As duas faces do vínculo emocional na empresa familiar

Inma Puig, colaboradora acadêmica do departamento de Administração de Recursos Humanos da escola de negócios ESADE, da Espanha, analisa em seu livro, Retratos de família, a empresa familiar do ponto de vista das emoções, dos sentimentos e de suas inter-relações. Para isso, a autora recorre a dez histórias reais. Inma Puig, em entrevista concedida ao Universia-Knowledge@Wharton, fala das vantagens e dos inconvenientes de se estar na linha sucessória de uma empresa familiar.

Universia-Knowledge@Wharton: Que vantagens têm uma empresa familiar em comparação com outro tipo de organização?

Inma Puig: Na verdade, não podemos falar em termos absolutos das vantagens da empresa familiar em relação às que não são, porque muitas vezes o que pode ser considerado vantajoso, isto é, vínculos emocionais intensos ou a possibilidade de acesso a um posto de trabalho por causa de ligações familiares, com o tempo, pode se converter em inconvenientes.

UK@W: Por quê?

I.P.: Porque nas empresas familiares, as emoções e os sentimentos estão muito presentes, tanto para o bem quanto para o mal.

As emoções podem atuar como um ativo quando se traduzem em motivação, mas podem agir como freio quando se convertem em disputas ou desavenças. Se discutir com o chefe ou com um colega de trabalho constitui uma situação indesejada, imagine o que acontece quando seu chefe é seu pai ou seu companheiro de trabalho, seu irmão.

UK@W: Como cada elemento da família vê a empresa?

I.P.: A empresa familiar tem várias faces. Todas elas aparecem representadas nos rostos e nas pessoas que nela trabalham ou vivem nela. A empresa familiar tem um aspecto quando vista pelo ângulo do seu fundador; tem outro quando o interlocutor em questão é o marido ou a mulher do fundador ou fundadora; outro ainda se a interação se dá com os filhos. Em outras palavras, a face da empresa muda conforme o familiar com quem conversamos. Se nos perguntassem qual delas é a verdadeira, diríamos que todas e nenhuma a um só tempo.

UK@W: Como assim?

I.P.: Todas porque cada um explica a realidade ao seu modo, e nenhuma porque o indivíduo quando toma a si mesmo como referência, perde a objetividade. Não há objetividade quando os sentimentos se entrelaçam.

Observar a empresa familiar de uma perspectiva exclusivamente empresarial seria como guiar um carro potente de olhos fechados.

UK@W: Quais são os principais erros que comete um pai na hora de planejar sua sucessão?

I.P.: Normalmente, os pais acertam e se equivocam em um número semelhante de vezes. Acontece que os erros são muito mais dolorosos do que os acertos.

Se há um tema na empresa familiar que costuma ser difícil de lidar é a sucessão. Isto porque, na realidade, falar da sucessão é falar de morte, seja ela biológica, seja profissional. E o tema da morte não agrada a ninguém.

Falar de sucessão é falar também de herança, mas com conotações diferentes. Decidir a sucessão é atribuir um novo posto, um novo cargo, uma nova hierarquia a alguém. Herança significa doar, deleitar-se com bens que são seus.

UK@W: Qual a diferença em suceder e herdar?

I.P.: Suceder alguém é ocupar o posto que o indivíduo ocupava até o momento em que esteve na empresa. Herdar significa tomar posse dos bens que pertenciam a outra pessoa.

Tanto a sucessão quanto a herança têm uma carga simbólica importante. Suceder alguém é o mesmo que reconhecer a existência de valores comuns.

UK@W: Quando se planeja a sucessão, são levadas em conta as características em comum do sucessor e da pessoa a quem ele está sucedendo?

I.P.: Em geral, procura-se um sucessor que seja o mais parecido possível com o sucedido. Se o indivíduo a ser sucedido é pessoa muito prezada e admirada, seu sucessor deve considerar sua eleição uma demonstração de carinho. Não é raro que a sucessão de um personagem relevante, que na verdade é dois em um — pai e empreendedor de sucesso — seja alvo de cobiça. Isto porque ser o sucessor é ser o eleito, o preferido. É isso exatamente o que deseja todo filho em relação a seus pais: ser o preferido entre os irmãos.

UK@W: É concedido algum tipo de facilidade aos filhos para que não se dediquem à empresa da família?

I.P.: Às vezes, não trabalhar na empresa da família pode ser uma saída honrosa para um possível conflito; outras vezes, o fato de não querer trabalhar na empresa da família dá origem ao conflito.

Os filhos cuja família não tem empresa própria têm uma certa inveja daqueles que têm, já que estes não padecem da incerteza no tocante à sua entrada no mundo profissional. É preciso levar em conta o fato de que ocupar um posto de trabalho por motivos familiares, e não por motivos profissionais, não é bom para a auto-estima.

Outra possibilidade é a de que um filho creia que trabalhar na empresa da família não seja a melhor opção para ele, e é bom lembrar que se trata de opção perfeitamente legítima, porém algumas vezes os familiares vivenciam essa opção como se fosse uma espécie de traição à família e à empresa que lhe deram de comer.

UK@W: Podemos considerar os filhos herdeiros pessoas de sorte?

I.P.: Não é absurdo algum pensarmos que os filhos cuja família possui uma empresa sejam duplamente felizes porque, se quiserem, podem trabalhar na empresa com a família. Se, pelo contrário, não quiserem, podem perfeitamente trabalhar em outra companhia. Pode acontecer durante a entrevista para um emprego que, ao mencionar a empresa da família e sua decisão de não trabalhar nela, o entrevistador seja tomado de uma suspeita imediata em relação ao candidato, já que surge a dúvida quanto ao verdadeiro motivo que o teria levado a optar por trabalhar em outro lugar, e não na empresa da família.

UK@W: Qual o papel da mulher na empresa familiar?

I.P.: É tão básico quanto o que tem na família. Não é necessário que ela passe horas e mais horas na empresa para saber o que se passa ali dentro e o que acontece aos que ali trabalham.

UK@W: Qual a sua relevância?

I.P.: É como se fosse uma figura de autoridade de reserva, que aparece quando a ocasião requer. Ela não consta da maior parte dos organogramas das empresas, embora todos saibam de sua importância e do enorme poder que exerce nas sombras.

Ela tampouco costuma estar presente às decisões do dia-a-dia e nem às decisões de maior relevância, mas quando a situação é grave, importante ou decisiva, aparece sem necessidade de ser convidada ou chamada a opinar. Se as coisas se passam como se espera que passem, ela não intervém; contudo, se existe o risco de violar a ordem estabelecida, ela surge para impedir que isso aconteça.

UK@W: Qual o impacto dos problemas da família sobre a empresa por ela dirigida? O que se pode fazer neste caso para que a administração não seja afetada pelos problemas familiares?

I.P.: Como dissemos no início da entrevista, todas as vicissitudes, sejam elas vantajosas ou não, influem tanto na empresa quanto na família e, muitas vezes, muito mais do que possa parecer.

Por isso, na empresa familiar, além da gestão propriamente dita, é preciso que haja também uma gestão dos afetos.

A empresa familiar precisa de um centro de gravidade que lhe garanta sua autonomia. De igual forma, a família que possui uma empresa deve ter também seu centro de gravidade próprio, para que possa coexistir com a empresa.




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