Brasília - A política econômica norte-americana não deverá sofrer grandes mudanças com a posse do democrata Barack Obama na Presidência. A afirmação é da coordenadora do Centro de Estudos do Comércio Exterior do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, Lia Valls Pereira.
Segundo a economista, em tempos de crise financeira, os Estados Unidos sempre adotaram medidas protecionistas, independentemente do partido que esteja no poder. Com Obama não será diferente, afirmou.
Entretanto, como nos Estados Unidos o Congresso é que decide toda a política de comércio, o setor industrial deverá ganhar mais atenção com a maioria democrata no Senado e na Câmara, observou a economista . "Um Congresso democrata tenderia a atender com mais facilidade as demandas de proteção dos variados setores da indústria americana."
Ao comentar como ficariam as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, levando em consideração o fato de Obama ter vencido a eleição em meio à crise financeira internacional, Lia Valls disse que os impactos que o país eventualmente venha a sofrer também não dependem de quem se está no poder dos EUA.
Um exemplo é a queda de 20% para 15% da parcela do comércio brasileiro negociada com os norte-americanos. Segundo Lia, apesar de os Estados Unidos ainda serem o principal parceiro comercial do Brasil, a queda representa uma estratégia do mercado brasileiro para diversificar seus contatos de comércio. "As exportações brasileiras cresceram nesse período, mas descobrindo novos mercados, e isso é positivo."
A economista lembrou que o fato de o Brasil ter perdido espaço para concorrentes como a China, no setor de calçados, também contribuiu para reduzir o comércio com os Estados Unidos. Além disso, "nos últimos anos, o que cresceu foram as exportações de commodities [brasileiras], e os Estados Unidos são mais compradores de manufaturas brasileiras", acrescentou a economista.
Lia apontou ainda um desafio para Barack Obama: "Conseguir gerar crescimento de renda [nos EUA]. Não é impedindo o investimento fora [dos Estados Unidos] que ele conseguiá garantir empregos no país." Para a economista, este é o maior desafio para Obama. Ela lembrou que, na campanha, discutiu-se muito a questão da saída de mão-de-obra do país e ressaltou que há muitas associações americanas contra empresas que investem fora dos Estados Unidos, por considerarem que isso é desperdício de renda e emprego para seu próprio país. Para Lia Valls, a solução é estimular investimentos internos.