
Em passado não muito longínquo, muitas empresas estavam divididas em pequenos “feudos”, gerenciadas por um “grande senhor feudal”. Havia dois grandes e perfeitamente identificáveis grupos: os geradores de receitas, provindas das atividades-fim, e os geradores de custos e despesas, oriundos das atividades de suporte. A área de Recursos Humanos, antes chamada de “Departamento Pessoal”, pertencia ao segundo bloco, sendo responsável pela folha de pessoal, encargos sociais, entre outros pagamentos.
Neste cenário, a principal atribuição da área financeira, após suas funções de tesouraria, era a apuração do custo total da atividade empresarial, seu controle, gerenciamento e conseqüentes ações corretivas, perante um orçamento financeiro rígido, projetado com premissas históricas. Não eram consideradas as alterações da tecnologia, as demandas do mercado, a busca da sociedade por melhor qualidade de vida, o progresso social.
Essa era a cultura dominante. A expressão “versus” era a mais adequada para definir essa relação conflituosa entre as Finanças e os Recursos Humanos. Uma visão atualmente arcaica e ultrapassada, que começou a ser modificada a partir dos anos 70, quando se instalou no Brasil, por meio das escolas de ponta, nos cursos de administração, um importante movimento conhecido como “Administração por Objetivos”, rapidamente difundido pelas empresas multinacionais e alcançando poucas companhias nacionais que, na época, já zelavam pela boa técnica de gestão. Foi o inicio de uma tímida, porém importante transição nessa cultura.
A chegada do “Planejamento Estratégico”, nos anos 80, provocou grande revolução corporativa, pois levou as empresas a “pensarem sua gestão” de forma global, onde todas as áreas funcionais se faziam presentes para discutir, avaliar e traçar objetivos estratégicos para períodos em torno de três a cinco anos. Uma prática que sabiamente vigora até hoje.
Esse grande esforço de pensar a empresa promoveu a união das diversas áreas em torno de sua Missão, Objetivos Estratégicos e Planos de Ação. Os departamentos passaram a ser células integradas em torno de uma única finalidade. Neste contexto, iniciou-se uma parceria entre as áreas de Finanças e Recursos Humanos, com planos de ações complementares, otimizando meios para alcançar resultados comuns.
A partir dos anos 90, as empresas familiares começaram um tímido processo de profissionalização de suas cúpulas diretivas. Esse movimento se consolidou na segunda metade desta década com o advento da Governança Corporativa, quando se constatou ser uma boa ferramenta para profissionalizar as empresas familiares, facilitando o acesso ao capital e contribuindo para sua perenidade.
Recentemente, com o desenvolvimento do Mercado de Capitais, as empresas foram buscar recursos financeiros de longo prazo, por meio da abertura de seu capital ao mercado de ações. Nos últimos dois anos, a maioria abriu capital no Novo Mercado, modalidade criada pela Bovespa para abrigar companhias com as melhores práticas de governança corporativa. O nome do jogo passou a ser “Criar Valor” para a Empresa, seus acionistas, clientes e governo. Atendendo a este cenário corporativo, Finanças e Recursos Humanos reforçaram suas atuações complementares, como supridoras de recursos financeiros e de pessoas, integrando a “Rede de Valor”. Suas atuações passam a ser estratégicas e inovadoras.
Por fim, finanças reconhecem que os Custos provenientes da área de Recursos Humanos são preços pagos pelo “Cliente Interno” (unidades de negócios) pelos serviços prestados, tais como: treinamento e desenvolvimento de pessoas, gestão de clima organizacional e os tradicionais serviços de administração de pessoal. Acrescentem-se os recém serviços de “coaching” (serviço individual de treinamento), serviços de “mentoring” (orienta, aconselha, aponta direções), entre outros.
Neste mercado globalizado e altamente competitivo, acirrado, sobretudo a partir da abertura da economia para o mundo, o custo total dos salários tem desafiado cada vez mais os gestores. Neste desafio, incluem-se também os executivos de finanças e recursos humanos inseridos em estratégias competitivas para manter a empresa no mercado local e global por meio de uma operação rentável, adicionando valor aos acionistas, clientes e governo.
Retomando o uso da palavra versus para definir a relação entre as áreas de Finanças e Recursos Humanos, penso que, neste contexto, ela já não é mais apropriada. Ambas devem atuar em conjunto. Portanto, hoje, a expressão que melhor caracteriza essa parceria é: Finanças e Recursos Humanos. Uma aliança lucrativa. Este é o caminho.
Walter Machado de Barros é presidente do Conselho de Administração do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças IBEF SP e sócio-diretor da WMB Consultoria de Gestão Ltda.