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O mercado de ações é um bom lugar para investidores iniciantes?

Guru dos investimentos, Jeremy Siegel fala sobre economia, ambiente de negócios e investimentos pessoais

Eber Freitas, Administradores.com,
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Lucros de até R$ 20 mil para quem investe em ações na Bolsa de Valores são isentos de impostos. A intenção é facilitar o acesso de pequenos investidores ao assustador mundo da compra e venda de ações, mas essa tradição não pegou muito bem no Brasil. Pouco mais de 500 empresas com operações no país têm ações disponíveis para compra pelo Ibovespa, e um volume bem inferior negocia fluentemente. A preferência, por outro lado, é pela boa e velha poupança – embora as retiradas tenham superado as entradas em R$ 53,79 bilhões, entre janeiro e setembro.

Com a inflação em alta, a melhor opção tem sido o Tesouro Direto ou fundos de renda fixa. Mas investir em ações é para os mais agressivos, uma ideia equivocada: “ações são mais voláteis no curto prazo, mas elas dão retornos muito melhores do que títulos no longo prazo”, lembra Jeremy Siegel.

O economista fala com frequência na mídia norte-americana sobre economia e finanças; é uma voz respeitada quando se trata do assunto. Formado em Matemática e Economia pela Universidade de Columbia, obteve seu Ph.D pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT) em 1971. Hoje atua como consultor sênior de estratégia de investimentos na consultoria WisdomTree Investments, leciona na Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, e escreve artigos e livros. O mais recente – e mais conhecido – é o Investindo em ações no longo prazo, lançado em 2015 no Brasil pelo Grupo A.

Siegel defende aquilo que não é tão difícil inferir: se o investidor tiver paciência e uma estratégia razoável, pode fazer uma boa grana com o tempo, esteja o país em crise ou não. “Durante longos períodos de tempo – mais de 30 anos – retornos de ações superaram o retorno dos títulos do governo em todos os países analisados e muitas vezes fizeram isso com menos riscos”, afirma.

Administradores – No Brasil, cerca de 100 das 508 empresas listadas na bolsa de valores brasileira (Bovespa) negociam fluentemente. Nos EUA, NYSE e NASDAQ têm mais de 2000 empresas listadas cada. O número de empresas de capital aberto indica maturidade do mercado? Por quê?

Jeremy Siegel – Com certeza, quanto maior a economia, maior o número de ações negociadas. Na verdade, os EUA têm mais de 5000 ações listadas, embora o top 500 (principalmente no Índice S & P 500) represente 75% da capitalização de mercado.

Quais são os fatores históricos que levaram o EUA a se tornar uma nação que faz o investimento em ações ser uma "religião do povo"? E por que muitos países, incluindo os que estão em desenvolvimento, não alcançam o mesmo sucesso?

Os EUA têm uma tradição de mercados livres, em grande parte herdada de políticas econômicas da Grã-Bretanha. Também não acreditamos em negócios estatais. Praticamente toda a produção está em mãos privadas. Os países emergentes devem valorizar a concorrência, mas também devem cumprir todas as leis contra a corrupção. Os mercados devem ser regulados, mas não super regulamentados. Além disso, empresas individuais não podem ser autorizadas a formar monopólios que excluem a competição.

O mercado de ações é um bom lugar para investidores iniciantes? Qual é a melhor estratégia para aqueles que estão apenas começando e tem metas de longo prazo? E que conselho você daria para aqueles que esperam ganhos elevados a curto prazo?

Para quem está começando, a indexação é o melhor caminho a percorrer. Um programa de indexação de baixo custo vai incluir ações internacionais e domésticos. Eu gosto de "indexação inteligente" que pesa empresas por fundamentos financeiros, como dividendos ou lucros. Mas indexação padrão, ponderada pela capitalização, também é excelente se as taxas forem baixas.

Na crise de 2008, o governo americano teve de intervir para evitar uma catástrofe. Em sua opinião, a crise afetou a credibilidade do mercado de capitais e enfatizou a necessidade de uma maior regulação?

A crise financeira foi causada pelo efeito de alavancagem por instituições financeiras importantes em títulos derivados de hipotecas de alto risco. Estas empresas não podem ser permitidas a fazer essa alavancagem e devem ter camadas suficientes de capital para proteger os contribuintes se for necessária a intervenção do governo. A Lei Dodd-Frank no EUA abordou alguns destes problemas, mas também impôs demasiada regulamentação em alguns casos.

No Brasil, a compra direta de títulos do Tesouro (títulos federais) é a alternativa que melhor combina rentabilidade e risco, o que atrai muitos investidores. Algumas pessoas ainda abster-se de investir em qualquer outra coisa. Essa preferência para financiar o Estado, em vez de financiar empresas afetar a economia?

Durante longos períodos de tempo – mais de 30 anos – retornos de ações superaram o retorno dos títulos do governo em todos os países analisados e muitas vezes fizeram isso com menos riscos. No EUA o desempenho é de 3% a 4% ao ano, e em muitos outros países esse número é maior. Sim, as ações são mais voláteis no curto prazo, mas elas dão retornos muito melhores do que títulos no longo prazo.

Em seu último livro publicado em Português, "Investindo em Ações no Longo Prazo", você defende a necessidade de aumentar a idade de aposentadoria. Você acredita que os sistemas públicos de pensões podem entrar em colapso com o aumento da população idosa?

No EUA, o maior fardo será despesas médicas de idosos cobertas por nosso programa Medicare. Sob o sistema atual, isso é financeiramente insustentável e elas terão de ser cortadas ou suplementadas com mais seguros privados. A longo prazo, nossa Segurança Social está apenas um pouco fora de equilíbrio. Ao indexar o recebimento desses direitos a expectativa de vida, o EUA pode percorrer um longo caminho para o desenvolvimento de programas sustentáveis de aposentadoria de longo prazo.

A Standard & Poors reduziu recentemente o grau de investimento no Brasil, devido à crise nacional política e orçamentária; a mesma agência deu a maior nota ao Lehman Brothers, semanas antes da crise de 2008. São duas coisas diferentes em diferentes situações? Quando o investidor deve levar as notas das agências em conta?

Agências de classificação já cometeram alguns erros graves. Elas deram classificações altas demais para títulos hipotecários de alto risco e elas não deveriam ter rebaixado os títulos do Tesouro dos EUA em 2010. Eu sei que o Brasil tem alguns problemas difíceis agora, mas acredito que o país é inerentemente forte e passará por isso com sucesso. Para aqueles dispostos a assumir o risco, ações e títulos brasileiros podem ser grandes investimentos a longo prazo.

A ideia do Paradoxo de Spiegel, pouco conhecida no Brasil, é atribuída a você. Como é que a formulação desse conceito surgiu e qual é a sua aplicação?

O Paradoxo de Siegel afirma que a taxa de câmbio a prazo não pode ser uma estimativa imparcial de intercâmbios futuros do ponto de vista de ambos os operadores de câmbio estrangeiros e nacionais. O paradoxo mostra que as taxas de câmbio a prazo podem não ser os melhores indicadores de taxas de câmbio local futuras.