Poucos são os questionamentos de que a piora da crise financeira internacional terá reflexos restritivos à economia brasileira, mesmo diante da maior capacidade atual do país em absorver os choques externos. Podemos citar como mecanismos de defesa a existência de um mercado doméstico mais forte, o que ajuda a evitar quedas bruscas da demanda, e o volume elevado de reservas internacionais, o que fornece importante munição ao BC para segurar a disparada do dólar. Entretanto, mesmo considerando tais barreiras, a diminuição acentuada do crédito global – e também interno – e as perspectivas de recessão nos países centrais não deixam dúvidas de que o Brasil também sentirá os efeitos da crise, que devem se materializar através de um crescimento mais modesto no próximo ano.
Porém, os dados divulgados recentemente ainda não apontam claramente esta tendência, com praticamente todos os segmentos de atividade ainda mostrando o mesmo vigor de antes. A questão está no período da realização dos levantamentos, que apresentam cerca de 1 a 2 meses de defasagem.
A PMC do IBGE, por exemplo, anunciou o resultado das vendas do comércio varejista de agosto, que ainda apontou um forte crescimento de 9,8% ante agosto de 2007 e de 1,1% sobre julho deste ano. Os dados de setembro, que só saem no próximo mês, ainda devem mostrar bom desempenho.
Adicionalmente, o Ministério do Trabalho registrou a abertura de 282 mil empregos com carteira assinada, com expansão de 12,6% sobre o mesmo mês do ano passado; Com isso, os empregos formais gerados em 208 já somam 2,08 milhões, 28% acima do mesmo período de 2007. Ou seja, o mercado de trabalho segue forte – ou melhor, seguia forte até setembro.
Por outro lado, os primeiros dados referentes a outubro já começam a indicar uma reversão neste cenário. Segundo a FENABRAVE, as vendas de veículos na primeira quinzena deste mês tiveram recuo de 7,5% sobre o mesmo período de setembro e de 1,3% ante a 1º quinzena de outubro de 2007. O crescimento das vendas acumuladas no ano segue em desaceleração suave, mas o resultado dos primeiros quinze dias de outubro é preocupante.
Nesta linha, o índice de confiança do consumidor calculado pela Fecomércio-SP teve um pequeno recuo em outubro, para 139 pontos (de 140). Apesar de ainda se encontrar em patamar elevado, deve seguir trajetória de baixa nos próximos meses.
Em suma, a despeito de indicadores passados vigorosos, a conjuntura exposta nos fatos e noticiários pós-agravamento da crise financeira já mostra evidentes alterações no comportamento da atividade econômica no país, com a retração do crédito e a postura mais cautelosa de empresários e consumidores. Os próximos dados – referentes a outubro em diante – certamente irão confirmar esta reversão do cenário.