Dia: trabalho. Noite: estudo

No Brasil, segundo o Censo da Educação Superior de 2003, são 3,9 milhões de estudantes matriculados em cursos de graduação. Desses, 1,7 milhão freqüentam o ensino noturno. Além disso, 88,9% das instituições de ensino superior brasileiras são privadas, ou seja, o universitário, muitas vezes, tem que fazer uma dobradinha de trabalho e estudos, pois tem que pagar a mensalidade.

Os alunos do período noturno que trabalham o dia todo em grande parte chegam à universidade cansados. Por esta razão não apresentam um aproveitamento ideal das aulas. "De um modo geral, os alunos do noturno têm o dia todo ocupado no trabalho e, por isso, chegam extremamente exaustos, querendo dormir ou passear. A escola se torna muito mais um `social´ para eles. É complicada essa situação: primeiro porque ele chega cansado; segundo porque estão desestimulados, pois a escola é extremamente desinteressante na maioria do tempo. Esse é o grande desafio que os professores que trabalham à noite enfrentam", descreve a coordenadora do curso de Letras e Pedagogia da Universidade São Judas, Maria Cristina Salvador.

Acontece que a relação entre ensino e aprendizagem é direta. Nem tudo aquilo que o professor ensina, o aluno aprende. Quem tem que participar do processo de construção de conhecimento é o próprio aluno. "É ele que tem que construir esse conhecimento, não sou eu. Não é o professor que abre a cabeça do aluno e coloca lá dentro o que ele tem que saber. Sentimos essa como uma das grandes dificuldades do professor: que o estudante se perceba construtor de conhecimento e que aquele tempo que está na escola torne-se muito bem aproveitado. O aluno deve tomar muita consciência disso", conta Maria Cristina.

Participar é preciso

O aluno é quem deve se interessar por aprender, mas, muitas vezes, o cansaço, a fadiga, a fome, as dores, a cobrança no emprego o impedem de aproveitar plenamente as aulas. A partir dessa percepção, a psicóloga e professora da PUC-Campinas, Maria Cláudia Roberta Tombolato, resolveu estudar a qualidade de vida do universitário e defendeu agora no início de 2005 a dissertação "Qualidade de vida e sintomas psicopatológicos do estudante universitário trabalhador".

"Eu sou professora há quase 20 anos e sentia diferenças entre o pessoal do diurno e noturno, algumas coisas foram me chamando a atenção. Eu dei um curso dentro da PUC que era uma vivência, e os alunos do noturno tinham muitas queixas em relação a cansaço, dor nas costas, dor de cabeça. Alguns já estavam tomando calmante, tinham depressão. Confesso que fiquei um pouco assustada pelo volume de alunos (nessas circunstâncias), e percebi que isso era um pouco maior entre os que trabalhavam", relata Maria Claúdia.

Quando começou a pesquisar o assunto, percebeu que havia poucos estudos brasileiros sobre o universitário trabalhador. "Fiquei ainda mais assustada quando eu vi que o Brasil é um dos poucos países que dá ao universitário uma carga horária de trabalho normal de oito horas e outro tanto para estudar. Ou seja, na Europa, é menor o contingente de alunos que trabalham e estudam. Aqui no Brasil, (essa proporção) é mais da metade dos alunos de graduação", conta a psicóloga.

A principal questão da pesquisa era: O trabalho estaria interferindo na qualidade de vida do universitário? Maria Cláudia trabalhou com 140 alunos do período noturno. Desses, 122 eram trabalhadores. "Fui comparar então as diferenças entre esses dois grupos. Fiz um questionário sócio-demográfico, usei um instrumento da OMS (Organização Mundial de Saúde), que é mundialmente utilizado para avaliação da qualidade de vida e analisa o aspecto físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente. Inclui também um instrumento que avalia sintomas psicopatológicos", relata a professora da PUC-Campinas.

Esses questionários foram aplicados no curso de Administração de Empresas e o grupo mais afetado, em que foram encontradas diferenças estatísticas significativas, foi o das mulheres mais jovens (entre 18 e 22 anos). "A diferença ficou `gritante´, principalmente no domínio físico. O principal era a sensação de desconforto e de se sentir desenergizada ou com fadiga. Também são afetadas na qualidade do sono e no meio ambiente", conta Maria Cláudia.

De uma forma geral, numericamente, sempre os que trabalham e estudam têm um índice na pesquisa menor em relação aos que só estudam, seja em relação à qualidade de vida, seja em relação aos sintomas, aqueles são mais prejudicados. "Em relação aos scores normais da população, quem não trabalha está equivalente. Já quem trabalha está bem abaixo do normal, quase as mesmas medidas de pacientes internados em hospital. Eles são afetados, o trabalho pode ser um fator que compromete um pouco a qualidade de vida geral, principalmente para as mulheres mais jovens", ressalta a psicóloga.

O que fazer então?

Uma coisa é certa, não podemos julgar o trabalho como algo ruim e que só tem a função de "atrapalhar" a vida do universitário. Se aluno gosta do que faz durante o dia, o trabalho pode até ajudá-lo a ficar feliz e levar a vida mais leve. Vai fazer uma diferença e tanto se o aluno gosta ou não do que faz.

"Se o estudante precisa trabalhar, que procure algo que se afine com o curso. Procure orientar o trabalho diurno com o que estuda durante a noite", recomenda a professora da PUC-Campinas. É importante também não se tornar um workaholic. Saber equilibrar estudo e trabalho é algo extremamente benéfico.

Vale lembrar, também, que você está na universidade buscando conhecimento. "E por que você busca conhecimento? Porque quer melhorar de vida. O processo de construção do conhecimento é algo contínuo e depende muito de nós mesmos", lembra a professora da São Judas, Maria Cristina.

Além disso, o aluno precisa participar dos debates e discussões propostos pelos professores. "Também identifique como você aprende melhor. Tem aluno que aprende ouvindo, tem aluno que aprende escrevendo, tem aluno que aprende falando", aconselha Maria Cristina.

Registre o assunto, porque isso permite que retome em outros momentos, quantas vezes forem necessárias, aquilo que conseguiu detectar da aula do professor. A professora da São Judas lembra que a observação, a reflexão e o registro são três eixos fundamentais para o processo de construção do conhecimento. Muitas vezes o desinteresse é pela não compreensão do que está sendo trabalhado em sala de aula. Portanto, procure entender o que está escrito, o que o professor está dizendo, pergunte, questione.

"Fisicamente falando, a alimentação também é um pilar muito importante. Parece que não, porque o organismo está jovem, mas faz muita diferença. Carregue sempre frutas consigo e se for a algum lugar, prefira sucos naturais e não fique muito tempo sem comer", alerta Maria Cláudia.

Outra dica é fazer algum exercício físico, nem que seja apenas de final de semana, pode ser jogar bola, caminhar junto à natureza, sempre com o intuito de recarregar as energias. "E mais do que isso, o jovem tem que desenvolver o amor próprio, a auto-estima. Deve se valorizar, é uma fase em que o estudo é prioridade", lembra a psicóloga. "O jovem tem que viver a juventude, se divertir e não consumir tanto esse período só com assuntos sérios".

"Eu sempre digo aos alunos, você deve sair de cada aula e se perguntar: o que eu aprendi nessa aula? Se não aprendeu nada, nem devia ter vindo a escola. Para ir à uma sala de aula, tem que se preparar psicológica e fisicamente", conclui Maria Cristina, da São Judas.

Qualidade dos cursos noturno

A UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) definiu em 2002 como prioridade política a ampliação da abertura de cursos e vagas no período noturno. Em decorrência disso foi feito um estudo comparativo de cursos que são ao mesmo tempo diurnos e noturnos. "Eram 12 cursos na época, e o estudo foi feito ao longo de 2003 e finalizado no início de 2004. Desses cursos, 11 eram de bacharelado e licenciatura", conta a diretora de avaliação institucional da UFMG, Maria do Carmo Lacerda Peixoto.

"A comparação que nós buscávamos era exatamente saber se haveria diferença entre o rendimento dos alunos de cursos diurnos e noturnos, com a suposição de que os alunos do noturno, por em sua grande maioria trabalharem, teriam um rendimento inferior e que a universidade oferecia um curso de qualidade menor, porque os alunos não estão com a mesma disposição", explica a diretora.

Um dos indicadores utilizados foi o desempenho semestral global, que é feito compilando os conceitos que os alunos receberam ao longo do semestre em todas as disciplinas. Isso dá um número decimal que varia de 0 a 5. "O resultado que nós encontramos fazendo médias desse indicador, é praticamente invariável. Em alguns casos favorável ao noturno, em alguns casos iguais diurno e noturno. E um caso ou dois é que a diferença é favorável ao diurno", explica Maria do Carmo.

A média evidenciou que não se tinha uma diferença substantiva nas notas obtidas pelos alunos ao longo do curso. Foi adotada também uma medida externa, que foi a nota do Provão. "Na época nós ainda tínhamos o Provão funcionando. Esse processo nos evidenciou que tanto no diurno quanto no noturno as médias da UFMG eram superiores a média nacional, e além disso a média dos nossos alunos do noturno, em alguns casos inferior ao do diurno, não foi capaz de fazer com que o conceito do curso baixasse", relata.

Portanto, há indicadores internos e externos que apontam que o desempenho dos alunos não é afetado pelo fato do curso ser diurno ou noturno. "O último indicador que nós pegamos foi o ingresso na pós-graduação, mestrado principalmente. Nós comparamos áreas de Exatas, Biológicas e Ciências Sociais Aplicadas, o que deu um indicador bastante razoável de ingresso de alunos nos nossos mestrados. Isso nos dá, no conjunto, uma indicação de que não existe uma diferença significativa. Mesmo com as dificuldades que os alunos do noturno enfrentam, eles são em alguns casos mais dedicados, mais maduros e mais envolvidos com os cursos do que os alunos do diurno", conclui Maria do Carmo. Vale ressaltar que a avaliação foi feita com alunos de uma universidade pública federal.

Os cursos noturnos universitários estão em sua maioria nas universidades privadas, por esse motivo muitos alunos têm que trabalhar para pagar os próprios estudos. Mas é importante ter em mente que esse processo de graduação deve ser encarado com leveza e concebido como momento fundamental de aprendizado e não ser transformado em um fardo difícil de carregar.





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A economia mundial irá se recuperar em 2009?

Completamente.
Moderadamente.
A economia não irá se recuperar em 2009.





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