“A crise internacional e a América Latina - com referência especial ao caso do Brasil” é o nome do estudo que o conselheiro do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro (Corecon-RJ) Reinaldo Gonçalves acaba de fazer. Ele aponta as fragilidades do Brasil na atual crise, classificando as nossas reservas cambiais de mais de US$ 200 bilhões como “blindagem de papel crepom”.
O termo foi cunhado a partir do seguinte raciocínio. O passivo externo do país quase triplicou entre 2002 e 2007, passando de US$ 343 bilhões para US$ 939 bilhões. Vale notar que parte expressiva é de curto prazo, estimada em cerca de duas vezes o nível das reservas internacionais. Trata-se fundamentalmente dos empréstimos intercompanhias, créditos comerciais e investimento em ações, títulos de renda fixa e derivativos. Isso significa que, caso o governo decida garantir certa estabilidade da taxa de câmbio, há o risco de queda abrupta das reservas internacionais em pouco tempo. E isto caracterizaria uma crise cambial.
Usando basicamente dados do Banco Central, o economista explica que os desequilíbrios de fluxos, que tendem a se agravar com um déficit na conta corrente do país a partir deste ano, afetam o mercado de divisas e as expectativas, o que pode nos levar a uma situação crítica em que as fragilidades do país reaparecerão.
“A desaceleração do comércio mundial terá um impacto imediato sobre o valor das exportações, com a redução das quantidades exportadas e a queda dos preços das commodities agrícolas e industriais. A redução dos saldos da balança comercial e, em conseqüência, da conta de transações correntes do balanço de pagamentos, implicará aumento da dependência em relação aos fluxos de capitais internacionais – necessários para o equilíbrio do balanço de pagamentos. Como essa situação será a regra dos países periféricos, as taxas de juros exigidas pelos capitais de curto prazo – e com tendência de buscar proteção nos títulos do governo americano – tenderão a se elevar, provocando, em cadeia, a elevação das taxas de juros domésticas. Em resumo: reaparecerá a vulnerabilidade externa estrutural da economia brasileira – mascarada até aqui pelos grandes saldos obtidos atualmente no comércio exterior –, agora também explicitada pelo seu lado comercial e reforçada pelo lado financeiro”, prevê Gonçalves.
A dependência das commodities é classificada por ele como “um padrão retrógrado de inserção no sistema mundial”, que marca a economia brasileira ao lado de uma “posição de fragilidade no sistema financeiro internacional”.