A captação de recursos pelas empresas está paralisada, tanto no mercado interno quanto no front, porque os custos dessas operações estão elevados, em conseqüência da crise internacional. O mais recente exemplo ocorreu com a Oi (ex-Telemar), que informou ter cancelado emissão de eurobonds (títulos de dívida emitidos no exterior) no valor de US$ 1,5 bilhão. O dinheiro seria utilizado para concluir a compra da Brasil Telecom, para formar o que o mercado chama da "supertele".
A decisão, conforme a própria companhia, foi motivada pelo "cenário adverso" dos negócios globais. "A companhia vai analisar outras alternativas de captação de recursos para concluir a futura aquisição do controle da BrT, que ainda depende de aprovação da alteração no Plano Geral de Outorgas e de anuência prévia da Agência Nacional de Telecomunicações", comentou a companhia, por meio de nota.
Com a postura da empresa, ficou claro, mais uma vez, que nem as grandes companhias conseguem escapar do impacto causado pela aversão a risco verificada nos últimos meses. "A melhor alternativa é esperar um fortalecimento dos negócios. É preciso que as empresas interessadas em fazer aquisições, por exemplo, ou esperem, ou utilizem recursos próprios de seu caixa. Não dá para tirar coelho da cartola nesse momento ruim pelo qual passamos" , avaliou o gestor de recursos da Umuarama Corretora, Rafael Moisés.
Por isso, o consenso é que companhias maiores sofrem menos do que as menores. Todos os tipos de captação, sejam eles tomados com emissão de títulos de dívida aqui ou no exterior, sejam obtidos por meio de empréstimos e financeiros, estão mais caros. Quem tem mais dinheiro em caixa, portanto, consegue driblar ao menos parte da dificuldade.
Para Alex Pardellas, do Banco Banif, o cancelamento anunciado pela Oi, por exemplo, "de forma alguma" inviabilizará a consolidação das duas empresas de telecomunicações. "Caso a Oi não queira optar por outra forma de captação, ela tem recursos em caixa suficientes para concluir a aquisição", comentou. Na avaliação da corretora Ativa, a situação tem um impacto marginalmente negativo na ex-Telemar. Segundo a instituição, embora o desembolso total relativo à aquisição da Brasil Telecom seja de R$ 12,2 bilhões - dos quais R$ 5,8 bilhões são referentes ao controle, R$ 3,1 bilhões de tag along para as ações ordinárias (ONs) e R$ 3,3 bilhões para a recompra das PNs (manobra já realizada) -, a empresa tem linhas de financiamento no mercado interno de R$ 8 bilhões.
"O desembolso referente ao bloco de controle está previsto para ocorrer até o fim do ano, enquanto a oferta das ONs deverá ser realizada em março de 2009. Portanto, a empresa não enfrentaria dificuldades no curtíssimo prazo", disse a instituição.
"O momento não está bom nem para lançamento de títulos de dívida e nem para oferta de ações. Procurar instituições financeiras para fazer aportes também está mais caro", concluiu Moisés, da Umuarama.
Aquém do esperado
Outro importante exemplo de grande companhia afetada pela aversão a risco vem da Companhia Vale do Rio Doce. Em julho, a mineradora informou que faria uma oferta global de papéis, com o intuito de arrecadar cerca de US$ 15 bilhões. Foram distribuídos aproximadamente 257 milhões de ações ordinárias, e mais 189 milhões de preferenciais classe A.
Cerca de 30 dias depois, a empresa divulgou comunicado em que informava ter captado R$ 19,4 bilhões com a operação, ou cerca de US$ 12,5 bilhões - aproximadamente US$ 2,5 bilhões a menos do que o pretendido. Somente nos mercados internacionais, foram negociados 63,5 milhões de ações preferenciais classe A, e mais 80 milhões de ordinárias.
Utilizando o resultado aquém do esperado como exemplo, a Light S.A. optou, também na semana passada, por cancelar o pedido de registro de oferta pública de distribuição secundária de suas ações ordinárias. Por fim, consta na Comissão de Valores Mobiliários a interrupção da emissão de R$ 1,5 bilhão em debêntures (títulos da dívida) que seria feita pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico. O pedido de bloqueio foi feito pelo próprio banco.