Diante da elevada volatilidade nas bolsas e da crescente aversão ao risco, que tomaram proporções inimagináveis nas últimas semanas, muitas corretoras no Brasil dobraram as exigências de garantias, muitas vezes obrigando o cliente a se desfazer da aplicação para evitar perdas maiores.
Em relatório distribuído anteontem a clientes, o operador autônomo da SLW Corretora, Alexandre Ponsirenas, disse que, se há um mês eram exigidos dos clientes depósitos de 20% do valor total da operação, agora essa garantia exigida subiu para 40%. "Isso vale principalmente para os mercados de derivativos de ações, com o mercado a termo", ressalta.
Algumas corretoras passaram a solicitar depósitos adicionais de margens de garantia aos clientes pessoas físicas que se endividaram para operar, de acordo com Ponsirenas, para quem a crise atual é a pior de todos os tempos porque “ninguém consegue mensurar o tamanho dos prejuízos que podem aparecer nos balanços”.
"O mercado está operando no escuro. Por isso, muitas corretoras preferem se antecipar para não pressionar o cliente e evitar constrangimentos". No caso de pessoa física, a agilidade de obter recursos para fazer frente à exigência de garantias não é tão rápida como no caso de fundos de investimentos. Não é raro a corretora ter de pagar à Bolsa, enquanto espera o cliente resgatar o dinheiro de uma aplicação financeira para cobrir a margem exigida.
Alavancagem
Outra medida que vem sendo adotada pelas corretoras para se precaverem de perdas maiores em função do aumento do risco é reduzir o nível de alavancagem. Há, inclusive, casos de corretoras que deixaram de fazer operações a termo.
No mercado a termo, o investidor toma um empréstimo para comprar ações pagando uma taxa de juro prefixada que tem como referência a variação do CDI - atualmente em torno de 1%. Na maioria das vezes, o investidor oferece ações como garantia, mas se a tendência do mercado é de baixa, como ocorre agora, a garantia perde valor à medida que as ações ficam mais baratas. Com isso, aumenta o risco de o cliente ficar inadimplente em função das bruscas oscilações de preços.
Quando o mercado é de alta, o investidor que faz operações a termo ganha com a diferença entre o preço de compra e venda das ações e liquida antecipadamente a operação a termo, para alegria do financiador, que recebe os recursos corrigidos em menor tempo. Ou seja, o ganho do financiador é proporcionalmente maior. Agora, essa operação perdeu atratividade.
Volume menor
As operações a termo continuam sendo feitas, mas em volumes bem menores e, segundo fontes, as liquidações antecipadas diminuíram entre 30% e 40%. O volume diário de operações caiu pela metade em agosto e setembro, meses marcados pelo agravamento da crise financeira, comparativamente a maio e junho, quando o Ibovespa atingiu o pico histórico de 73.500 pontos.
"Estamos mais cuidadosos com as operações a termo e opções", conta o diretor de compliance da Planner Corretora, Arthur Figueiredo. Segundo ele, além do pedido de um adicional sobre o porcentual de garantia estabelecido pela Bolsa, a Planner decidiu, em alguns casos, reduzir o endividamento aceito dos clientes.
Comenta-se no mercado que era fácil encontrar corretoras que permitiam alavancagem de até 10 vezes o capital do investidor, mas nas últimas semanas poucas instituições estão dispostas a assumir esse risco em função da rápida deterioração do cenário.
A Bolsa divulga periodicamente uma tabela com as garantias exigidas para cada ação que pode variar de 8% a 80% do valor do papel. Quanto maior a liquidez da ação, menor é o depósito de garantia (margem) exigido.
Podem ser depositados como margem de garantia, títulos públicos, títulos privados, ações, cartas de fiança, entre outros ativos. Essas margens, utilizadas quando ocorre inadimplência por parte do cliente, são liberadas quando o cliente liquida a operação que havia assumido no mercado.