A insuficiência do discurso de gênero na aplicação da igualdade no mercado de trabalho

Porque existe tanta disparidade entre os gêneros masculino e feminino quando se fala em realização profissional?

Gabriela Blanchet e Samuel Sabino, Administradores.com,
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A melhor maneira de se iniciar este artigo é deixando claro o conceito de “discurso de gênero”, uma vez que as propostas para a discussão sobre o gênero do ser humano (Sim! Somos todos seres humanos!) são diversas, seja aqui no Brasil, seja em qualquer outro lugar do mundo.

Alguns tratam o gênero a partir de um viés mais científico, geralmente adotado por médicos, cientistas, biólogos, os quais distinguem o gênero masculino do gênero feminino a partir das características físicas do ser humano. Outros partem de uma linha mais metafísica, geralmente adotada por psicólogos que entendem ser o gênero masculino ou feminino formado a partir de suas experiências e vivências sociais.

O fato é que todos, independentemente do gênero, são seres humanos, cujo fato real da existência é a busca da preservação da dignidade, e, consequentemente, a valorização da vida com o fim último de alcançar a felicidade em todos os campos da vida, o que inclui, a felicidade no âmbito profissional.

Especificamente no que se refere à busca da felicidade no âmbito profissional, nos surge uma pergunta: porque existe tanta disparidade entre os gêneros masculino e feminino quando se fala em realização profissional? Ou seja, porque os homens são mais felizes que as mulheres quando se fala na busca da felicidade como profissional? Porque há mais homens que mulheres no topo das carreiras de liderança e destaque no mercado de trabalho?

Considerando que todos, independentemente de gênero, são seres humanos com as mesmas capacidades intelectuais, qual a razão da existência desta falta de igualdade? O que se faz necessário para o alcance da igualdade ideal no mercado de trabalho?

Neste sentido, questionamos se o discurso de gênero seria mesmo eficiente para galgarmos esta mudança nas estatísticas que mostram um abismo enorme entre o papel do homem e da mulher no mercado de trabalho. Afinal não estamos falando de guerra dos sexos! Pelo contrário, para que haja esta mudança o papel do homem é fundamental!

O ponto central da discussão neste artigo é a vida, o fato real da existência do ser humano, dotado de dignidade. Ora, mantida a dignidade do ser humano, não há desrespeito, não há ação segregativa e há uma valorização das reais competências de cada ser. É preciso, portanto, olhar para o ser humano e suas competências e qualidades independentemente do gênero.

Para o alcance da igualdade ideal no mercado de trabalho, faz-se necessária uma mudança profunda de paradigma. O discurso de gênero como vem sendo discutido pela sociedade, tem uma visão conceitual e metafísica, que não está ligada ao sexo masculino e feminino como seu reflexo, mas sim a diversos conceitos que são históricos e culturais. Este discurso, portanto, apenas julga valores, como: melhor, pior, frágil, ruim, bom, forte, fraco, mais detalhista, mais objetivo, não sendo suficiente para combater os estereótipos do masculino e feminino construídos ao longo da história, arraigados culturalmente, e, inconscientemente na mente dos seres humanos.

Há séculos criou-se um discurso de gênero que enaltece e supervaloriza o masculino e subestima o feminino, principalmente no âmbito profissional. Esqueceu-se do ser humano. Ora quem disse que o homem era melhor do que a mulher no passado, não estava observando o ser humano, estava observando seus valores individuais e querendo trazê-los para a realidade.

Em algumas sociedades matriarcais antigas o papel do homem era rebaixado e isso só mudou quando outro discurso de gênero foi criado. Ou seja, em uma análise mais fria, o discurso de gênero pode até buscar compensar erros passados em alguns pontos, mas pode trazer como consequência potenciais de radicalismo, e até mesmo preconceito.

Não há dúvidas de que o discurso de gênero busca a igualdade, mas o risco é que tal discurso se torne ligado a valores pessoais de grupos específicos de seres humanos, o que o torna insuficiente. É, portanto, uma medida paliativa e não uma medida final.

O problema é o modo como o ser humano pensa a ideologia. Sempre se está atrás de culpados, de se aliar aos semelhantes e afastar o diferente. Para acabar com isso de vez, é preciso mudar o modo como o ser humano enxerga a si mesmo e ao próximo. Tornar seu olhar objetivo, fazer dele algo pautado na realidade e não no pensamento puro.

Assim, para se alcançar a igualdade ideal, na hora de avaliar competências, para uma posição profissional, por exemplo, há que se considerar as competências e a capacidade individual de cada ser humano como ponto de partida, independentemente do gênero.

Esse é o caminho para se construir uma sociedade melhor e mais igualitária. Este é o caminho para que os cargos de liderança e destaque no mercado de trabalho sejam ocupados por seres humanos competentes e de fato merecedores de ocuparem aquela posição.

Devemos começar mudando o modo como se olha para cada ser humano, entendendo que mesmo diferentes, ou melhor de “gêneros diferentes”, somos todos iguais, e, merecemos a mesma vida, com dignidade e felicidade.

Gabriela Blanchet  — Advogada, sócia e líder do escritório de advocacia Blanchet Advogados, e membro do IBDEE - Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial.

Samuel Sabino — Fundador da consultoria Éticas Consultoria, filósofo, mestre em bioética e professor, e membro do IBDEE - Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial.