Autoconhecimento já deixou de ser clichê e virou necessidade

No livro Insight, a psicóloga Tasha Eurich traz um dado alarmante, cravando que apenas 15% das pessoas são autoconscientes

Fernando Pacheco, Administradores.com,

Quando fui escrever o livro "O Caminho dos Líderes" foi ficando claro que cada CEO ou diretor (a) citava autoconhecimento como um dos pontos fundamentais para ter alcançado o alto posto das organizações. “Uma coisa que estou percebendo na nossa educação é que essa parte de autoconhecimento é muito falha. Um fator fundamental para o sucesso de alguém é se conhecer, saber do seu limite, do seu potencial. Nunca tive essa oportunidade", foi o que disse o professor Carlos Arruda, diretor Executivo de Inovação da Fundação Dom Cabral, quando o entrevistei para o livro.

Com o boom da autoajuda e dos gurus de internet, esses assuntos começam a ser vistos como clichês ou passam a ser marginalizados. A forma como o tema é abordado e a falta de conexão de algumas abordagens com planejamento, foco, entendimentos profissionais e visão de mercado faz com que as pessoas achem tudo isso meio "viajandão". Não me agrada essa forma de ver o assunto, mas não digo que é errado, somente afirmo não é o intuito do que estamos trabalhando nesse artigo. Aqui, vamos focar em linhas voltadas para carreira, mapeamento de mercado, desenvolvimento profissional e ligação com oportunidades profissionais (mesmo que você vá colher resultado para todos os aspectos de sua vida).

Acontece que autoconhecimento é um dos pilares mais importantes para um direcionamento correto de carreira e para o desenvolvimento de competências vitais para o avanço no ambiente corporativo (ou mesmo para empreender).

No livro Insight, a psicóloga Tasha Eurich traz um dado alarmante, cravando que apenas 15% das pessoas são autoconscientes. Em outra mão, uma pesquisa publicada na Harvard Business Review* mostrou que equipes que contam com integrantes em maior grau de autoconhecimento têm melhores resultados em qualidade na tomada de decisão, coordenação e gestão de conflitos (68%, 73% e 65%, respectivamente na comparação com pares sem essa competência).

Quer dizer que existe um gap e uma oportunidade lado a lado? Sim, é nessa direção. O interessante é que o estudo não parou por aí e trouxe pequenas atitudes que líderes, profissionais em geral e até equipes de RH/Desenvolvimento podem utilizar para aprimorar essa competência. Quando falamos de autoconhecimento voltado para a carreira, um dos pilares mais fundamentais é ir além das ferramentas de autoavaliação que acabam tendo afastamento com a realidade vivida em seu ambiente profissional (testes isolados, por exemplo).

Seja qual for o instrumento, exercício ou intervenção que você use, deve capturar e entregar resultados que realmente prevejam algo de valor. No cotidiano de projetos na Penser, utilizamos constantemente um cruzamento de referências internas com externas, comparando a "visão de si" com a de alguém e medimos como as avaliações se relacionam diretamente com os resultados, com aumento do aprendizado e o desempenho no trabalho.

E olha que autoconhecimento é apenas um dos pilares dentro do grande rol da Inteligência Emocional. Um indivíduo com uma boa IE consegue lidar melhor com seus sentimentos, controlar impulsos, evitar ser dominado por situações negativas e, consequentemente, se torna mais produtivo, mais empático, melhora sua liderança e consegue ter mais sucesso no dia a dia – seja no âmbito pessoal ou profissional.

A TalentSmart testou 34 importantes habilidades no local de trabalho e descobriu que a inteligência emocional é o mais forte preditor de desempenho, explicando 58% de sucesso em todos os tipos de atividade. Simples assim. A mesma análise descobriu que 90% dos profissionais com melhores desempenhos também são mais capacitados em inteligência emocional. "Você pode ser um top performer sem inteligência emocional, mas as chances são pequenas", afirmam os autores. Assim, como você já deveria imaginar, naturalmente pessoas com um alto grau de inteligência emocional ganham mais dinheiro - uma média de $29.000 a mais por ano, do que pessoas com um baixo grau de inteligência emocional (mais de 100 mil reais na cotação atual).

Uma outra pesquisa, realizada com estudantes mostrou que, dez anos depois, aqueles jovens que trabalharam e desenvolveram a IE tiveram mais sucesso profissional do que seus colegas que não tinha essa competência (em todas as profissões). Acho que você não precisa ser mais convencido (a) sobre a importância de autoconhecimento e inteligência emocional, certo? Antes de ir embora, deixo para você pequenos exercícios que podem ser úteis em seu processo de autoconsciência e ampliação de IE. Espero que seja útil.

- Pratique os três “porquês” do autoconhecimento (pergunte três vezes por que numa determinada situação, até chegar em alguma raiz).
- Mantenha um diário profissional de IE (o que viveu, como se sentiu, como reagiu, como afetava sua performance profissional).
- Procure ajuda profissional (coaches capacitados, empresas de consultoria de carreira ou mentores de alto impacto).
- Expanda seu vocabulário emocional (entre o triste e o feliz existem muitas sensações experimentadas).
- Observe sua reação e reflexão (analise seu tempo de resposta)
- Seja responsável perante suas falhas
- Observe sua linguagem corporal
- Faça uma matriz Swot individual (de competências técnicas e comportamentais)
- Solicite feedback construtivo regularmente (Janela de Johari, Feedback interno e externo - coaching)
- Registre sobre suas crenças e valores (prometo que isso será importante um dia numa tomada de decisão de carreira)
- Organize e estabeleça prioridades de carreira

Fernando Pacheco é diretor de carreira da Penser