Alambiques investem em qualidade sem perder tradição

Investimentos em melhorias tecnológicas e gerenciamento estão equiparando as cachaças de alambiques gaúchos aos melhores destilados produzidos no Brasil e no exterior. Graças a um projeto lançado em 2003 e coordenado pelo Sebrae, os mercados nacional e internacional estão descobrindo que as bebidas com o selo Alambiques Gaúchos são sinônimos de qualidade e tradição.

Herdeiro de uma família alemã que destila cachaça desde 1848, Evandro Luiz Weber exibe orgulhoso um alambique reluzente em aço e cobre, onde o cheiro doce é um convite para conhecer a técnica secular da destilação. Só nos últimos três anos, sua destilaria, a Weber Haus, em Ivoti (RS), investiu R$ 600 mil para melhorar a qualidade dos 120 mil litros anuais de cachaça ali preparados com bebidas envelhecidas em barris de carvalho. Em 2007, a produção deve crescer 15%.

Haus explica que o diferencial dos alambiques em relação às grandes usinas está em aproveitar apenas a parcela mais nobre do líquido que passa pelo destilador batizada de ‘coração’. Com técnica apropriada, são separadas a ‘cabeça’ e a ‘cauda’ (vinhoto) durante o processo de destilagem. Assim, o produto ganha em qualidade e fica livre de impurezas que provocam a ressaca do dia seguinte.

Um alambique de grande porte produz até 300 mil litros/ano de cachaça, enquanto uma usina pode despejar no mercado até um milhão de litros/dia. “O Brasil consome muita cachaça de baixa qualidade. O consumidor precisa descobrir a diferença entre a bebida de alambique e a industrial”, destaca o gestor estadual dos Projetos de Cana-de-Açúcar e Derivados do Sebrae no Rio Grande do Sul, Carlos Fernando Andrade.

Canavial Orgânico

Além de maior controle em todas as etapas da produção, a empresa familiar implementou um sistema inédito para controlar automaticamente a temperatura da fermentação, que ocorre em tanques de aço e com leveduras importadas. O canavial de 23 hectares é orgânico, sem nenhum agrotóxico. A colheita é manual e a cana é processada logo após o corte. As cachaças brancas permanecem pelo menos oito meses em reservatórios de aço inoxidável. Já as envelhecidas descansam ao menos um ano em barris de carvalho, quando adquirem tons do marrom-claro ao dourado, assim como todos os bons destilados do mundo.

Com a melhoria da qualidade, a Weber Haus quer elevar a exportação de cachaça, hoje em 5% da produção. As vendas já chegam à Itália e, em breve, também ao Canadá e à China. A meta é de que 50% da produção sejam exportados até 2008, quando a empresa completa 60 anos. O alambique, de tão bonito, recebe turistas brasileiros, argentinos, alemães e de outros países. Todas essas melhorias, proporcionadas pelo Sebrae e parceiros como a Associação dos Produtores de Cana-de-Açúcar do Rio Grande do Sul (Aprodecana) e a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul, estão chegando a quase 20 alambiques gaúchos.

A iniciativa faz parte do Programa Brasileiro de Avaliação da Conformidade da Cachaça, baseado em regras do Ministério da Agricultura e do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). Os investimentos somam R$ 15 milhões. O Sebrae apóia melhorias na produção da cachaça em 14 estados, e a certificação do produto no Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia.

De acordo com o presidente da Aprodecana, Marcello Borsato, a idéia é estimular a concorrência e a melhoria contínua da bebida, ampliando o consumo interno e as vendas externas. “O que estamos buscando é a valorização das cachaças brasileiras em geral. O importante é agregar valor a um produto tipicamente brasileiro”, disse o produtor, há 30 anos na atividade.

Bebida saudável

Com experiência de 19 anos no ramo de destilados, o sócio-majoritário da Casa Bucco, em Bento Gonçalves (RS), Moacir Menegotto, se diz um “viciado em detalhes” e explica que uma boa cachaça não deve agradar apenas o paladar. “A bebida tem que ser saudável por completo, não deixando dores de cabeça no dia seguinte”, explicou.

Segundo ele, isso só é possível com ingredientes apropriados, fermentação correta e paciente envelhecimento de dois anos em barris de carvalho e bálsamo. A empresa produz cerca de 30 mil litros/ano de cachaça branca, envelhecida e grappa com matéria-prima obtida em canaviais próprios e também de agricultores vizinhos. Tudo produzido sem venenos. Graças ao solo e ao clima quente e úmido às margens do imponente rio das Antas, a cana floresce bem desde 1875, quando chegaram os primeiros colonos italianos.

A casa recebe cerca de 300 turistas por mês para conhecer a destilagem e o pomar, percorrer trilhas na mata e até fazer rappel. “O Sebrae foi determinante para recuperar as boas práticas da produção de cachaça na região”, disse o enólogo e barman nas horas vagas.

Informalidade

O Rio Grande do Sul tem cerca de 3,5 mil alambiques que destilam mais de dez milhões de litros de cachaça por ano. A maioria da produção, cerca de 80%, é feita de modo informal, inclusive em perigosos equipamentos de ferro. A destilação acontece nas regiões Central, Noroeste Colonial, Metropolitana/Litoral, Médio e Alto Uruguai , Vale do Taquari e Serra. Faltam políticas públicas para padronização e fiscalização.

“Ao mesmo tempo, muitas famílias se sustentam com alambiques informais que acabam manchando a imagem de todo o setor”, explicou Andrade, do Sebrae.

Por ano, o Brasil produz 1,5 bilhões de litros de cachaça, bebida destilada mais consumida no País e a terceira mais apreciada no mundo. Anualmente, são exportados 20 milhões de litros (1,2% da produção nacional) para 70 países. Mas, quase toda a cachaça vem de usinas e não é consumida pura, acaba nos copos de caipirinha. A bebida cuja cadeia produtiva gera 800 mil empregos é produzida por cinco mil marcas registradas no Ministério da Agricultura.

A hora da virada

Com tamanho empenho de produtores e entidades parceiras, pelo menos cinco alambiques gaúchos estarão certificados até o fim deste ano. Com isso, a qualidade da cachaça tornará compatível com a do rum cubano e da tequila mexicana, por exemplo. Hoje, só existe uma empresa certificada, em Pernambuco. “Os gaúchos estão adiantados”, avalia Anibal Sales Bastos, coordenador nacional da Carteira de Projetos de Cachaça do Sebrae.

Uma das maiores barreiras é superar um velho preconceito com o destilado de cana, antigamente associado a bebidas de má qualidade. Para enfrentar esse desafio, foi lançado em 2006 um blend (mistura) com o selo Alambiques Gaúchos que está chegando às feiras de todo o País.

Deste ano em diante, Sebrae e entidades parceiras continuarão investindo nas melhorias do setor. Outra meta é reduzir a carga tributária sobre as cachaças de alambiques, até três vezes maiores que o imposto incidente sobre a bebida produzida em usinas. Além de ótima oportunidade de negócios, a produção de cachaça artesanal em alambiques ajuda a criar empregos e a desenvolver regiões rurais com novas economias. Mostra ainda novas oportunidades para o agronegócio nacional, muito focado nas monoculturas. A cachaça de alambique é a cara do Brasil.




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