Ética: sua origem e influência no mundo dos negócios

Nos últimos tempos, o tema ética entrou no nosso cotidiano de forma mais acentuada. Ouvimos falar em ética no governo, nas empresas, e em relação ao comportamento dos indivíduos. Fazemos nós mesmos julgamentos sobre a ética das pessoas, dizendo que uma pessoa é ética, ou um determinado comportamento é ético. Atualmente, é impossível nos isolarmos desse conceito ou ignorarmos esse tema em nossas vidas tanto pessoais e profissionais, como na sociedade em que vivemos.

Particularmente, não acredito que esse tema não fizesse parte da vida das pessoas no passado. Acredito que com os meios de comunicação tão avançados, hoje se discute os temas relevantes para a sociedade de forma mais ampla e fluida. O tema ética já é discutido há muito tempo. Platão, que viveu de 428-348 a.C., é identificado como o primeiro grande filósofo grego a tematizar em sua obra as principais questões éticas que chegaram até nossos dias. Em seus diálogos iniciais, chamados “socráticos”, Platão denota que Sócrates levanta as questões éticas fundamentais que a filosofia iria discutir e ainda discute hoje em dia, tais como o entendimento dos conceitos de ética e moral e os critérios para a sua aplicação em situações concretas com as quais nos confrontamos, nossa coerência na aplicação dessas idéias e as razões e argumentos a que devemos apelar para justificá-las.

A ética desperta muito interesse nos dias atuais, sobretudo porque diz respeito diretamente à nossa experiência cotidiana, levando-nos a uma reflexão sobre os valores que adotamos, o sentido dos atos que praticamos e a maneira pela qual tomamos decisões e assumimos responsabilidades. Hoje, por exemplo, a grande maioria das profissões tem seus códigos de ética, numa tentativa de sistematizar os princípios de orientação para seus profissionais. No entanto, sentimos que cada vez mais vivemos uma crise ética que vai desde a situação política do país, passando por questões de corrupção na sociedade e no governo, até problemas de relacionamento familiar.

A palavra ética origina-se do termo grego ethos, que significa o conjunto de costumes, hábitos e valores de uma determinada sociedade ou cultura. Os romanos o traduziram para o termo latino mos, moris (que mantém o significado de ethos), dos quais provem moralis, que deu origem à palavra moral em português.

Como a ética se incorpora no mundo profissional, empresarial, corporativo nos dias atuais? Quando fazemos um julgamento se um comportamento é ético ou não, estamos avaliando, sobretudo, baseado na nossa formação familiar, social e profissional. Não temos um código de ética familiar escrito; ele é implícito e observado pela nossa conduta. Não temos um código de ética social amplo. Apesar de a família estar inserida na sociedade, mesmo assim, nosso código de ética social tem tomado sua forma normativa através do nosso cotidiano.

Observamos essa normatização nas convenções de condomínio, associações de bairro, estatutos das igrejas, entre outros. Temos normas de condutas sociais amplas expressas nas leis que regulamentam nosso país; assim como as expostas pelas instituições sociais como as ONG’s, que em muitos casos já evoluíram e foram adotadas por empresas e governos.
Entretanto, em relação à ética profissional propriamente dita, temos já há algum tempo os códigos de ética profissional. Nesses casos, eles são referentes à ética e conduta, pois prescrevem comportamentos a serem observados em certas circunstâncias. Como exemplo, podemos citar o código de ética e disciplina da OAB, promulgado em fevereiro de 1995, e o do Conselho Federal de Contabilidade, atualizado em outubro de 1996, entre tantos outros.

Atualmente, estamos vendo um movimento recente de adoção por parte das empresas e corporações de códigos de ética próprios. Nitidamente, as leis de um país que regem uma sociedade e os códigos de ética profissional não foram suficientes para que os comportamentos dos indivíduos nas empresas refletissem atitudes éticas. Atitudes impróprias dentro de uma empresa, em nome da empresa, têm levado varias companhias a situações desagradáveis e algumas vezes catastróficas. O tamanho dessas empresas impossibilita o acompanhamento de todos de forma direta. Harmonizar o comportamento dos profissionais de uma organização de acordo com seu crescimento é um desafio muito grande, especialmente, sob a ótica da ética nos negócios.

Nos dias atuais, o comportamento ético dentro das empresas faz parte de um assunto ainda maior e cada vez mais importante denominado governança corporativa. Cada vez mais, as organizações estão sendo requeridas a adotarem boas práticas de governança que são divididas em quatro componentes, sendo os três primeiros principalmente relacionados à relação da empresa com seus acionistas. A prestação de contas pela administração; a transparência das informações prestadas; a equidade no tratamento desses acionistas e, por último, a responsabilidade corporativa; que objetiva a relação da empresa como uma entidade inteira e completa, desde a sua relação com os próprios funcionários, bem como com os fornecedores, clientes, governo, entidades, instituições de classe, organizações não governamentais, e até o próprio meio ambiente e a sustentabilidade.

Nesse contexto da governança corporativa é que a ética surge e toma vulto. As empresas estão sendo influenciadas a adotarem uma governança corporativa forte; e a ética dos profissionais é um dos seus principais componentes. Naturalmente, é impossível dissociar qualquer elemento da governança dos seus agentes que são os próprios profissionais da empresa. É dessa forma que o código de ética e conduta entra na vida das empresas, para sustentar o comportamento dos indivíduos e conseqüentemente a governança corporativa instituída.
Analisando de maneira mais abrangente, não somente as empresas, mas qualquer organização deve ter um código de ética e conduta. Talvez, as empresas maiores, com maior visibilidade ou de caráter público aparentem precisar mais de códigos, inclusive escritos.

Entretanto, isso não tira a necessidade de que organizações menores e até as familiares também tenham seus códigos, mesmo que eventualmente não escritos, mas concebidos de forma clara pelo seu fundador, proprietário ou gestor principal, para que os demais indivíduos possam atuar de forma harmônica e em sintonia com uma conduta ética profissional.

No mundo corporativo, algumas empresas como Wal-Mart, DaimlerChrysler, Toyota, e as brasileiras Petrobras e Vale já apresentaram seus códigos de conduta ética. Entre muitas outras.

É de se notar que esse tema, que já permeia a vida da humanidade há tempos, venha, principalmente nesta ultima década, fazer parte tão profunda da vida corporativa através de sua estrutura própria de governo. Enquanto as empresas se esforçam para adotar modelos de governança corporativa cada vez mais sólidos, incluído códigos de ética, resta para nós a oportunidade de crescimento próprio e de reflexão pessoal sobre ética. Para essa reflexão, faço uso das considerações do professor doutor em filosofia Danilo Marcondes, que baseado na reflexão de Sócrates sobre ética, em seu livro Textos Básicos de Ética de Platão a Foucault, diz: “Talvez, a lição socrática esteja principalmente na importância do desenvolvimento de uma consciência moral, de uma atitude reflexiva e crítica que nos leve a adotar comportamentos mais éticos, e não na formulação de um saber sobre a ética e seus conceitos”.

Jarib Fogaça
é sócio de auditoria da KPMG Brasil e líder do escritório da empresa em Campinas.




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