Como lidar com a demissão: autora relata jornada e desafios

A demissão, embora frustrante, pode ser vista como uma oportunidade

Eber Freitas, Administradores.com,
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Em qualquer época ou contexto, a demissão é uma experiência traumática. Geralmente associada ao fracasso profissional, perda e rejeição, é uma fase que muitos gostariam de evitar. No entanto, diante de um mercado de trabalho cada vez mais volátil e incerto, os profissionais precisam aprender a ressignificar a própria demissão e entender que a vida não se resume a trabalho — mesmo após duas décadas na mesma empresa.

Essa é a mensagem da jornalista e empresária Claudia Giudice, autora de Uma vida sem crachá (HarperCollins Brasil, 192 p., 2017, 2ª edição). Após 23 anos em uma das maiores empresas de comunicação do Brasil, tento passado por vários cargos e ocupando função de chefia, Claudia sofreu o mesmo destino de quase 13 milhões de brasileiros: foi demitida.

A notícia teve um impacto diferente, já que Claudia era responsável pela demissão de outros funcionários. Pela primeira vez, ela sentou do lado diferente da mesa. Todo o processo de aceitação e superação — não por acaso semelhante ao luto — é narrado em um blog iniciado poucas semanas após a demissão e no livro.

Em entrevista exclusiva ao Administradores.com, a jornalista fala sobre a antecipação de um projeto previsto para a aposentadoria e faz uma reflexão sobre as intensas transformações pelas quais as carreiras e profissões têm passado nos últimos anos. "Vivemos a era do pós-emprego. Não existem mais carreiras nem profissões eternas", conta. Confira abaixo a entrevista completa.

Administradores.com Como você se sentiu ao saber que havia sido demitida? Você já havia considerado essa possibilidade, já que contava com um "plano b"?

Claudia Giudice Eu fui surpreendida pela notícia da minha demissão. Não esperava. Falhei ao não saber ler os sinais. Eu era chefe. E como chefe deveria ter o conhecimento da listas das pessoas que seriam demitidas naquele dia. Eu não tinha, porque estava na lista. Como foi estúpida. Felizmente, eu já tinha um plano B. A minha pousada A Capela, em Arembepe, litoral norte de Salvador, tinha sido inaugurada em dezembro de 2012. Fui demitida em agosto de 2014. Ela era o meu plano B para a minha aposentadoria. Ela foi a minha salvação emocional e financeira.

Quando você decidiu investir em uma pousada na Bahia e por que você optou por esse mercado para empreender?

Decidi investir em uma pousada na Bahia no início de 2011. Sempre tive o sonho de ter uma pousada e nesta época conheci minha sócia, Nil Pereira, que era baiana e havia comprado uma casa perfeita para ser o endereço da pousada. A escolha desse mercado aconteceu por afinidade e prazer. Sempre gostei de viajar. Comecei uma pós em turismo. Sempre pesquisei muito sobre o assunto e achava que tinha um bom patrimônio pessoal para atuar neste ramo. Exemplo: gosto de gente, gosto de receber, tive experiências nesta área quando trabalhei na revista CARAS e atuava na Ilha e no Castelo da revista. Tinha uma rede de amigos e conhecidos muito grande. Já minha sócia é uma fera na produção de eventos. Nil é a melhor produtora da Bahia. Enfim, achei que tínhamos condições boas de trabalhar neste mercado.

Como é a sua rotina hoje? Você passa o ano inteiro na pousada? Trabalha apenas com esse empreendimento?

Eu me divido entre São Paulo e Arembepe. Tenho duas casas e uma rotina pouco rotineira. Estou onde a minha presença é mais necessária. Se temos muitos hóspedes e grandes eventos, como os casamentos e festas que realizamos em nossa pousada, venho para a Bahia. Se não temos, vou para São Paulo cuidar do meu filho, dos meus pais e dos meus negócios lá. Faço palestras, escreve no meu blog Claudia Giudice em a vida sem crachá e atualmente estou trabalhando do relançamento do meu livro A Vida Sem Crachá. Além da pousada, tenho uma loja de arte popular, Coisas da Ninoca, e viajo para fazer compras e conhecer artistas.

Você pensa em voltar a atuar no mercado da comunicação futuramente? Por que?

Não. Este mercado mudou muito. E no momento, acredito não haver mais espaço para um profissional com as minhas características. Tenho 52 anos. Uma carreira construída na era da pedra da comunicação digital.

O mercado hoje é cada vez mais volátil e incerto — mesmo quem está no refúgio do setor público já sente que não há mais garantias de estabilidade. Você acha que a cultura do profissional brasileiro em relação ao mercado de trabalho evolui com a mesma volocidade? Ainda é comum encontrar pessoas, por exemplo, que esperam trabalhar na mesma empresa até se aposentar?

Acho que não. Vivemos a era do pós emprego. Não existem mais carreiras nem profissões eternas. As transformações são constantes no mercado de trabalho e já são evidentes os sinais de que dezenas de profissões irão desaparecer nos próximos anos. A robótica e a inteligência artificial farão o trabalho de milhões de seres humanos. Os profissionais brasileiros começaram a perceber que nada será como antes na crise de 2014 e 2015.

Estamos diante de uma realidade onde muitas profissões devem desaparecer em breve por conta dos avanços tecnológicos. Como os profissionais devem se preparar para essa realidade: considerar uma mudança de carreira ou apostar em uma especialização na área onde já atua?

Acredito que as duas alternativas são importantes. Mudar de carreira ou ter um plano B é indispensável, até porque a vida ficou longa demais. Já estão entre nós os primeiros seres humanos que viverão mais de 150 anos. Isso significa que será possível realizar muitas atividades durante uma mesma vida. Chegamos à era dos profissionais pluriaptos. Ter muitos talentos e diferentes aptidões será a melhor ferramenta para enfrentar essa era de mudanças. E claro apostar na especialização é fundamental, especialmente para quem é jovem e trabalha com atividades que envolvem tecnologia.

A demissão é uma experiência geralmente associada ao fracasso profissional — mesmo que as razões sejam conjunturais. Como o profissional deve ressignificar a própria demissão? Ele deve esperar pela demissão para se preparar psicologicamente?

A demissão está associada a fracasso, falha, perda, rejeição. É sempre duro, muito duro. Sempre me preparei para esse momento, porque nunca achei que era eterna como um diamante. Mas quando aconteceu foi um susto. Foi terrível levar esse pé na bunda. Acho que o resignificado da demissão varia muito de pessoa para pessoa. Eu fiz a minha colocando o assunto na pauta. Falando publicamente sobre o que estava passando e sentido. Fez bem para mim e para outras pessoas. Percebi que falar sobre demissão era tão tabu quanto falar sobre câncer. Sobre a preparação, acho que o melhor remédio para uma demissão é ter um bom plano B engatilhado. E, claro, ler meu livro. Modéstia a parte, ele ajuda a enfrentar a dor.