Saiba como garantir a aposentadoria sem depender do INSS

Em longo prazo, rendimentos podem multiplicar o valor aplicado em sete vezes; saiba como escolher o melhor investimento

Eber Freitas, Administradores.com,
Simão Mairins/Administradores.com

A proposta de Reforma da Previdência assustou muita gente. As regras preveem idade mínima de 65 anos – tanto para homens quanto para mulheres – e 49 anos de contribuição para ter direito a 100% do benefício. Para se aposentar com a idade mínima e o benefício total, seria necessário trabalhar a partir dos 16 anos e nunca ser demitido.

Para Alexandre Espírito Santo, professor de Macroeconomia e consultor da Órama Investimentos, a proposta tem aspectos positivos e é necessária para equilibrar o caixa da Previdência a longo prazo, apesar do exagero do tempo de contribuição obrigatório para obter o benefício completo. "Mas, no geral, me pareceu um pouco aquela história de colocar além do necessário para ter margem de manobra e aprovar um pouco menos, sem prejuízo do ponto principal, que é equilibrar a previdência no longo prazo", afirma.

A previdência social é assunto sensível em todo o mundo. O receio de acontecer o que houve na Grécia em 2015 leva alguns países a optarem pela austeridade, mesmo com o prejuízo descontado na população. "Existem vários dados preocupantes sobre o futuro das aposentadorias pelo mundo. À medida que as populações envelhecem, fica difícil manter o padrão de qualidade de vida", acredita o consultor financeiro e empresário Fábio Zugman.

Mesmo com o bom exemplo da Finlândia, onde toda a população poderá receber uma renda mínima mesmo sem trabalhar, a realidade brasileira é diferente. "No início deste século, o déficit da previdência representava 0,8% do PIB, e hoje essa relação é três vezes maior. Se nada for feito, em dez anos as receitas do governo serão praticamente consumidas por previdência e folha de salário. É insustentável", defende Alexandre Espírito Santo. Citando um estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), ele lembra que os gastos com previdência, se a trajetória de gastos for mantida, podem chegar a 20% do PIB em 2060.

"No Brasil o trabalhador, com o seu desconto no contracheque, ajuda a pagar o benefício de quem está aposentado. Portanto, o dinheiro que o aposentado recebe não é originado diretamente de uma contribuição feita por ele próprio", enfatiza Alexandre, lembrando que, dessa maneira, não há garantia de que o trabalhador irá receber o benefício quando se aposentar. "Por isso é necessário incentivar a previdência complementar, pois aí você poupa para o seu próprio futuro", conclui.

Onde colocar o dinheiro?

Entre os especialistas consultados, o consenso é diversificar a carteira de investimentos tanto em renda fixa quanto em renda variável. É um conselho antigo e fácil de encontrar em qualquer livro sério sobre finanças.

"Como o planejamento da aposentadoria é de longo prazo e a cada ano há investimentos ganhadores e perdedores, diversificando é possível alcançar um retorno médio consistente que permita valorizar o dinheiro aplicado e incrementar o poder de compra ou, pelo menos, preservar", afirma Sandra Blanco, consultora da Órama Investimentos.

Mas nem todo mundo tem um perfil arrojado como investidor e a educação financeira é um mistério para muitas pessoas no Brasil. "O perfil de investidor é o primeiro fator relevante a ser considerado, pois define o percentual máximo em renda variável permitido", ressalta Blanco. Segundo ela, o perfil do investidor é um conjunto de características que abrange idade, preferências, traços de personalidade, necessidades e reservas financeiras.

"Aqueles que não se planejam e que não diversificam vão ter uma aposentadoria difícil. Muitos trabalhos internacionais suportam esta tese", afirma Sandra Blanco.

Tesouro Direto e renda fixa

Existem diversas opções de investimento em títulos do Tesouro Direto com risco semelhante ao da poupança e rentabilidades diversas. Há títulos indexados ao IPCA (inflação), prefixados (o investidor sabe de quanto serão seus ganhos no momento do investimento) e indexados à taxa Selic. A diversidade e a segurança dessa modalidade estimulou vários investidores a migrarem da tradicional poupança – cujos rendimentos mal acompanham a inflação – para o TD.

Em novembro, os depósitos na poupança superaram os saques pela primeira vez desde dezembro de 2015, com um saldo de R$ 1,8 bilhão. É uma margem estreita: o volume líquido de saques foi de R$ 167 bilhões. Já o Tesouro Direto, no ano passado, registrou mais de 20 mil novos cadastros, um aumento de 190% em relação a 2014.

Mas as vantagens não devem redundar em entusiasmo cego: qualquer investimento deve ser atrelado a objetivos. Considerando que o propósito é garantir recursos para uma aposentadoria precoce, uma simulação de título NTNB com vencimento para 2035 mostra que existem melhores alternativas a guardar dinheiro no colchão. A conta pode ser feita no simulador do Tesouro Direto.

Se o investidor aplicar R$ 10 mil na data de hoje – considerando uma taxa de 6,05% ao ano do papel na hora da compra, sem incluir a taxa da corretora e considerando a inflação de 5,97% acumulada até novembro – o valor líquido de resgate chega a R$ 71,6 mil sob uma rentabilidade líquida de 11,3%. É importante lembrar que o investidor deve pagar imposto de renda e uma taxa de custódia no momento do resgate. No mais, basta deixar que os juros compostos multipliquem o valor.

Nesta entrevista, o economista Marcos Silvestre detalha as vantagens, desvantagens e detalhes para investir no Tesouro Direto.

Outras opções de renda fixa incluem LCI (Letras do Crédito Imobiliário), LCA (Letras do Crédito Agrário), CDB (Certificado de Depósitos Bancários) e CDI (Certificado de Depósito Interbancário). Antes de decidir por uma opção de investimentos, especialistas recomendam uma avaliação cuidadosa de fatores como liquidez, taxas cobradas pela corretora ou banco, isenção de imposto de renda e rentabilidade real para o prazo desejado.

O mais importante é ter um objetivo e muita disciplina. "O negócio é pensar no teu perfil e no que funciona para você. Jack Bogle, um dos pais dos fundos de investimento em índice nos EUA, tem uma frase que diz: escolha um fundo barato, coloque um pouquinho cada mês e não olhe quanto tem no fundo. Quando estiver perto de se aposentar, olhe quanto tem, mas perto do seu médico, pois você pode ter um ataque cardíaco", diz Zugman.

Quanto investir?

"Ninguém sabe", afirma Zugman. "Na verdade já fui atrás disso e a maioria das dicas é tirada de um ou outro guru, que acabam virando normas só porque todo mundo repete", conta. Segundo ele, guardar entre 10% e 30% dos rendimentos mensais é uma atitude razoável. Mas esse valor depende de vários fatores, incluindo a renda mensal e o comportamento do investidor.

Compulsoriamente, o trabalhador já contribui com 30% do seu salário para o INSS, sendo que 10% são retirados do contracheque e 20% são recolhidos da empresa – esse dinheiro não é aplicado para o futuro; ele remunera os beneficiários atuais e pode ser destinado a outros fins por conta da Desvinculação das Receitas da União (DRU). E ainda há o desconto de 8% referente ao FGTS, um investimento obrigatório que rende 3% ao ano somado à taxa referencial, o equivalente a metade da poupança.

Para decidir o quanto investir hoje para ter uma aposentadoria tranquila, é necessário decidir quando (e se) pretende parar de trabalhar e qual a renda desejada. É preciso ter cautela para não traçar um plano equivocado e acabar tendo que torcer para morrer antes que o dinheiro acabe. "É preciso ter um plano e segui-lo. Eu vejo muita gente errando porque quer ficar mudando de ideia e estratégia toda hora", ressalta Zugman. "Se você tratar o mercado financeiro como um cassino, vai descobrir que a banca sempre leva o seu dinheiro", afirma, arrematando com o conselho de guardar ao menos 10% da renda e dividir o valor entre ações e renda fixa.

"Devemos começar a investir o quanto antes, mas não acho que deva ser para se aposentar mais cedo, e sim para conseguir acumular os recursos necessários para ter uma aposentadoria tranquila", defende Sandra Blanco. Ela estima que investidores com 20 anos de idade podem atingir a marca de R$ 1 milhão aos 60 se aplicarem R$ 500 por mês. Se começar aos 40, seria necessário aplicar R$ 2 mil por mês. Começando aos 50, a aplicação mensal necessária é de R$ 6 mil. Sem contar que os juros beneficiam os recursos investidos há mais tempo.

"Enxergar esse aumento da dificuldade com o passar do tempo pode ajudar a mudar o comportamento", conclui a consultora.

Você já investe para sua aposentadoria? Conte sua experiência nos comentários.




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