Economia: O fim do "vôo de galinha"

18 de julho de 2008 às 00:01
O Brasil espera um "boom" de investimentos por causa da conquista dos selos de investment grade. Após a decisão de algumas agências de classificação de riscos – entre elas duas das maiores do mundo, a Standard & Poor's e a Fitch Rating – em considerar o Brasil como um país seguro, a expectativa dos analistas econômicos e financeiros é de uma melhora significativa para todas as áreas de negócios dentro do país.

A conquista destes selos, que coloca o país na lista de devedores com baixa probabilidade de inadimplência, também garante o ingresso de recursos de grandes fundos institucionais que, por obrigação estabelecida em seus estatutos, só podem aplicar recursos em títulos públicos e privados de países certificados por pelo menos duas grandes instituições de avaliação de risco do mercado internacional. 

O país está saindo da juventude e passando para a maturidade na condução de assuntos econômicos, registrando uma melhora significativa das contas externas, estabilidade macroeconômica e aumento da confiança dos agentes econômicos, no que se refere a uma velocidade maior de crescimento do nosso Produto Interno Bruto (PIB). 

O primeiro fruto colhido após o grau de investimento foi para o Tesouro Nacional. O governo federal, após o anúncio da concessão no início de maio pela Standard & Poor's, fez a primeira captação externa de recursos com emissão de títulos. Foram obtidos US$ 525 milhões com a operação a uma taxa de juros, paga ao investidor, de 5,299% ao ano. Há mais de um ano o Brasil não vendia papéis em dólares no mercado externo.

Além da colheita do Tesouro Nacional, os bancos também já estão preparando emissões de títulos para captação de recursos externos. Agora é hora de aproveitar o momento e esse time já foi percebido pelas empresas que já haviam aberto capital que agora, assim como os bancos, estão se preparando para emitir títulos. Os gestores sabem que para captar recursos deverão fazer um novo IPO ou buscar recursos de investidores no exterior. A entrada desses recursos será inevitável.

O mercado, de maneira geral, trabalha com expectativas de queda da taxa de câmbio, por causa da entrada de capital externo. É claro que poderá haver uma diminuição nas exportações. Inevitável, porém, o mercado interno se manterá forte. A queda na taxa de câmbio fortalece o crescimento das importações - que também é favorável para a expansão da economia brasileira. Por outro lado, os empresários temem que, sem medidas para compensar a valorização do real, os exportadores poderão perder mercado no exterior, e os que produzem para o mercado interno vão enfrentar concorrência ainda mais feroz dos importados.

Em uma tentativa de conter a queda do dólar, que se apresenta abaixo de R$ 1,70, oscilando no seu menor patamar nos últimos nove anos, o governo federal anunciou um aumento do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) para os investidores externos, que subiu de zero para 1,5% para aplicações em renda fixa e para a aquisição de títulos públicos. A medida não tem o objetivo de diminuir a entrada de recursos no Brasil, porém apresenta aos investidores a necessidade de manutenção de recursos por prazos maiores que o previsto evitando, deste modo, os efeitos de aplicações de curto prazo com caráter especulativo. Esta estratégia, todavia, poderá representar redução no ingresso de recursos do exterior e, com menos divisas, haverá uma pressão menor sobre a taxa de câmbio, o que tenderia a evitar uma queda maior do dólar, ou contribuir para que a moeda norte-americana se estabilize num patamar satisfatório.

O investment grade era aguardado há muito tempo. Essa conquista é resultado de uma série de ações que vêm sendo tomadas há anos como, entre outras, o programa metas confiáveis de inflação, gestão efetiva da taxa de juros e controle fiscal.

Agora, é o fim do 'vôo de galinha'. Podemos voar mais longe. Já subimos o primeiro degrau mas ainda temos muita lição de casa a fazer para conquistarmos níveis melhores de confiança. Precisamos incrementar a velocidade da reforma fiscal, onde o maior desafio é o estabelecimento de um modelo de transição capaz de conciliar a diversidade de impostos, taxas e contribuições incidentes sobre cada setor, sub-setor e suas ramificações. Além disso, o governo precisa também focar na gestão de gastos públicos; reformas estruturais – como na legislação trabalhista –; investimentos em infraestrutura, como em estradas, ferrovias, portos e aeroportos; entre outros. O gargalo para crescer é o setor de infraestrutura e o governo precisará arrumar esta casa.

Márcio Peppe é sócio-diretor de Risk Advisory Service (RAS) da BDO Trevisan.
E-mail: marcio.peppe@bdotrevisan.com.br

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