Portugal tem, pelo menos, uma cidade inteligente. Évora foi classificada
pelo Fórum das Cidades Inteligentes, de Nova Iorque, como uma das 21 cidades
mais inteligentes do mundo, em face das acções que tem levado a cabo no
domínio da generalização da banda larga. Agora resta esperar por Janeiro,
mês em que serão anunciadas as sete magníficas, e fazer figas para que Évora
tenha um bom QI POR CRISTINA PEREIRA
»» A tradicional imagem de Portugal como o país da cauda da Europa, tantas e
tantas vezes devolvida por meio dos vários rankings que se dedicam a
classificar os países nos mais diversos indicadores, sofreu neste final de
ano um sério abalo. Évora é, oficialmente, uma das 21 cidades mais
inteligentes do mundo. É uma das quatro cidades europeias – em conjunto com
as britânicas Londres e Manchester e a sueca Vasteras – escolhidas para
concorrerem àquela distinção em 2006. Este é apenas o primeiro crivo por que
passam as cidades de todo o mundo que visam ascender à categoria de uma das
sete mais inteligentes do globo.
Esta é uma iniciativa anual do Fórum das Cidades Inteligentes (ICF -
Intelligent Community Forum), uma instituição que se dedica a fomentar a
utilização de tecnologia de banda larga como estímulo para o desenvolvimento
económico por parte das comunidades, quer de grande, quer de pequena
dimensão, independentemente de se localizarem no mundo desenvolvido ou em
desenvolvimento. O projecto foi submetido ao ICF pela Câmara Municipal de
Évora (CME) e pela Universidade daquela cidade, com o apoio do grupo
Adventus. Na sua base está a aplicação de tecnologias digitais para
impulsionar os mecanismos tradicionais nas áreas do turismo e da produção de
alimentos.
Boa classificação em todos os indicadores O processo de selecção das cidades
inteligentes desenvolvido pelo ICF baseia-se em cinco indicadores, a saber:
generalização significativa de comunicações em banda larga em empresas,
instalações governamentais e residências; formação e atracção de
trabalhadores do conhecimento; promoção da democracia digital, assegurando
que todos os sectores da sociedade beneficiam da revolução da banda larga;
fomento da inovação através de programas governamentais; e aposta no
marketing territorial.
Como sublinha o ICF, a distinção das sete cidades não implica que elas sejam
excelentes na totalidade dos cinco critérios, mas que demonstrem excelência
pelo menos num deles. Mas, segundo diz o professor Soumodip Sarkar, director
do Centro de Estudos e Formação Avançada em Gestão (CEFAG), da Universidade
de Évora, a cidade “tem uma posição forte em todos os indicadores”. Destaca,
no entanto, dois aspectos: a ligação em banda larga e a promoção da
democracia digital. Em contrapartida, considera que há ainda trabalho a
fazer no domínio do “marketing territorial, já que muitas pessoas, não só de
fora, mas mesmo dentro de Évora, desconhecem os diferentes aspectos e
serviços oferecidos pela Évora digital. Tem de haver um forte esforço de
marketing, acompanhado por iniciativas digitais como a realização de uma
semana da cidade digital, por exemplo”.
O Chefe da Divisão de Organização e Gestão Informática da CME, Emanuel
Serralha, sublinha, por seu turno, que “não foi necessário fazer nada de
especial para a candidatura”. E explica: “Já ao longo da última década
acumulámos muito trabalho na área das TIC: o Portal evora.net, que aloja
actualmente cerca de 300 organizações e empresas com actividade em Évora, a
Intranet do Município, a Rede de Autarquias, os Espaços Internet gratuitos,
a Loja dos Sonhos”… Quanto aos critérios que o ICF leva em conta nas
candidaturas, considera que são “os parâmetros de cariz tecnológico os que
constituem o nosso ponto forte. São as componentes ligadas ao
desenvolvimento estratégico, aquelas que exigem, da nossa parte, um esforço
suplementar e consistente no tempo, em particular a aposta no marketing
territorial”.
Não só em Évora, mas em Portugal de uma maneira geral, o que falta é “um
branding arrojado de cidade”, opina Jorge Nascimento Rodrigues, responsável
do grupo Adventus. Este branding consistiria num “conceito simples de cidade
mais atraente em termos internacionais” e num “marketing realizado em inglês
ou outras línguas chave, tendo em conta os objectivos de atracção de
turistas e investidores, nomeadamente espanhol e chinês”.
A primeira cidade Património da Humanidade que é simultaneamente inteligente
Foi muito por “culpa” do grupo Adventus, que tem uma parceria com o ICF já
há alguns anos, que surgiu esta candidatura de Évora ao prémio. Quando, em
2004, se discutiu a ideia de envolver cidades da Península Ibérica naquele
concurso, o grupo Adventus “começou a analisar várias opções em Portugal e
Espanha”, refere Jorge Nascimento Rodrigues. E a escolha acabou por recair
sobre Évora, fundamentalmente por três razões: “Ter sido a primeira cidade
portuguesa a desenvolver uma estratégia de cidade digital a partir de 1996,
ser uma cidade Património da Humanidade e ter desenvolvido um projecto de
Cidade do Conhecimento, liderado por Carlos Zorrinho e António Serrano”,
acrescenta.
Soumodip Sarkar também considera que o facto de Évora ser cidade Património
da Humanidade foi “uma enorme vantagem” em comparação com as outras
candidatas. “Posso estar errado”, salienta, “mas acredito que é a primeira
cidade Património da Humanidade a receber esta honra”. Como explica o
professor, implementar uma infra-estrutura de banda larga, trabalho que
frequentemente envolve instalar quilómetros de cabos de fibra óptica, “numa
cidade antiga como Évora é muito dispendioso e não é uma tarefa fácil”.
Assim, sublinha, “neste domínio, o que foi alcançado na ligação dos vários
edifícios por banda larga foi realmente um triunfo”.
Foi assim que, em Junho de 2005, na conferência Internacional do ICF em Nova
Iorque, a equipa constituída por Soumodip Sarkar, Emanuel Serralha e Jorge
Nascimento Rodrigues apresentou a candidatura ao Concurso de 2006. Como
suporte no terreno, a candidatura contou com 30 projectos digitais em curso
na cidade e na região, 20 dos quais plenamente operacionais. Soumodip Sarkar
foi o responsável pela apresentação da face digital de Évora, trabalho que
envolveu a “recolha de informação das diferentes formas pelas quais a cidade
está ligada digitalmente, a análise de toda esta informação e a sua
apresentação na candidatura de uma forma coerente e apelativa”, explica o
professor.
A visita de John Jung
Entretanto, John Jung, presidente do ICF, visitou Évora no passado dia 12 de
Dezembro, tendo sido recebido por José Ernesto d’Oliveira, presidente da
CME. John Jung tomou contacto, no terreno, com vários projectos de
tecnologias de informação e comunicação promovidos pela autarquia, como o
Espaço Internet – que oferece acesso gratuito a computadores ligados à
Internet –, os recursos multimédia do Posto de Turismo, o dispositivo
wireless da Universidade de Évora e o autocarro “Loja dos Sonhos”, entre
outros.
O presidente do ICF foi ainda convidado de honra na cerimónia de inauguração
da rede de banda larga sobre fibra óptica na cidade, assinalada com uma
videoconferência no Colégio Luís Verney, da Universidade de Évora, e
discursou no seminário “Empreendedorismo, Inovação e Cidades Digitais”,
realizado pelo CEFAG.
Soumodip Sarkar acredita que John Jung “ficou muito impressionado com aquilo
que viu”, ao passo que Emanuel Serralha sublinha a impressão “muito
agradável e muito positiva” que o presidente do ICF lhe causou. “Em tão
pouco tempo”, destaca, “conseguiu fazer uma leitura bastante correcta dos
nossos projectos e incentivou-nos, transmitindo ideias e perspectivas de
evolução”.
Optimista, Soumodip Sarkar acredita que Évora “tem uma forte possibilidade
de voltar a ser seleccionada para o Top 21 em 2006, senão para o Top 7
mundial”. Afinal, a cidade conseguiu ser seleccionada para uma “short list”
de 21 cidades entre 400 que se candidataram em 2005. Também Emanuel Serralha
acredita que Évora tem “fortes probabilidades” de chegar ao grupo das sete.
Conta, para tal, com características únicas, que enumera: “Somos uma cidade
antiga, Património da Humanidade, mas dinâmica e com, digamos, tradição nas
TIC”. De facto, em 2006, a Câmara Municipal de Évora vai celebrar uma década
como provedora de serviços de Internet para as organizações e empresas do
concelho.
QI do País pode crescer
Jorge Nascimento Rodrigues não descarta a hipótese de que esta “onda
inteligente” venha a rebentar sobre outras cidades portuguesas. De facto,
abrindo um pouco véu das actividades previstas pela empresa para o próximo
ano, afirma: “Há outros casos em Portugal que o grupo Adventus está a
procurar trazer para este network internacional”. Como explica, “vamos
desenvolver em 2006 iniciativas junto de cidades médias portuguesas do
litoral e do interior para a participação em Junho no Fórum Internacional de
Nova Iorque e avaliar que candidaturas para o concurso de 2007 poderão ser
colocadas”. Mas a linha do horizonte ultrapassa as fronteiras portuguesas:
“Também na Catalunha estamos a desenvolver o mesmo esforço de mobilização”,
remata. pe
As 21 magníficas
O processo de selecção das cidades inteligentes baseia-se em nomeações
recebidas pelo ICF da parte de comunidades e indivíduos de todo o mundo, que
são depois analisadas até a lista ser resumida a 21 comunidades. Numa
segunda fase, a análise é refinada até os nomes se reduzirem a sete, sendo a
vencedora distinguida com a menção “Cidade Inteligente do Ano”. As sete
magníficas serão anunciadas a 17 de Janeiro próximo, na conferência anual do
Conselho de Telecomunicações do Pacífico, em Honolulu, no Havai. E, a 9 de
Junho de 2006, o ICF divulga a vencedora absoluta na sua conferência anual,
em Nova Iorque.
São estas as 21 cidades inteligentes de 2006:
»» Europa
• Évora (Portugal)
• Londres (Reino Unido)
• Manchester (Reino Unido)
• Vasteras (Suécia)
»» Estados Unidos
• Adel
• Cleveland
• Filadélfia
• Monmouth
• Spanish Fork
»» Canadá
• Burlington
• Fredericton
• Nunavut
• Ottawa-Gatineau
• Sudbury
• Waterloo
»»Ásia
• Dubai Internet City (Emirados Árabes Unidos) • Gangnam (Coreia do Sul) •
Ichikawa (Japão) • Tianjin (China) • Taipei (Taiwan)
»» Austrália
• Melbourne