos já vinham pressionando, não é de hoje, o governo e o Congresso norte-americano para sejam revistas as regras contábeis que obrigam a contabilizar os títulos nas suas carteiras de acordo com o valor de mercado, que por sua vez, se desvalorizaram bastante nos últimos meses causando prejuízos às instituições.
Alguns legisladores daquele país estão exigindo mudanças nas normas contábeis responsabilizando-as pelo agravamento da crise entre as instituições financeiras. O assunto já está sendo discutido entre a Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais norte-americano - equivalente à nossa Comissão de Valores Mobiliários (CVM) – e as maiores firmas de auditoria do país PricewaterhouseCoopers (PwC), KPMG, Deloitte & Touche, Ernst & Young e BDO Seidman.
Aqui no Brasil, apesar de estarmos “saudáveis”, no que se refere aos problemas alheios e até por conta da nossa economia fortalecida, empresários, economistas, gestores e, principalmente, investidores aguardam, com ansiedade, boas notícias. Nos últimos dias, o pessimismo no mercado internacional fez com que a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) operasse em queda, tirando as noites de sono de investidores. O dólar comercial disparou, superando a marca de R$ 2, e atingiu uma alta de mais de 30% entre 1º de agosto e o começo de outubro.
As bolsas européias e asiáticas também operaram, nos últimos dias, em baixa na maior parte do tempo, com pequenas oscilações de alta. As sucessivas quedas ocorriam à medida em que o pessimismo do mercado financeiro, juntamente com alguns dados desanimadores nos EUA, reacendiam os temores de recessão naquele país.
Com o novo pacote, alguns analistas afirmam que os problemas internos poderão ser sanados ou diminuídos, otimistamente falando, em seis meses e que, na economia real, deverão durar ainda por cerca de dois anos. A Casa Branca já admitiu que a crise financeira, que abala os mercados internacionais, continuará afetando a economia norte-americana no primeiro trimestre de 2009. O governo dos EUA acredita que ainda levará semanas para que o Departamento do Tesouro comece a comprar os ativos de má qualidade, que vêm sendo chamados de “podres”, da Wall Street.
No Brasil as perguntas não cessam: Nosso país será atingido ou não pela crise econômica mundial? A resposta é simples e positiva. Não seremos atingidos com a mesma proporção que em outras situações de crise já vividas pelo mundo. Os impactos, nas instituições financeiras, por exemplo, serão pequenos porque mais de 90% dos ativos dos bancos nacionais são negociadas aqui dentro. O governo brasileiro vem afirmando que o país está preparado para lidar com a crise que tomou conta do sistema bancário americano. Mesmo assim, não estamos em outro planeta para ficarmos totalmente imunes ao que acontece na economia mundial.
Os efeitos na Bolsa de Valores, por exemplo, que vem demonstrando nervosismo e provocando queda nas ações, são reflexo de um mercado que opera numa economia globalizada. Papéis de empresas que são negociadas no mundo todo por investidores que também têm investimentos nos Estados Unidos e Europa, onde a crise está mais acentuada. Porém, é como um jogo que você aposta e acredita. Se o outro investidor deixa de acreditar ele retira as apostas, o que faz com que haja desvalorização daquelas ações. Outros, vendo o descrédito e, com medo de perder, também retira as apostas, provocando queda ainda maior. É a lógica da incerteza. Segundo especialistas, a Bolsa brasileira está, na realidade, voltando a um patamar de normalidade, depois de alguns meses de euforia.
Outros analistas dizem que os possíveis efeitos do que vem ocorrendo na economia dos EUA só serão sentidos após o segundo semestre de 2009, efetivamente. Alguns setores de exportação, por exemplo, confirmam que os pedidos procedentes principalmente da Ásia estão 20% menores que os números de 2008. Mesmo assim, esses setores afirmam que o que não for vendido lá fora será repassado para o mercado interno, o que não afetará os lucros e as expectativas de crescimento. A valorização cambial, com o dólar ultrapassando os R$ 2, é completamente favorável às exportações. Por outro lado, as empresas brasileiras, confirmam a percepção da escassez de crédito no mercado bancário internacional. Isso porque metade das exportações brasileiras, cerca de US$ 100 bilhões, é financiada por bancos no exterior.
Jorge Alberto da Cunha Moreira é sócio-diretor e CFO da BDO Trevisan.
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