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De auxiliar a presidente na Bayer: conheça a história do brasileiro Theunis Marinho

Atualmente na presidência da ABRH-SP, Marinho fala sobre sua trajetória e deixa lições para os jovens executivos

Eber Freitas, Administradores.com,
Divulgação

Ter crescido no pequeno município de Alto Rio Doce, interior de Minas Gerais, não impediu o administrador Theunis Marinho, atual presidente da seccional São Paulo da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-SP), de assumir a presidência da divisão de Polímeros de um dos maiores conglomerados do mundo, a Bayer. Cinco dias antes de completar 22 anos de idade, ainda enquanto cursava Administração, foi selecionado para trabalhar como auxiliar na área de Custos e Orçamentos da multinacional, onde passou pouco tempo.

"Naquela época, a Bayer no Brasil só tinha diretores alemães. Depois de tudo combinado, tive que passar por um check end no RH, onde conheci o Dr. Heinz Miller. Ele falou para mim com aquele sotaque forte: 'você não quer trabalhar comigo?'. Achei que ele tivesse me confundido com outro candidato", lembra Marinho. O jovem foi loteado em um trabalho específico com sistemas de informação, que enfrentava uma situação "caótica". Sete anos depois, recebeu a proposta de assumir o cargo do antigo diretor de RH no Brasil – nenhum diretor era brasileiro.

"Vivi alguns anos como diretor, mas na prática era gerente. Só aos 33 anos recebi um cartão de visitas onde meu cargo aparecia como 'Diretor'", narra. As dificuldades culturais e o preconceito representaram problemas muito maiores do que a primeira ascensão profissional. Como todo jovem ambicioso, Theunis pretendia ingressar em empresas e setores ainda mais lucrativos, aproveitando a expertise adquirida durante os anos na Bayer.

"Naquela época, o foco da moda era a região do ABC, o berço do sindicato metalúrgico. Os diretores de RH eram muito cotados para trabalhar em empresas como a Volkswagen", conta. Aos 35 anos, ainda na Bayer, quando foi receber o bônus de fim de ano das mãos do presidente da companhia, foi indagado sobre o que esperava para sua carreira profissional. Decidiu ser franco. Não esperava muito da Bayer e não pretendia ficar estagnado. "Disse que meu desejo era um dia ser diretor de RH de uma empresa no Brasil mais importante do que a Bayer. Imaginei que fosse perder meu emprego naquele momento", diz.

Ao invés de ser mandado embora, foi inscrito no programa de job rotation da empresa. "Ele me disse para abraçar novos desafios. Em outras palavras, me tirou da lagoa e me jogou no mar", explica Marinho. Um ano depois, em agosto de 1986, ele desembarcaria com a família na Alemanha para trabalhar como gerente de um produto específico. Teve que aprender tudo sobre o novo serviço e lidar com situações cada vez mais complicadas: a adaptação da família a um novo país, a rejeição e as dificuldades linguísticas e culturais.

"Eu não sabia nada e tive que provar que podia aprender a trabalhar estrategicamente. Trabalhei nesse cargo por um ano e foi muito triste, tinha um chefe que não me queria lá. Depois fui transferido para uma área de óxido de ferro, era mais vendedor do que gerente. O job rotation deveria durar três anos, mas a Bayer me ofereceu o cargo para dirigir essa unidade de negócios e passei oito anos e meio na Alemanha", conta.

Ele lembra que a Bayer, um conglomerado fundado em 1863 e presente no Brasil desde 1886, é praticamente um país onde a cultura predominante é germânica, e não latina. "Na Alemanha, foi um recomeço de tudo: comportamento, formalidade no relacionamento, vizinhos, tudo. Eu me considero uma pessoa muito resiliente, não podemos sair no primeiro escorregão. Num período de dois anos, oito brasileiros foram com suas famílias para a sede da Bayer, na Alemanha. No terceiro ano, só restávamos eu e minha família. Todos os demais decidiram voltar para o mercado brasileiro, achavam que não valia a pena pagar o preço para ficar lá", conta.

Theunis só retornou ao Brasil em 1994, convidado para assumir a Diretoria de Finanças e Administração. Pouco tempo depois, assumiu a presidência da Bayer Polímeros S.A e a direção na América Latina para a divisão de Plásticos em Engenharia. Em 2001, após 30 anos, deixou a Bayer para se dedicar a projetos pessoais. Em janeiro de 2016, assumiu a presidência da ABRH-SP. Recentemente, o executivo lançou o livro Sonhar alto, pensar grande, onde narra sua trajetória profissional e dá conselhos aos jovens executivos em início de carreira. Confira outras opiniões de Theunis Marinho sobre diversos aspectos nas organizações.

Conflito de gerações nas empresas

"Eu acredito que, se experiência vale para alguma coisa, o mais experiente é quem deve se adaptar às novas gerações. O jovem ainda está aprendendo na vida. O adulto ou idoso já tem história para contar. Tem que partir dele essa flexibilidade para entender o jovem. No mundo de hoje, eu preciso estar atualizado com as demandas do dia de hoje, senão me torno velho por antecipação. Eu é quem preciso ser um idoso jovem".

Fusões e aquisições

"Passei por essas situações não só como diretor de RH, mas também como presidente da Bayer Polímeros. Na época eu estava acima do diretor para a América Latina, e nós fizemos aquisições. Quando uma empresa adquire, tem a intenção de crescer, ganhar novas tecnologias. Mas a empresa também precisa de pessoas que fazem parte daquelas organizações. É um processo que tem que ser conduzido de maneira integrativa".

Conselhos para os jovens

"O nome do meu livro é Sonhar alto, pensar grande. Uma das grandes vantagens que um jovem tem é sonhar. E ninguém pode tirar esse direito. Quando você tem um grande projeto, mesmo que seja jovem, se você consegue dar um encaminhamento para aquilo, só vai ter um desenvolvimento positivo, mesmo que não alcance tudo. Tirar o sonho de um jovem é matar uma alma. Um jovem precisa ter esse sonho, mas um sonho se realiza no travesseiro numa noite. Para ser concretizado precisa de muito foco, esforço e resiliência".