É possível fazer cursos totalmente a distância?

07 de julho de 2008 às 00:01
Apesar do crescimento expressivo da EAD (Educação a Distância) recentemente – mensurável, entre outros fatores, pelo aumento na oferta de vagas de cursos a distância nas instituições –, oferecer cursos no formato 100% não-presencial ainda divide especialistas. Quem defende a modalidade como saída para driblar a exclusão no Ensino Superior aposta na viabilidade do modelo apenas em longo prazo. Os mais radicais, no entanto, não a consideram viável nem assim. Continuam a defender 20% de aulas presenciais para manter o contato do aluno com o professor e sua integração social.

A principal questão prática apontada por especialistas para que a proposta de cursos 100% não-presenciais continue a gerar tanta polêmica se deve ao fato de que a inclusão digital no Brasil ainda não é uma realidade. Isso significa que não são todos os estudantes com a preparação tecnológica exigida por esse tipo de curso. Muitos dependem dos pólos de apoio para estudar. Em alguns casos, esses pólos são muitos distantes das casas dos alunos. Sendo assim, o deslocamento, por si só, já seria um fator de exclusão.

A diretora de EAD da PUC-Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), Maria Beatriz Gonçalves, defende que não é possível haver aulas sem nenhum encontro presencial. "Algumas atividades devem ser realizadas presencialmente, como provas – para evitar fraudes – e práticas de laboratório. Fora tais atividades, todo o conteúdo restante pode ser passado de forma virtual, mas falar em ensino totalmente a distância ainda não é possível no país, já que os pólos de EAD são necessários para promover a inclusão de alunos carentes", afirma ela.

O presidente do Conselho Científico da ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância), Waldomiro Loyolla, acredita que outro fator de impedimento para a realização de cursos 100% a distância são os recursos financeiros necessários para dispor dos aparatos tecnológicos fundamentais para se estudar em casa. "A EAD totalmente on-line exige uma um aparato tecnológico dos alunos. Trata-se de um custo alto com o qual muitos não têm como arcar. Por isso foram criados os pólos de apoio", explica ela.

Hoje, na opinião de Loyolla, apenas algumas graduações se adaptariam à modalidade 100% não-presencial. "Cursos que trabalham a análise de redes, por exemplo, poderiam ter sua versão totalmente on-line porque todo seu programa é desenvolvido a distância e, teoricamente, não há muita prática", diz. Num cenário mais amplo, porém, a aposta para educação 100% não-presencial acaba sendo vislumbrada para o futuro. É o que defende o diretor executivo da FGV on-line (Fundação Getulio Vargas), Stavros Panagiotis Xanthopoylos. "Futuramente a tendência é que os equipamentos sofram uma queda de preço. As universidades só podem oferecer uma educação 100% a distância quando chegar esse momento", defende ele.

O responsável pela área de Tecnologia da Informação do Mackenzie (Universidade Presbiteriana Mackenzie), José Augusto Pereira Brito, concorda com Xanthopoylos quanto à futura possibilidade de um curso totalmente não-presencial. "Ao serem desenvolvidas novas tecnologias interativas que alcancem o aluno em qualquer local, podemos pensar em oferecer um ensino sem a necessidade de encontros presenciais", opina.

Preparo de professores e alunos

Para ser oferecido um curso de EAD totalmente on-line, Brito acredita ainda que faltam recursos a serem desenvolvidos. "Para tal oferta se concretizar, as universidades devem primeiro desenvolver novas tecnologias para integrar os alunos e permitir algum tipo de interação on-line", acredita ele. Na opinião dele, para que a educação totalmente a distância seja satisfatória, o curso ainda deve ser bem elaborado, com metodologia e conteúdos coerentes. Ele completa que os professores de EAD precisam ser mais bem preparados, assim como os docentes dos cursos presenciais. "Eles devem prender a atenção da maior quantidade de alunos, por isso devem ser mais didáticos", diz Brito.

Além de a tecnologia ser desenvolvida para que um curso totalmente a distância funcione, os alunos precisam desenvolver autodisciplina, acredita a professora da PUC-Minas. "A disciplina deve ser ainda maior que na atual EAD. Da maneira feita hoje, os alunos podem tirar dúvidas com os monitores ou professores presencialmente. Numa modalidade 100% não-presencial, a única maneira de sanar uma dúvida será quando o aluno enviar sua pergunta e esperar a resposta do professor ou quando ele mesmo buscar a solução", afirma Maria Beatriz.

A crítica mais contundente em relação à oferta de cursos 100% não-presenciais parte da coordenadora do GV NET (Programa de Educação a Distância da FGV-EAESP - Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas), Marta de Campos Maia. Além de se apoiar nas desvantagens do atual cenário de exclusão digital, ela defende a importância de um primeiro contato pessoal entre professor e aluno. "É preciso haver um contato inicial presencial entre eles. O restante do curso pode ser realizado por meio de computadores, mas é importante ter essa primeira troca, assim o aluno conhecerá quem lhe dará aula", afirma.

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