Bolsa sofre com estrangeiro vendendo rápido e brasileiro comprando devagar

A eufórica fuga dos investidores estrangeiros da bolsa brasileira responde por um papel relevante no momento adverso do mercado neste ano. Nos últimos dois meses, a migração de recursos externos para a renda fixa, orientada pelo aumento da aversão ao risco, explica o fraco desempenho do Ibovespa.

Segundo estudo realizado pelo INI (Instituto Nacional de Investidores), baseado em um período de 42 meses, a partir dos movimentos de compra e venda de ações das categorias de investidores e o resultado mensal do Índice Bovespa, os estrangeiros explicam, ao menos, 72% das tendências do benchmark.

Em ambos os meses de junho e julho, as vendas deste grupo totalizaram R$ 7 bilhões. E o Ibovespa recuou 10,43% e 8,48%, respectivamente. De acordo a Bovespa, no primeiro semestre, o fluxo de recursos dos investidores estrangeiros para o mercado de ações brasileiro ficou negativo em R$ 14,28 bilhões.

Para o INI, a atuação frenética deste player não é completamente compensada pelas posições do investidor institucional e do individual, que dividem a ponta compradora. "Quem segura são os investidores individuais que têm decisões mais de curto prazo, mas o institucional não pode se movimentar como o estrangeiro", interpreta Paulo Portinho, gerente-geral do INI.

Saída

O assunto também foi abordado no podcast da Rio Bravo, publicado recentemente. Para Jorge Augusto Saab, do Rio Bravo Fundamental FIA, seria como se o investidor estrangeiro vendesse rápido e o brasileiro comprasse devagar. "É nessa hora que percebemos a importância da participação do investidor pessoa física", destaca.

Portinho acrescenta que os institucionais têm pouca liberdade de operação, pois representam milhões de investidores focados no longo prazo. Questionado sobre a tendência até o final do ano, o gerente-geral do INI disse que há grande chance de o saldo externo na bolsa terminar 2008 no negativo.

"É grave a sensação dos investidores quanto às perspectivas não só de curto, mas de médio prazo. Há um consenso de mais 12 meses de bastante dificuldade nos mercados internacionais, fruto da queda consistente dos preços de imóveis nos EUA e na Europa e retração do crédito", afirma Paulo Bilyk, co-CEO da Rio Bravo.

Bilyk, no entanto, pondera: "Os mercados estão agindo de forma muito mais pessimista do que os fundamentos pareceriam indicar apropriados". Já Saab identifica sinais de que, no curtíssimo prazo, as vendas de estrangeiros podem estar diminuindo, sugerindo que o "grosso" da fuga já passou.

Institucional e pessoa física

No primeiro semestre, o pessimismo dos estrangeiros também ficou claro em dados divulgados pela Anbid (Associação Nacional dos Bancos de Investimento) a respeito das ofertas públicas na renda variável. Mais uma vez, o apoio dos grupos dos institucionais e pessoas físicas foi importante.

Nos primeiros seis meses de 2007, a fatia ocupada pelo investidor estrangeiro nas distribuições de ações foi de 73,8%. No mesmo período neste ano, encolheu para 54,5%. Diante da turbulência financeira, os fundos de hedge norte-americanos, tradicionais participantes, não engordaram a demanda pelas ofertas.

Em contrapartida, a parcela dos institucionais pulou de 19,6% para 35,1%. "Os institucionais aumentaram a participação porque muitas das empresas que ofertaram eles já têm participação, como a Gerdau", assinala Paulo Portinho. A categoria de pessoa física saltou de 6,6% para 10,4%.


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