Empresas do futuro

Nos anos 60, a Coréia do Sul era só mais um país pobre da Ásia. Hoje, quatro décadas depois, a nação oriental virou sinônimo de tecnologia e desenvolvimento nas áreas de eletroeletrônicos, informática, automóveis e outras. Qual foi a mágica? Investimento básico, em educação e infra-estrutura, e incentivo a empresas inovadoras, que desenvolvessem produtos de ponta. No Tigre Asiático, as universidades passaram a receber recursos da iniciativa privada e o governo deu apoio à formação de novas companhias. O Brasil, 45 anos depois da Coréia, está dando os primeiros passos nesse sentido. Na semana passada, o BNDES anunciou que vai criar o programa de Capital Semente (Criatec), com orçamento de R$ 80 milhões para dar suporte financeiro e gerencial a pequenas empresas das áreas de tecnologia da informação, biotecnologia, novos materiais e nanotecnologia. Outro dado também começa a animar: segundo a Associação Brasileira das Empresas de Venture Capital (ABVCAP), cerca de R$ 500 milhões já foram aplicados nos últimos três anos em empresas de inovação no País. É um bom sinal. Mas houve quem lançasse a semente bem antes do governo ou dos fundos de investimento. São cientistas, pesquisadores e executivos que, apesar do cenário desfavorável, acreditaram em seus projetos e despontaram globalmente com produtos revolucionários.

São desbravadores como Ozires Silva que, aos 75 anos, apostou no trabalho incansável dos cientistas Joaquim Coutinho Netto e Fátima Mrué. O criador da Embraer lançou-se em vôo solo como presidente do conselho e acionista da empresa PeleNova, cujo principal produto é o Biocure, um curativo feito à base de uma biomembrana com poder de angiogênese. Traduzindo: um curativo que intensifica a vascularização sangüínea, regenera as células e acelera a cicatrização. O desenvolvimento da biomembrana, extraída da flora brasileira, consumiu nove anos de estudos. A PeleNova vende o medicamento, indicado para grandes feridas (caso dos diabéticos, por exemplo), para hospitais e secretarias de saúde.

Fatura, atualmente, cerca de R$ 3 milhões ao mês e reinveste grande parte dessa receita em pesquisas. “Estamos, neste momento, diante de uma grande revolução”, conta Ozires Silva. “Uma dúzia de cientistas está debruçada sobre o princípio ativo da biomembrana. Até agora, tínhamos acesso apenas à materia-prima original. Ao descobrir a proteína da película, poderemos usá-la em pomadas, cremes, cosméticos. Aí o mundo se abre para nós.” A PeleNova aguarda apenas o registro de patente nos EUA e na Europa, que deverá sair neste ano, para começar a explorar o mercado externo. E pensar que Ozires Silva recebeu vários “nãos” quando bateu à porta de investidores buscando recursos para a PeleNova. No final, reuniu oito amigos pessoais, explicou os projetos e os transformou em sócios.

O farmacêutico Giuseppe Mario Merenna não conseguiu oito amigos para dar forma ao seu projeto. Então, resolveu, ele próprio, bancar o sonho. Dono do laboratório Biomédicin, de São Paulo, ele se dedicava nos anos 90 a comprar substâncias importadas para fabricar uma linha própria de cosméticos. Um desses componentes eram as lipossomas. “São nanopartículas que têm capacidade de absorver o princípio ativo de um produto e penetrar com ele na pele, na profundidade que for necessária”, explica Merenna. Fascinado pela eficácia da substância (um creme para remover edemas consegue, com os lipossomas, o efeito desejado em 15 dias, enquanto o tradicional leva 60), o farmacêutico dedicou-se a estudar a tecnologia. “Gastei US$ 150 mil do meu próprio bolso”, lembra Merenna. Até que um dia conseguiu fazer as lipossomas. Hoje, fabrica a substância em escala industrial – feito conquistado apenas por sete empresas no mundo. “É um mercado de US$ 2 milhões ao ano no Brasil”, diz Merenna.

A grande maioria desses negócios, seguindo a triste estatística das micro e pequenas empresas, morre antes de completar um ano de vida. É a escassez de recursos a principal causa dos óbitos corporativos. “O Brasil não fica atrás de nenhum país em conhecimento científico. O que falta é verba”, critica Ozires Silva. Mas, de acordo com Marcus Regueira, sócio da FirCapital (gestora de venture capital) e presidente da ABVCAP, esse cenário tende a mudar no biênio 2007/2008. “Nos últimos anos, China, Índia e Leste Europeu dominaram o interesse do capital internacional em inovação. Só que a relação entre investimento e retorno não tem sido tão interessante. O Brasil, então, surge como excelente opção”, diz Regueira. A própria ABVCAP está capitaneando um road-show mundial para mostrar a excelência tecnológica do País. Por aqui, Regueira, com sua FirCapital, já aplicou R$ 100 milhões em 16 companhias inovadoras.

Assim como a FirCapital, a Votorantim Novos Negócios especializou-se em garimpar projetos de inovação. Um deles foi a Scylla, fabricante de softwares de mapeamento genético. É uma empresa de bioinformática que nasceu na esteira dos projetos genoma no Brasil. Hoje, a Scylla vende softwares principalmente para o agronegócio. O programa mapeia o seqüenciamento e extrai com velocidade as características do gene que poderão aperfeiçoar a fruta ou o grão, por exemplo. Sem o software, esse processo leva tempo. “Estamos fechando, neste momento, um contrato em Portugal”, conta João Meidanis, fundador da Scylla. “É nosso primeiro passo internacional.”

Uma vez no mercado externo, o caminho para novos contratos e captação de recursos se abre com mais rapidez. O empresário Luiz Chacon, dono da SuperBac, especializada em tecnologias de ponta para o meio ambiente, percorreu esta trilha. No final de 2006, após fechar alguns acordos no Exterior, a SuperBac se associou com o maior fabricante de produtos biotecnológicos dos EUA. Vitaminada pela união, a empresa se prepara para lançar o primeiro fertilizante orgânico. “Será possível tratar grandes culturas e conseguir um nível de produção e qualidade igual ao proporcionado pelos agrotóxicos, mas sem danos à saúde e ao meio ambiente”, diz Chacon. Outra com grande potencial de alavancar seus negócios pelo mundo é a GMReis, de Campinas (SP). Ela criou o Sponjosa, um osso sintético que pode substituir, nos implantes, os ossos de doadores (freqüentemente em falta). “Não tenho notícia de nenhum país que tenha desenvolvido algo tão bom quanto esse osso”, diz Éverson Giriboni, ortopedista do Instituto Affonso Ferreira, de Campinas, que participou do desenvolvimento do produto e realizou – com êxito – a primeira cirurgia com o implante, há dois anos.

Capacidade intelectual existe, o governo despertou para a necessidade de apoiar a inovação e o investimento privado está aumentando. Segundo Sergio Risola, presidente do Cietec (Centro Incubador de Empresas Tecnológicas), cresce o interesse de grandes empresas pela terceirização de pesquisas e desenvolvimento. “E isso pode fomentar as companhias especializadas em inovação.” No próprio Cietec há vários exemplos dessa tendência. A procura por companhias criadas dentro da incubadora fez a entidade faturar R$ 28,7 milhões, 12% a mais que no ano anterior. Boa parte desse aumento se deve a empresas novatas, donas de produtos criativos.




Compartilhe



Mais notícias

Leia mais notícias

Comentários


A economia mundial irá se recuperar em 2009?

Completamente.
Moderadamente.
A economia não irá se recuperar em 2009.





apoio AngradHightechADM Shop
Apresentação | Anuncie | Política de Privacidade | Contato
© 2003-2007. Administradores - O Portal da Administração.