Expomanagement: A vitória da música

06 de novembro de 2007 às 05:25
Os dedos tortos, as palmas deformadas desfilavam suavemente nos enormes telões do centro de convenções do Hotel Transamérica. No meio de dois destes telões, ao vivo, o ex-pianista regia a Bachiana de Câmara, única orquestra privada do País. Estas mãos deformadas, se não estivessem naquele momento com a missão de reger jovens músicos, poderiam aplaudir o próprio maestro. As mãos de João Carlos Martins, palestrante que encerrou o primeiro dia da ExpoManagement 2007, promovido pela HSM, em São Paulo, são testemunhas de que a música venceu.

A presença do atualmente regente João Carlos Martins na ExpoManagement é a realização de um sonho antigo da HSM, conforme explicou o presidente Carlos Alberto Júlio, na apresentação da conferência. “No ano passado, tivemos um momento emocionante com Viviane Senna (irmã do ex-piloto Ayrton Senna) e tenho certeza de que isto se repetirá novamente”, afirmou Júlio. Ele tinha razão. O ex-pianista foi aplaudido quatro vezes, três com público em pé, sendo que numa delas por quase dois minutos, quando sentou-se ao piano.

Memórias - Martins leu na palestra as primeiras 40 linhas de seu livro, A Saga das Mãos, lançado este ano e já apontado como best seller. Lembrou do pai, que em 1908 sonhava em ser pianista e dois dias depois de ter conseguido a sua primeira professora em Braga, Portugal, teve parte das mãos decepadas pela guilhotina de uma máquina gráfica. Cabia, assim, aos filhos realizar aquele sonho, e começava a saga das mãos.

Com 13 anos, João Carlos Martins já fazia carreira nacional. Aos 20, estreava no Carnegie Hall, em Nova York, mesmo palco para onde levou no início deste ano meninos e meninas da periferia de São Paulo que fazem parte da Bachiana Jovem, um dos projetos sociais liderados pelo maestro.

Ao mesmo tempo em que teve carreira meteórica (aos 64 anos se matriculou em uma escola para regentes e não precisou de muito para aprender, com estilo próprio), consolidou sua história com desafios.

Aos 26, o prodígio pianista sofreu o primeiro acidente, ao brincar de jogar futebol com seu time do coração, a Portuguesa de Desportos, em pleno Central Park, de Nova York. Bateu a mão direita em uma pedra, passou por cirurgias, mas na primeira crítica que recebeu encerrou a carreira. “Vendi meus pianos e fui estudar economia”, contou. Só voltou a tocar, anos mais tarde, quando patrocinou o pugilista Éder Jofre a reconquistar o título mundial de boxe. “Descobri que estava sendo um covarde”, confessou.

Persistência e sucesso

João Carlos Martins redescobriu uma maneira de tocar, e um ano depois, levou 2,8 mil pessoas ao Carnegie Hall. Iniciou logo em seguida um inédito projeto para gravar toda a obra de Bach em piano.

Oito anos depois, parou novamente, desta vez por LER (lesão de esforço repetitivo). Ainda tentou tocar com a mão esquerda, mas ao ser assaltado, perdeu a consciência. Ficou internado por oito meses em um hospital de Miami para reprogramar o cérebro. Conseguiu voltar a tocar e a dedilhar as mesmas 21 notas por segundo do início de carreira. Este assalto, porém, iria encerrar a sua carreira. Em 1998, pouco antes de uma apresentação em Londres, recebeu o telefonema de seu médico e o recado de que teria de retirar um nervo para não comprometer a fala. Não poderia tocar mais, seria seu último concerto. “Sofri calado, chorei”, lembrou.

Reaprendizagem - Para continuar na música, João Carlos Martins teve até de aprender a reger com os olhos e memorizar tudo que terá de fazer no palco, pela impossibilidade de virar páginas ou em outros movimentos com as mãos. É esta lição de superação que buscou passar aos executivos que compareceram ao primeiro dia da ExpoManagement. “O importante é que tudo na vida é feito de superação”, destacou.

O ex-pianista, que teve uma carreira de 58 anos interrompida e criou coragem para iniciar outra, se emocionou ao falar de projetos sociais com deficientes. “Na China, a música é o principal instrumento de inclusão”, ensinou. Porém, mais do que fazer emocionar (tanto com sua história quanto com sua música), Martins dá lições de vida em cada palavra. Ou cada gesto, mesmos os mais difíceis para ele.

Nesta segunda-feira (5), João Carlos Martins foi aplaudido em pé por executivos emocionados ao vê-lo voltar a sentar em um piano. A expressão do olhar, a mesma forma que usa atualmente para reger em virtude das dificuldades das mãos, encara o teclado como quem vai conseguir superar um desafio. Era a expressão da dor que não ganhou. A música venceu. “Eu e meu pai, lá em cima, sabemos que isto tudo é o milagre das mãos”, concluiu. 


Fonte: Portal HSM On-line
05, 06 e 07 de novembro de 2007

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