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BRICS: ainda há fôlego para o grupo?

Iniciativas pontuais mostram que o conjunto de países quer cooperação; para especialistas, gigantismo da China pode ser prejudicial

Eber Freitas, Administradores.com,
iStockphoto

No início de abril, uma parceria entre os governos do Brasil e da Rússia possibilitou a instalação de um telescópio russo no Observatório Pico dos Dias, em Brazópolis (MG). Dedicado ao monitoramento de lixo espacial, o equipamento começou a ser montado no final do ano passado e foi inaugurado sem muito alarde, apesar de ser o telescópio mais avançado em território brasileiro.

A confluência de interesses encontrou território comum no âmbito do BRICS. A Rússia queria um telescópio dessa natureza no hemisfério sul e o Brasil poderá aproveitá-lo para realizar pesquisas atronômicas: "a inauguração desse telescópio é fruto de um convênio de cooperação científica dentro do acordo dos BRICS, assinado em 2016", afirma o diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica, Bruno Castilho.

O grupo de países já esteve em maior evidência durante o governo Dilma Rousseff (PT), quando projetos ambiciosos foram arquitetados -- como um banco de investimentos próprio para as nações integrantes e o projeto chinês de uma ferrovia ligando o Porto de Açu, no Rio de Janeiro, ao Oceano Pacífico.

Obsoleto?

Essa não parece ser a maior das preocupações de Michel Temer (PMDB), cuja gestão tem maior ênfase nas reformas internas. A ascensão de lideranças de perfil nacionalista e economicamente protecionista em outros países, incluindo nos Estados Unidos, aponta para uma menor influência da globalização na decisão de investimentos.

No entanto, projetos de menor monta e a própria participação do Brasil no BRICS seguem em andamento. Na verdade, não houve alteração na áreas e temas de diálogo entre as nações do grupo, que permanece com ênfase na área de finanças e bancos centrais.

"O BRICS é formado por países-baleia, ou seja, países com grandes extensões territoriais e altamente populosos. Isso significa que são países praticamente inconquistáveis. Sua união em um bloco econômico representa uma garantia de mercado para países em desenvolvimento", afirma o economista e consultor do Sebrae Sérgio Dias.

O especialista em economia e finanças Alexandre prado considera que o grupo detém 42% da população mundial, 26% do território do planeta, responsável por 23% da economia mundial e 15% do comércio internacional. "Não bastasse, detém 75% das reservas monetárias internacionais e foi responsável por 36% do crescimento da economia mundial na primeira década deste século", lembra.

"Em outras palavras, a importância do BRICS continua relevante e vem crescendo a cada ano, mesmo com a crise tendo se abatido sobre a maioria dos seus membros nos últimos três anos", explica Prado.

Já Rodrigo Zeidan, doutor em economia e professor da Fundação Dom Cabra, tem uma visão distinta sobre a participação do Brasil no BRICS e a tentativa de avanço imperialista durante os governos do PT. Para ele, o Brasil não deverá retomar a busca por um status de liderança entre os países em desenvolvimento.

"Historicamente, o Brasil sempre esteve na vanguarda do atraso. Fomos o último país a abolir a escravidão. O que o país precisa é se recolher à sua insignificância e cuidar dos seus cidadãos", criticou, referindo-se à posição do país no BRICS.

Alianças estratégicas em tempos de protecionismo

A China é o maior parceiro comercial do Brasil e, nos últimos meses, demonstra mais interesse em manter uma economia globalizada do que os Estados Unidos sob a administração Trump. Para alguns especialistas, o alinhamento com o país comunista pode ser vantajoso para o Brasil, cuja economia depende da exportação de commodities.

"Com a crise na União Europeia, agravada pelas perspectivas de saída de países como a Holanda em um momento em que o Brexit ainda está sendo digerido, somada á decisão de Trump de encolher ou mesmo acabar com o NAFTA, o BRICS passa a ser um referencial para os países em desenvolvimento", analisa Dias.

O economista adverte que o posicionamento enquanto integrante do BRICS não é suficiente para que o Brasil consiga melhores negociações bilaterais: é necessário que a diplomacia tenha um bom desempenho no contexto das relações internacionais.

"Por ser tradicionalmente uma nação com trânsito internacional irrestrito, o Brasil tem mais condições de liderar as negociações do bloco com outros países. O importante é que nossa diplomacia se aproprie dessa oportunidade e faça prevalecer essa característica", considera.




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