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Downton Abbey: o que uma série de época ensina sobre abraçar o futuro

Mais do que um melodrama profundo e bem estruturado, Downton Abbey ensina sobre a necessidade de se adaptar à mudança

Marcela Agra, Administradores.com,
Divulgação

Quando o Titanic afundou, uma ideia de que os seres humanos seriam invencíveis afundou com ele. Não se pode negar que a modernidade trouxe avanços antes inimagináveis e nos proporcionou a sensação de que nossa inteligência e inventividade podem tudo. Mas é verdade também que nossos avanços trouxeram incômodos dilemas e mudanças, com os quais muitas vezes não gostamos de lidar. Ansiamos por descobrir, mas relutamos em enfrentar os caprichos e a vontade de um senhor impetuoso chamado Tempo.

Este é o tema central de Downton Abbey: a chegada de um novo tempo e o que isso exige de nós. A história narra a vida do Conde de Grantham e de sua família, formada por esposa e três filhas, além de sua mãe, que vive na região. Tipicamente ingleses, os aristocratas tomam chá da tarde, caçam e levam vidas aparentemente tranquilas no campo, com noites regadas a vinho e jantares opulentos.

Em contraste à essa privilegiada situação social, vivenciamos também as rotinas e dificuldades das pessoas que servem naquela grande casa. O mordomo Carson personifica a tradição, mas alguns dos funcionários mais jovens desafiam o status quo. Entre os aposentos familiares e os destinados aos serventes, não faltam intrigas, esquemas e fofocas. A série é cheia de revelações de segredos e reviravoltas inesperadas que podem lembrar uma (boa) novela. Mas não é nada disso. O enredo sempre volta para o tema da passagem do tempo e os desafios trazidos pelo século XX. As lições são tão relevantes quanto atuais.

A primeira temporada tem início em 1912, com o naufrágio do Titanic. O evento de magnitude internacional atinge intimamente a abadia de Downton: um primo da família, e herdeiro da propriedade, estava a bordo e falece. Como Lord Grantham só teve filhas mulheres, pela lei britânica, nenhuma delas pode herdar sua propriedade e título, o que o leva a buscar o próximo parente. Surpreendentemente, o próximo na linha de sucessão, Matthew Crawley, não é um aristocrata, mas um advogado, membro da "terrível" classe média.

Quando ele chega a Downton, com sua mãe, vemos dois mundos se chocarem. Matthew tem visão de negócios, quer arrendar partes do grande terreno, investir em uma produção mais organizada de gado e porcos, e transformar aquela grande propriedade em um agronegócio. Mas Lorde Grantham não entende essa lógica, pois foi ensinado que seu dever era cuidar daquele vilarejo e preservar seus moradores, não exigindo deles produtividade nem mais do que o cuidado com as terras cedidas para sua moradia e sustento. O grande problema desse pensamento é que a propriedade nunca seria autossustentável, dependendo sempre do dinheiro da família Grantham.

Com a chegada da Primeira Guerra, o dilema se intensifica. Grandes casas inglesas vão desmoronando, perdem herdeiros, não conseguem sustentar o modelo antigo. Vemos Downton Abbey se transformar em casa de apoio a soldados feridos pela guerra e perder pessoas queridas. As mulheres na série passam a assumir papéis antes impensados, defendendo seus direitos, tomando posição de protagonismo. O assunto dos ainda grandes jantares e festas é sempre o quanto o mundo está mudando. E as consequências das mudanças na série são divergências políticas, amores entre aristocratas e serventes, disputas de poder entre tradição e modernidade.

Vencido por finalmente enxergar as marcas da guerra e dos avanços sociais, Lorde Grantham aceita a proposta de seu herdeiro Matthew. E, dali em diante, vê-se obrigado a aceitar cada vez maiores mudanças – sociais, econômicas, políticas –, até dentro de sua própria casa. A filha mais velha dos Grantham encontra em sua empregada, uma confidente e amiga. A família de aristocratas recebe como genros um chofer comunista e um advogado da classe média, e com eles a inevitável certeza de que os tempos mudaram. Para melhor.

Ao longo das seis temporadas, acompanhamos a família em uma jornada de aceitação do novo mundo em que vivem. Em um ponto da história, vemos uma das empregadas da casa dar à luz no quarto de sua patroa, de quem se tornou amiga. Lorde Grantham comenta que sua tradicional mãe acharia aquilo escandaloso. “Acho que quanto mais adaptáveis somos, maiores são as chances de sobrevivermos ao futuro”, é a resposta emblemática de sua esposa, no episódio que conclui a série.

Mais do que um melodrama profundo e bem estruturado, Downton Abbey ensina sobre a necessidade de se adaptar à mudança. Naquele universo, tal qual no mundo dos negócios, quem resiste a ela morre, mas quem olha para frente, prospera. Ao longo da narrativa, vemos grandes casas aristocráticas caindo, mas a família Grantham resiste, pois entende que para frente é que se anda.