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Parks and Recreation: o otimismo na gestão pública

Comédia com elementos de mockumentary mostra que o serviço público não precisa ser estéril e burocrático, pode ser utilizado para mudar a vida das pessoas

Raíza Pacheco, Administradores.com,
Divulgação

Na cidadezinha de Pawnee, no interior do estado de Indiana, nos EUA, a prefeitura resolve deixar um registro de vida para as gerações futuras e fazer uma cápsula do tempo: uma caixa cheia de objetos que representam a comunidade, para ser aberta 50 anos depois. Para decidir o que entrará nas cápsulas, a vice diretora do departamento de Parques e Recreação da cidade, Leslie Knope, promove uma "convenção dos birutas", mais conhecida como a assembleia dos moradores.

Um pai com uma filha adolescente fã da coleção Crepúsculo se algema à tubulação da prefeitura afirmando que ficará lá até que os livros sejam escolhidos para a seleção. Uma jovem quer guardar as cinzas da avó na cápsula. Um senhor quer incluir as cinzas do seu gato. Uma senhora pergunta: “Por que podemos colocar a Declaração de Direitos de 1689 e esse quadro do meu cachorro não pode entrar?”. A coisa sai de controle e, no meio da discussão, alguém grita “seu comunista, volte para a Rússia!”. Se trocássemos Rússia por Cuba, a fictícia Pawnee podia ser o Brasil. A diferença é que, em Parks and Recreation, nada impede os servidores do departamento mais esquecido da cidade de escutar todo mundo, prestar atenção, e buscar uma solução que agrada a todos no final.

Concebida inicialmente como um spin-off da série The Office, Parks and Recreation tem o mesmo estilo de falso documentário, o mockumentary, em que personagens olham para as câmeras e dão depoimentos, como se estivessem sempre acompanhados por uma equipe de filmagem. A premissa mais básica – mostrar o dia a dia de um grupo de funcionários completamente diferentes em um escritório – também é a mesma, mas os tons das duas comédias são completamente opostos.

Os personagens de Parks & Rec, longe de encarar o trabalho como uma obrigação, veem no serviço público as infinitas oportunidades de ajudar a comunidade. Nesse aspecto, ninguém supera a protagonista Leslie Knope, servidora pública que dorme apenas 4h por dia, ama brainstormings e coloca o trabalho como uma das prioridades de sua vida, logo após amigos e waffles. Para Leslie, os habitantes de Pawnee que gritam por causa de balanços quebrados ou se revoltam quando descobrem que os pinguins do zoológico são gays estão apenas "mostrando que se importam de uma forma barulhenta". Em seu mundo, o "serviço público é sexy".

É assim que a série mostra uma equipe que é otimista no pior dos cenários. Em certo episódio, quando a cidade de Pawnee se atola em dívidas e uma dupla de auditores estaduais é convocada para evitar que o município declare falência, a solução proposta é "desligar" o governo e fechar todos os parques, mas Leslie Knope não se dá por vencida. Ela propõe uma alternativa ousada: retomar um antigo festival de colheita que costumava movimentar a economia da cidade inteira e atrair turistas, com a promessa de que, se o evento não der certo, todos os funcionários de seu departamento abrirão mão de seus empregos. "Pense grande ou vá pra casa", é o que afirma Leslie Knope. Seu lema é também um pouco do que precisamos. Parks and Recreation mostra que, em qualquer administração, compromisso, otimismo, competência e bom humor são sempre bem vindos.