Banco Central conservador? Vai nessa...
14 de agosto de 2008 às 00:02
O preço dos alimentos vem cedendo e a inflação vem atrás. Não só os índices ao consumir mostram tendência de recuo. O alívio é expressivo a ponto de mexer com os índices gerais. Parece a volta do parafuso: aquilo foi, empurrado pelo preço em ascensão dos alimentos, está voltando, pela mesma razão, com sinal trocado.
Dá para dizer que a tendência para baixo vai se transformar em trajetória segura? Tudo indica que vai ser assim, mas ainda não dá para bancar.
Muito bem. E então o que faz o Banco Central? Promete continuar bombando a taxa de juros porque acredita que as altas já promovidas ainda não afetaram o movimento dos preços.
Dizem que o BC brasileiro, como todos os BCs, é conservador. Que nada, o nosso BC é para lá de arrojado.
No “pai dos burros”, conservador, entre outras acepções, é alguém – ou alguma coisa – caracterizado pela moderação ou prudência. Prudente, no caso da inflação brasileira neste momento, seria esperar que a tendência se apresentasse com mais nitidez, observar a dinâmica do movimento, e agir, com cautela, para controlar o que vem pela frente e não o que ficou para trás.
Ao ameaçar, como fez na ata da última reunião do Copom e reafirmou nas declarações de seus diretores, insistir, com vigor, no aumento os juros, o BC não tem sido nada conservador e nem um pouco cauteloso. Se fosse, diante da tendência atual da variação de preços, no mínimo baixaria um pouco a bola.
O sistema de metas de inflação tem uma parte de culpa na mudança de personalidade do BC. O único “castigo” previsto atinge a diretoria da instituição quando a meta não é cumprida. Não há outras metas, pelo menos explícitas, como, por exemplo, de crescimento.
Se, ao cabo do ano civil, a inflação registrada ficar acima do teto do intervalo definido dois anos antes ((ou abaixo do piso do intervalo, uma hipótese quase teórica), o presidente do BC é obrigado a escrever uma carta aberta ao ministro da Fazenda, com explicações para o furo e promessas de ajuste.
No vocabulário do mercado, essa carta explicativa é entendida como um “pedido de perdão”. Caso a economia vá para o vinagre, por conta do esforço, “doa a quem doer”, para manter a inflação dentro da meta (e se possível no centro da meta), isso não merecerá pedido algum de perdão.
Entende-se que foge à lógica econômica exigir que um único instrumento, como a taxa básica de juros, sirva, ao mesmo tempo, a mais de um objetivo macroeconômico.
Mas que o formato do sistema de metas leva a esse protagonismo indevido do BC, é claro que leva. No fim das contas, o crime de derrubar a economia não tem castigo.
José Paulo Kupfer: Nasceu no Rio de Janeiro em 1948. Jornalista desde 1967, foi repórter, redator, secretário de redação, editor-chefe e diretor em diversas publicações do Rio, São Paulo e Porto Alegre. Começou na revista Fatos & Fotos e trabalhou no Correio da Manhã, O Globo, Exame, Jornal do Brasil, Veja, Istoé, Estado de S. Paulo, Zero Hora, Gazeta Mercantil e Foco-Economia e Negócios. Foi colunista de economia da Gazeta Mercantil, da Zero Hora e, nos últimos quatro anos e meio, da revista eletrônica NoMinimo, onde manteve, de dezembro de 2006 a junho de 2007, o blog Econominimo. Foi também consultor editorial do Jornal do Commercio, do Recife, e Tribuna do Norte, de Natal. É, atualmente, chefe de redação do Departamento de Jornalismo da TV Gazeta e comentarista de economia do “Jornal da Gazeta”. Graduado em economia pela USP, é membro do Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. Radicado em São Paulo, continua torcedor do Fluminense.
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