Ter chegado à lideraça mundial em seu segmento é um troféu que raras empresas brasileiras podem exibir. Mas o orgulho da joinvilense Embraco vai além do fato de ser a maior produtora de compressores para refrigeração em todo o planeta. “Poucas líderes mundiais têm um market share de 20% em seus mercados, como nós. A Coca-Cola não tem isso”, compara Ernesto Heinzelmann, o engenheiro mecânico nascido ali mesmo, em Joinville, há 53 anos, e que se revelou o grande condutor da internacionalização da empresa, hoje uma unidade do grupo norte-americano Whirpool – que também controla a Multibrás (marcas Brastemp e Consul). Nesta entrevista, Heinzelmann aborda dois assuntos com autoridade. Um deles é a China, país no qual ele apostou em 1996 – uma decisão que, à época, soou exótica para muitos. Hoje, além da China, a Embraco possui plantas na Itália e na Eslováquia. Outro tema familiar a Heinzelmann é P&D. Afinal, sob seu comando a Embraco deixou de comprar tecnologia européia para desenvolver know-how e se tornar benchmark mundial. Com esses créditos, ele formula o seguinte cenário para as empresas brasileiras.
A China cresce em ritmo veloz há duas décadas. Mas a pressão de outros países para que os chineses se enquadrem em alguns padrões sociais e ambientais não ameaça a continuidade deste crescimento?
O crescimento chinês é sustentável. Há apenas duas incógnitas, a social e a ambiental. Do ponto de vista do sistema financeiro, por exemplo, não há risco. Até porque o sistema financeiro lá é totalmente diferente do nosso. Eles não exigem que o sistema financeiro seja eficiente – apenas que propicie injeção de recursos na economia e faça a economia crescer. Isso, para eles já é suficiente. É bem diferente do que vemos aqui, onde os bancos praticam juros elevadíssimos.
Depender de um fluxo constante de investimentos estrangeiros não é um risco?
Não. Como são muitos os investimentos estrangeiros na China, pode-se dizer que existem mais e mais correntes absolutamente interessadas em que o país continue indo muito bem. A China já tem reservas superiores a US$ 1 trilhão, que por sua vez estão investidos fora do país. Isso reforça minha convicção de que todos têm interesse em que não haja nenhum mal-estar por lá. O mundo todo conspira para que a China vá bem.
Mas a afirmação chinesa também desperta temores e reações.
Se hoje achamos que a China é uma ameaça industrial, a realidade é que daqui para a frente a vida será mais e mais difícil. Basta que algumas projeções se concretizem. Hoje, a China detém 7% do movimento industrial no mundo – da manufatura, digamos assim. E se prevê que em 40 anos esse índice deva chegar a 20%. Isso nos dá uma idéia de como o fluxo de mercadorias vai ser diferente no mundo, de agora em diante: a China, absorvendo mais e mais matéria-prima e bens básicos e sendo um grande centro de manufaturas e de exportação de produtos acabados.
Entre aquelas duas incógnitas, social e ambiental, qual é a mais grave?
A questão social é um problema, mas a China vem dando exemplos históricos de que consegue administrar isso de um jeito ou de outro, com o modelo de administração centralizada. Eu diria, portanto, que a questão ambiental é mais crítica. Tem o problema da água, que hoje já preocupa muito as autoridades chinesas. É um bem cada vez mais escasso. E existe muito desperdício. E há também a questão da energia, que lá é gerada, basicamente, com a queima de carvão, um processo altamente poluidor. Hoje, estão sendo construídas mais de 50 usinas termelétricas à base de carvão. Esse é um grande desafio para os chineses.
E eles estão dispostos a enfrentá-lo, de fato?
Quando eu vou à China, tenho visto que essa é uma discussão viva. As autoridades dizem, abertamente, que o modelo energético na China deve ser totalmente revisto. A industrialização rápida trouxe muitas indústrias altamente ineficientes, em termos de consumo de energia. E o governo começa a pressionar fortemente para que isso seja modificado. A China tem 4% a 5% do PIB mundial, mas consome 15% da energia. Existe um desperdício muito grande. As novas empresas que chegam à China, tanto as nacionais como as internacionais, estão se instalando com outro padrão de responsabilidade social e ambiental. O modelo não está piorando – está melhorando.
O que o Brasil tem a aprender com a China?
Na realidade, os desafios que a China apresenta para o Brasil e para outros países são similares. Tanto é assim que o grande impacto que a indústria da China exerce sobre as empresas brasileiras, hoje, não é em função de produtos chineses entrando aqui – com exceção de alguns segmentos, claro. O que mais perdemos para eles é mercado em terceiros países. Os países para os quais o Brasil exportava um volume significativo de manufaturados estão sendo ocupados pela China, que hoje, aliás, vende mais para os países da América Latina do que o Brasil. Então, esses países, por sua vez, também estão recebendo produtos chineses. Suas indústrias também estão sofrendo.
E que lições vêm da China?
Em primeiro lugar, o planejamento de longo prazo. É óbvio que nós podemos discutir o modelo político centralizado deles. Lá, decisões são impostas com uma firmeza que uma democracia não permite. Mas vamos ao resultado. Eles têm um planejamento de longo prazo, muito bem pensado e muito bem feito. É um plano de ação disseminado para o país. Um plano que todos respeitam e que é implementado com muita rapidez. Velocidade na China, aliás, é algo impressionante. Apesar de você ter a impressão de que as coisas não caminham, quando você vê... aquilo que foi discutido há um tempo atrás já está começando a ser concretizado, e com muita velocidade. Outro ponto forte que a China tem é uma poupança interna enorme, que dá a eles uma capacidade de investimento absurda.
O que mais impressiona nesses investimentos?
O que se vê de investimento rodoviário, portuário, de telecomunicações, aeroviário, é uma coisa extraordinária. Hoje, são 18 empresas aéreas que atuam na China, 42 aeroportos sendo construídos. E aeroportos absolutamente modernos para os próximos 20 anos. As rodovias se comparam às melhores da Europa e dos Estados Unidos, portos modernos... Existe um avanço claro, visível a olho nu. Outra questão absolutamente fundamental, e que parece agora despertar curiosidade no Brasil, é a educação. Eles têm investido muito em educação fundamental e educação avançada. A Universidade de Pequim já é considerada uma das 20 melhores do mundo. As pessoas que hoje estão deixando o mercado de trabalho por aposentadoria têm, em média, seis anos de escolaridade. Já as pessoas que estão entrando agora no mercado têm em média 11 anos de estudo formal. Em pouco tempo, portanto, a China reverteu uma situação de atraso educacional e produziu uma massa crítica de pessoas bem informadas.
Seria esse o grande trunfo dos chineses?
Há outros fatores, como o custo de capital, que é muito baixo. Mas um grande diferencial do país é, sem dúvida, o investimento que eles têm feito em educação. Fica a visão de que a China é um país que está interessado no seu futuro. Os gestores dos órgãos públicos e das estatais, por exemplo, são incentivados a fazer MBA em administração. E esse “incentivados” tem, para os chineses, um significado diferente do que tem para nós... Então, você vê o cuidado deles para desenvolver qualidade e eficiência na administração pública.