Enquanto o mercado financeiro surfou durante anos em uma onda de valorização, o número de empresas com menor valor de mercado e volume de negócios, conhecidas como small caps, foram consideradas uma mina de ouro. O pressuposto era de que o preço das ações estaria barato e, portanto, oferecia altas chances de ganho. Por esse motivo, a procura por essas supostas “pechinchas” há cerca de um ano foi tanta que o valor dos papéis disparou. Nessa onda, a oferta de fundos de investimento voltados a apenas esse tipo de ações também cresceu.
A crise, no entanto, mudou essa história. Nos 50 dias que se seguiram ao seu lançamento, o Índice BM&F Bovespa Small Cap registrou desempenho no mínimo dramático. O indicador amargou perdas de 39,1% desde 1º de setembro, enquanto o principal índice do mercado paulista – o Ibovespa – acumulou desvalorização de 29,2%. A situação é ainda pior para algumas ações incluídas na seleção. A queda de certos papéis no período supera 80%.
É o caso das ações ordinárias da Agra Empreendimentos Imobiliários, que despencaram 83,4% desde 1º de setembro. As da Abyara Planejamento Imobiliário recuaram 73,7%, enquanto as da Brasil Ecodiesel caíram 72,8%. Os números são da consultoria Economática.
Diferentemente do Ibovespa, que tem como critério de inclusão o volume de negócios das ações, no Índice Small Cap o que conta é o valor de mercado das empresas. São elegíveis para integrar o índice as ações das empresas com menor valor que, juntas, representarem no máximo 15% do valor de mercado de todas as listadas na Bovespa. Além disso, elas precisam ter registrado presença em 100% dos pregões e têm de estar entre as que representam 98% dos negócios e do volume financeiro da Bolsa. Atualmente, o índice é composto por 71 ações.
O nome do maior problema das small caps, por contraditório que pareça, é o mesmo que leva à queda das ações de grandes companhias, como Petrobras e Vale: liquidez, ou a rapidez de se converter um investimento em dinheiro vivo. As chamadas “blue chips” sofrem porque, como são as mais negociadas, desfazer-se delas é relativamente simples. Com as vendas em massa, as cotações são pressionadas para baixo. No caso das small caps, o problema é o inverso. Elas têm pouca liquidez. Por isso, quando precisam de dinheiro, os investidores vendem estes papéis a qualquer preço, como se estivessem em liquidação.
Estrangeiros
Boa parte desse movimento tem os investidores estrangeiros como responsáveis, principalmente no caso das ações de empresas de construção civil. “Estes papéis são de IPOs (ofertas públicas iniciais) muito recentes e foram cotados a preços elevados”, afirma o analista da corretora Alpes, Fausto Gouveia. Em média, os estrangeiros ficaram com 70% das ações distribuídas dos IPOs. Agora, são eles que correm atrás de liquidez para cobrir os rombos em casa, causados pela crise financeira originada nos Estados Unidos.
Além disso, o sócio da consultoria Beta Advisors Rogério Betti destaca o papel dos fundos de investimentos com vocação para ações de segunda e terceira linhas. “Diante dos resgates solicitados pelos clientes, os fundos são obrigados a se desfazer dos papéis para entregar o dinheiro, fazendo sobrar oferta”, explica. Neste ano, a categoria de fundos small caps registra rentabilidade negativa de 51,95%, contra retorno negativo de 43,39% dos fundos de ações como um todo.
Os especialistas destacam que as ações das empresas menores tenderão a levar mais tempo para recuperar os prejuízos do que as de empresas grandes e sólidas. “É nestas em que se concentra o fluxo dos investidores”, diz Betti. “Todas ações estão muito baratas agora. Se precisar optar por um papel, prefira alguns como os da Petrobras e da Vale. Eles sairão na frente.”