O perfeccionista benigno, que não nutre sentimentos de inadequação, tira prazer de suas conquistas e não fica remoendo um fracasso. Já o impostor neurótico raramente é benigno em seu perfeccionismo. É um perfeccionista absoluto, que adota metas excessivamente altas, irreais — e passa a nutrir um sentimento e uma atitude de auto-sabotagem quando é incapaz de atingir essas mesmas metas.
É movido pela crença de que não é bom o bastante no momento, mas que poderia melhorar caso se esforçasse mais. É por isso que o perfeccionismo costuma converter um impostor neurótico num workaholic.
Temeroso de que sua “fraude” seja descoberta, essa pessoa se sobrecarrega de trabalho para compensar a falta de auto-estima e identidade. Para ela, o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional é um conceito vazio.
Isso me lembra uma charge na qual um presidente passa um dossiê a um de seus subordinados, dizendo: “Vá com calma, não tenho pressa. Terminando tudo no fim de semana, está ótimo”. Um impostor neurótico costuma entrar em choques assim, abusivos e auto-sabotantes, a toda hora.
Não percebe que está exigindo demais de si e dos outros, muitas vezes em prejuízo do sucesso a longo prazo. Ao explorar a si mesmo tão brutalmente, corre o risco de se esgotar rapidamente, antes da hora. Esse ciclo vicioso começa quando o impostor adota metas inatingíveis.
Naturalmente, a pessoa não cumpre tais metas (ninguém cumpriria) e passa a se torturar sobre o fracasso, o que gera mais autoflagelação, acentua a sensação de impostura e a inspira a adotar uma nova leva de metas impossíveis — reiniciando todo o ciclo de trabalho em excesso e fraude.
Foi o que ocorreu com um sujeito de talento extraordinário, Robert Pierce, operador de mercado de um banco de investimento renomado que se sentia uma farsa. Para lidar com a ansiedade que isso causava, Pierce adotava metas de compensação financeira para si mesmo cada vez maiores. No começo, ficava empolgado quando atingia a meta. Mas caía em desânimo sempre que descobria que alguém ganhara mais que ele.
Entrava num frenesi de auto-recriminação que pouco contribuía para avançar sua carreira ou melhorar sua eficácia organizacional.
Manfred F.R. Kets de Vries é titular da cátedra Raoul de Vitry d’Avaucourt Chaired Professor of Leadership Development no Insead, na França e em Cingapura, e diretor do Global Leadership Centre, também no Insead. É psicanalista e autor ou editor de mais de 20 livros sobre a psicologia de líderes e organizações, entre eles Life and Death in the Executive Fast Lane (Jossey-Bass, 1995) e The Leadership Mystique (Financial Times/Prentice Hall, 2001).
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